Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/87
Uranhengatá é uma ave do tamanho de um estorninho, que tem o peito, pescoço, barriga e coxas de fino amarello, e as costas, azas e rabo de cor preta mui fina, e a cabeça e de redor do bico um só queixo amarello, e as pernas e pés como flouba; os quaes criam em ninhos, em arvores altas, onde os tomam em novos e os criam em casa, onde se fazem tão domesticos, que vão comer ao mato e tornam para casa.
Sabiátinga são uns passarinhos brancos, que tem as pontas das azas pretas, e as do rabo que tem compridas, os quaes criam em ninhos que fazem nas arvores, mantém-se das pimentas que buscam; de cujo feitio se criam pelo campo muitas pimenteiras.
Tiépiranga são passaros vermelhos do corpo, que tem as azas pretas, e são tamanhos como pintarroxos; criam em arvores, onde fazem seus ninhos; aos quaes os indios esfolam os peitos para forrarem as carapuças, por serem muito formosos.
Gainambî são uns passarinhos muito pequenos, de côr apavonada, que tem os bicos maiores que o corpo, e tão delgados como alfinetes: comem aranhas pequenas e fazem os seus ninhos das suas teas; tem as azas pequenas e andam sempre bailando no ar, espreitando as aranhas; criam em tocas de arvores.
Ha outra ave, a que os indios chamam ayaya, que é do tamanho de uma franga toda vermelha, tem o bico verde, os pés pretos e o cabo do bico amaçado como pata; fazem seus ninhos em arvores altas, e mantem-se da fruta d’ellas, Jaçanã são uns passaros pequenos todos encarnados e os pés vermelhos criam-se em arvores altas, onde fazem os. ninhos, e mantem-se das frutas do mato.
Ha outros passarinhos pequenos todos vestidos de azul, côr muito subida, aos quaes os indios chamam sayubui, que tem o bico preto, e criam em arvores, e mantem-se dos bichinhos da terra.
Tupiana são uns passarinhos que tem o peito vermelho, a barriga branca e o mais azul; e tem os bicos compridos, muito delgados; e criam nas arvores, em ninhos, e mantem-se de bichinhos.
Tiéjuba são passarinhos pequenos que tem o corpo amarello, as azas verdes, o bico preto; criam em tocas de arvores, e mantem-se de pedrinhas que apanham pelo chão.
Macacica é um passaro. pequeno que tem as azas verdes, a barriga amarella, as costas e o rabo pardo, e o bico preto; fazem estes passaros os ninhos nas pontas das arvores; dependurados por um fio da mesma arvore; e os ninhos são de barro e palha, com curucheos por cima muito agudos, e servem-se por uma portinha, onde põem dous ovos; e fazem os ninhos d’esta feição por fugirem ás cobras que lhes comem os ovos, se os acham em outra parte,
Ha outros passaros que os indios chamam sijá, que são tamanhos como papagaios todos verdes, e o bico revolto para baixo, os quaes criam em tocas de arvores, de cuja. fruta se mantem.
Notas
- ↑ 161. Uranhengatá é o passarinho do Brazil que substitue no canto o canario e o pintasilgo. Gorinhatá escrevem alguns; e Nuno Marques Pereira, no Peregrino da America (Lisbôa, 1760 pag. 48), Guarinhatãa. Hoje diz-se Grunhatá (Cazal I, 84, e Rebello, Cor. da Bahia, 1829, pag. 56). ― Parece o Icterus citrinus de Spix. Sabiatinga (que ainda hoje em algumas partes se chama sabiá branco) é o Turdus Orpheus de Spix. Tié piranga é o nosso mui conhecido tihé (Tangara nigrogularis de Spix) ― Gainambi é o nome indigeno dos beija-flores, que hoje constituem varios generos; e Ayayà o da linda colheireira que Vieillot designou como Platalea aiaia. Jaçanã, pelo nome, deve ser do genero Parra; e n’este caso talvez a de que trata Soares seria encarnada por metamorphose que essa especie soffra, como acontece aos guarás (Ibis ruber) ― Segue-se a Tangara cœlestis de Spix, e mais duas aves que tambem podem ser do mesmo genero, se alguma não é antes Muscicapa ou Lanius. A ultima ave é da familia psittacina.