Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/94

CAPITULO XCIV.[1]
Em que se declara a natureza das antas do Brazil. Apontamentos das alimarias, que se criam na Bahia e da condição e natureza d’ellas.

Bem podemos dizer n’este logar que alimarias se mantêm e criam com a fertilidade da Bahia, para se acabar de crer e entender o muito que se diz de suas grandezas.

E comecemos das antas a que os indios chamam tapiruçú, por ser a maior alimaria que esta terra cria; as quaes são pardas, com o cabello assentado, do tamanho de uma mula mas mais baixas das pernas; e tem as unhas fendidas como vacca, e o rabo muito curto, sem mais cabello que nas ancas; e tem o focinho como inulla, e o beiço de cima mais comprido que o debaixo, em que tem muita força, Não correm muito, e são pezadas para saltar: defendem-se estas alimarias no mato, com as mãos, das outras alimarias, com o que fazem damno aonde chegam; comem frutas silvestres e hervas; parem uma só criança; e emquanto são pequenas são raiadas de preto e amarello tostado ao comprido do corpo, e são muito formosas; mas depois de grandes tornam-se pardas: e emquanto os filhos não andam, estão os machos por elles e emquanto a femea vai buscar de comer. Matam-n’as em fojos, em que cahen, ás flexadas. A carne é muito gostosa, como a de vacca, mas não tem sebo; e quer-se bem cozida, porque é dura; e tem o cacho como maçã do peito da vacca; e no peito não tem nada. Os ossos d’estas alimarias queimados e dados a beber são bons para estancar camaras; as suas pelles são muito rijas, e em muitas partes as não passa flexa ainda que seja de bom braço, as quaes os indios comem cozidas pegadas com a carne. D’estas pelles, se são bem cortidas, se fazem mui boas couraças, que as não passa estocada.

Se tomam estas antas pequenas, criam-se em casa, onde se fazem muito domesticas, e tão mansas que comem as espinhas, e os ossos com os cachorros e gatos de mistura; e brincam todos juntos.

Notas

  1. 168. Tapir-eté ou simplesmente tapir era o nome que davam os indigenas ao conhecido pachyderme Tapir americanus, que Buffon descreve no tomo undecimo de sua obra (Edic. de 4.º, pag. 444). — Os Castelhanos lhe chamaram ante e danta, e os Portuguezes anta, porque designavam a esse tempo com tal nome (derivado do arabigo que é semelhante) o bufalo (Bos bubalus de Lin.) que havia na Africa e no sul da Europa, e cujas pelles curtidas de côr amarella, que muito se empregavam nos vestuarios e armaduras no seculo 16, poderam substituir pelas do nosso tapir, com mais vantagem ao menos no preço. A resistencia das couras de anta á estocada era proverbial.