Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/57
Não foi descuido deixar os ananazes para este logar por esquecimento; mas deixamo-los para elle, porque se lhe deramos o primeiro, que é o seu, não se pozeram os olhos nas frutas declaradas no capitulo atraz; e para o pôrmos só, pois se lhe não podia dar companhia conveniente a seus merecimentos.
Ananaz é uma fruta do tamanho de uma cidra grande, mas mais comprida; tem olho da feição dos alcachofres, e o corpo lavrado como alcachofre molar, e com uma ponta e bico em cada signal das pencas, mas é todo maciço; e muitos ananazes lançam o olho e ao pé do fruto muitos olhos tamanhos como alcachofres. A herva em que se criam os ananazes é da feição da que em Portugal chamam herva babosa, e tem as folhas armadas, e do tamanho da herva babosa, mas não são tão grossas; a qual herva ou ananazeiro espiga cada anno no meio como o cardo, e lança um grelo da mesma maneira, e em cima d’elle lhe nasce o fruto tamanho como alcachofre, muito vermelho, o qual assim como vai crescendo, vai perdendo a côr e fazendo-se verde; e como vai amadurecendo, se vai fazendo amarello acataçolado de verde, e como é maduro conhece-se pelo cheiro como o melão. Os ananazeiros se transpõem de uma parte para a outra, e pegam sem se seccar nenhum; ainda que estejam com as raizes para o ar fóra da terra ao sol mais de um mez os quaes dão novidade d’ahi a seis mezes e além dos filhos, que lançam ao pé do fruto e no olho, lançam outros ao pé do ananazeiro, que tambem espigam e dão seu ananaz, como a mãi donde nascêram, os quaes se transpõem, e os olhos que nascem no pé e no olho do ananaz.
Os ananazeiros duram na terra, sem se seccarem, toda a vida; e se andam limpos de herva, que entre elles nasce, quanto mais velhos são dão mais novidade; os quaes não dão o fruto todos juntamente; mas em todo o anno uns mais temporãos que os outros, e no inverno dão menos fruto que no verão, em que vem a força da novidade, que dura oito mezes. Para se comerem os ananazes hão de se aparar muito bem, lançando-lhe a casca toda fóra, e a ponta de junto do olho por não ser tão doce, e depois de aparado este fruto, o cortam em talhadas redondas, como de laranja ou ao comprido, ficando-lhe o grelo que tem dentro, que vai correndo do pé até o olho; e quando se corta fica o prato cheio de suino que d’elle sahe, e o que se. lhe come é da côr dos gomos de laranja, e alguns ha de côr mais amarella; e desfaz-se tudo em sumo na boca, como o gomo de laranja, mas é muito mais sumarento; o sabor dos ananazes é muito doce, e tão suave que nenhuma fruta de Hespanha lhe chega na formosura, no sabor e no cheiro; porque uns cheiram a melão muito fino, outros a comoezas: mas no cheiro e no sabor não ha quem se saiba afirmar em nada; porque, ora sabe e cheira a uma cousa, ora a outra. A natureza d’éste fruto é quente e humido, e muito damnoso para quem tem ferida ou chaga aberta: os quaes ananazes sendo verdes são proveitosos para curar chagas com elles, cujo sumo come todo o cancere, e carne podre, do què se aproveita o gentio: e em tanta maneira come esta fruta, que alimpam com as suas cascas a ferrugem das espadas e facas, e tiram com ellas as nodoas da roupa ao lavar; de cujo sumo, quando são maduras, os Indios fazem vinho, com que se embebedam; para o que os colhem mal maduros, para ser mais azedo, do qual vinho todos os mestiços e muitos Portuguezes são mui afeiçoados. D’esta fruta se faz muita conserva, aparada da casca, a qual é muito formosa e saborosa, e não tem a quentura e humidade de quando se come em fresco.
Notas
- ↑ 131. O ananaz offerece exemplo de mais uma palavra indigena nossa que passou ás línguas da Europa, e á linguagem das sciencias, depois que Thunberg formou o gênero Ananassa. Vamos registando estes factos para decidir se para nós a lingua guarani é ou não digna, a par da grega, de ser cultivada como lingua sabia, necessária para dar esclarecimentos não só na ethnographia e na botanica, como nos differentes ramos da zoologia. Só na botanica, além do mencionado genero Ananassa, temos com nomes brazileiros os generos (não fallando nas espécies) Andira, Apeiba, Jacarandá, Icica e Ingá.