Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/91

CAPITULO XCI.[1]
Em que conta a propriedade das abelhas da Bahia.

Na Bahia ha muitas castas de abelhas. Primeiramente ha umas a que o gentio chama herú, que são grandes e pardas; estas fazem o ninho no ar, por amor das cobras, como os passaros de que dissemos atraz; onde fazem seu favo e criam mel muito bom e alvo, que lhe os indios tiram.com fogo, do que ellas fogem muito; as quaes mordem valentemente.

Ha outra casta de abelhas a que os indios chamam tapiuja, que tambem são grandes, e criam em ninhos que, fazem nas pontas dos ramos das arvores com barro, cuja abobada é tão subtil que não é mais grossa que papel. Estas abelheiras crestam tambem com fogo, a quem os indios comem as crianças, e ellas mordem muito.

Ha outra casta de abelhas, maiores que as de Hespanha, a que os indios chamam taturama; estas criam nas arvores altas, fazendo seu ninho de barro ao longo do tronco d’ellas, e dentro criam seu mel em favos, o qual é baço, e ellas são pretas e mui crueis.

Ha outra casta de abelhas a que o gentio chama cabecé, que mordem muito, que tambem fazem o ninho em arvores, onde criam mel muito alvo e bom; as quaes são louras, e, mordem muito.

Ha outra casta de abelhas, a que os indios chamam caapoam, que são pequenas, e mordem muito a quem lhe vai bolir no seu ninho, que fazem no chão, de barro sobre um torrão; o qual é redondo, do tamanho de uma panella, e tem serventia ao longo do chão, onde criam seu mel, que não é bom.

Cabatan são outras abelhas que não são grandes, que fazem seu ninho no ar, dependurado por um fio, que desce da ponta de um raminho: e são tão bravas que, em sentindo gente, remettem logo aos beiços, olhos e orelhas, onde mordem cruelmente; e n’estes ninhos armam seus favos, onde criam mel branco e bom.

Saracoma são, outras abelhas pequenas que fazem seu gazalhado entre folhas das arvores, onde não criam mais que sete ou oito juntas; e fazem alli seu favo, em que criam mel muito bom e alvo; estas mordem rijamente, e dobram umas folhas sobre outras, que tecem com uns fios como aranhas, onde tem os favos.

Ha outra casta de abelhas, a que o gentio, chama cabaojuba, que são amarellas, e criam nas tocas das arvores, e são mais crueis que todas; e em sentindo gente remettem logo a ella e convem levar apparelho de fogo prestes, com o qual lhe tiram os favos cheios de mel muito bom.

Capueruçú é outra casta de abelhas grandes: criam seus favos em ninhos, que fazem no mais alto das arvores, do tamanho de uma panella, os quaes são de barro; os indios os crestam com fogo, e lhes comem os filhos, que lhe acham; as quaes tambem mordem onde chegam a quem lhes vai bolir.

Notas

  1. 165. Seguem varios hymenopteros da familia mellifera. Da canajuba trata Baena (Corog. pag. 121) e da copueruçú Carvalho (cap. 351) e Piso (pag. 287), que tambem se occupa da Taturama (pag. 289).