Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/96
Criam-se no rio de S. Francisco umas alimarias tamanhas como poldros, ás quaés os indios chamam jaguaruçú que são pintadas de ruivo e preto e malhas grandes; e tem as quatro prezas dos dentes do tamanho de um palmo: criam-se na agua d’este rio, no sertão; donde sahem a terra fazer suas prezas em antas; e ajuntam-se tres e quatro d’estas alimarias, para levarem nos dentes a anta ao rio, onde a comem á sua vontade, e a outras alimarias; e tambem aos indios que podem apanhar.
Jaguaracangoçú é outra alimaria e casta de tigre ou onça da que tratamos já e são muito maiores, cuja cabeça é tão grande como de um bom novilho. Criam-se estas alimarias pelo sertão longe do mar, e tem as feições e mais condições dos tigres, de que primeiro fallamos. Quando estas alimarias matam algum indio que se encarniçam n’elle, fazem despovàr toda uma aldeia, porque em sahindo alguma pessoa d’ella fóra de casa não escapa que a não matem e comam.
Ha outra alimaria, a que o gentio chama suçuarana, que é do tamanho de um rafeiro, tem o cabello comprido e macio, o rabo como cão, o rosto carrancudo, as mãos como rafeiro, mas tem maiores unhas e mui agudas e voltadas; vivem de rapina, tem muita ligeireza para correr e saltar; e são semelhantes na rapina ao lobo, e matam os indios se os podem alcançar, e pela terra dentro as ha muito maiores que na visinhança do mar. Para os indios matarem estas alimarias esperam-n’as em cima das arvores, donde as flexam, e lhe comem a carne; as quaes não tem mais que uma só tripa.