Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/80

capitulo lxxx.[1]
Em que se declara a natureza dos canindés, aráras e tucanos.

Canindé é um passaro tamanho como um grande gallo; tem as pennas das pernas, barriga e collo amarellas, de côr muito fina, e as costas acatazoladas de azul e verde, e as das azas e rabo azues, o qual tem muito comprido, e a cabeça por cima azul, e ao redor do bico amarello; tem o bico preto, grande e grosso; e as penuas do rabo e as das azas são vermelhas pela banda debaixo. Criam em arvores altas onde os indios os tomam novos nos ninhos, para se criarem nas casas; porque fallam e gritam muito, com voz alta e grossa os quaes mordem mui valentemente, e comem frutas das arvores, e em casa tudo quanto lhe dão; cuja carne é dura, mas aproveitam-se d’ella os que andam pelo mato. Os indios se aproveitam das suas pennas amarellas para as suas carapuças, e as do rabo, que são de tres e quatro palmos, para as embagaduras das suas espadas.

Arára é outro passaro do mesmo tamanho e feição do canindé, mas tem as pennas do collo, pernas e barriga vermelhas, e as das costas, das azas, e do rabo azues, e algumas verdes, e a cabeça e pescoço vermelho, e o bico branco e muito grande, e tão duro que quebram com elle uma cadeia de ferro, os quaes mordem muito e gritam mais. Criam estas aves em arvores altas, comem frutas do mato e milho pelas roças, e a mandioca quando está a curtir. Os indios tomam estes passaros quando são novos nos ninhos, para os criarem; os quaes depois de grandes cortam com o bico por qualquer páo, como se fosse uma inxó. A sua carne é como a dos canindés, de cujas pennas se aproveitam os índios.

Tucanos são outras aves do tamanho de um corvo; tem as pernas curtas e pretas, a penna das costas azulada, a das azas e do rabo anilada, o peito cheio de frouxel muito miudo de finissimo amarello, o qual os indios esfolam para forro de carapuças. Tem a cabeça pequena, o bico branco e amarello, muito grosso, e alguns são tão compridos como um palmo, e tão pesados que não podem com elle quando comem, porque tomam grande bocado, com o que viram o bico para cima, porque não póde o pescoço com tamanho peso, como têm. Criam estes passaros em arvores altas, e tomam-n’os novos para se criarem em casa; os bravos matam os indios á flexa, para lhe esfolarem o peito, cuja carne é muito dura e magra.

Notas

  1. 154. O Canindé de Soares é uma variedade da Aratinga luteus de Spix (Av. Tom. 1.º Tab. 16). Confronte-se tambem a descripção de Buffon (Hist. Nat. Tom. 7º p. 154 e 155, edic. 4.ª gr.) — A arára e tocanos são bem conhecidos. — Embagadura, entre os indigenas, era o punho da espada, segundo melhor se explica no capitulo 173.