Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/120

CAPITULO CXX.[1]
Em que se trata da natureza das formigas de passagem.

Temos que dizer de outra casta de formigas mui estranha, a que os indios chamam goajugoajú, as quaes são pequenas e ruivas, e mordem muito; estas de tempos em tempos se sahem da cova, maiormente depois que chove muito, e torna a fazer bom tempo que se lhe enche a cova de agua; e dão em uma casa onde lhe não fica caixa em que não entrem, nem buraco, nem greta pelo chão e pelas paredes, onde matam as baratas, as aranhas e os ratos, e todos os bichos que acham; e são tantas que os cobrem de improviso, e entram-lhes pelos olhos, orelhas e narizes, e pelas partes baixas, e assim os levam para os seus aposentos, e a tudo o que matam; e como correm uma casa toda passam por diante a outra, onde fazem o mesmo e a toda uma aldêa; e são tantas estas formigas, quando passam, que não ha fogo que baste para as queimar, e põem em passar por um lugar toda uma noite, e se entram de dia todo um dia; as quaes vão andando em ala de mil em cada fileira; e se as casas em que entram são terreas, e acham a roupa da cama no chão, por onde ellas subam, fazem alevantar mui depressa a quem n’ella jaz, e andar por cima das caixas e cadeiras, sapateando, lançando-as fóra, e cossando; porque ellas, em chegando, cobrem uma pessoa toda, e se acham cachorros e gatos dormindo, dão n’elles de feição, e em outros animaes, que os fazem voar; e matam tambem as cobras que acham descuidadas; e viu-se por muitas vezes levarem-n’as estas formigas a rastões infinidade d’ellas; e matam-n’as primeiro entrando-lhe pelos olhos e ouvidos, por onde as tratam e mordem tão mal, e de feição que as acabam.

Notas

  1. 194. A palavra goajugoajú parece-nos não ter soffrido adulteração: é uma Formica destructrix.