Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/118
Na Bahia se cria muita diversidade de aranhas, e tão estranhas que convem declarar a natureza de algumas.. E peguemos logo nas a que chamam nhanduaçú, as quaes são tamanhas como grandes carangueijos, e muito cabelludas e peçonhentas; remetem á gente de salto, e tem os dentes tamanhos como ratos, cujas mordeduras são mui perigosas; e criam-se em páos podres, no concavo d’elles, e no povoado em paredes velhas.
Ha outra casta de aranhas, a que os indios chamam nhandui, que são as acostumadas em toda a parte de que se criam tantas no Brazil, com a humidade da terra que, se não alimpam as casas muitas vezes, não ha quem se defenda d’ellas. Estas fazem um bolso na barriga muito alvo, que parece de longe algodão, que é do tamanho de dous reales, e de quatro, e de oito reales, em o qual bolso criam mais de duzentas aranhas; e como podem viver sem a mãe largam o bolso de si com ellas, e cada uma vai fazer seu ninho; e como esta sevandija é tão nojenta, escusamos de dizer mais d’ella.
Surajú chamam os indios a im bicho como os lacráos de Portugal, mas são tamanhos como camarões, e tem duas bocas compridas; e se mordem uma pessoa, está atormentada, com ardor vinte quatro horas, mas não periga.
Criam-se na Bahia outros bichos da feição dos lacráos, a que os indios chamam nhanduabijú, os quaes tem o corpo tamanho como um rato, e duas bocas tamanhas como de lagosta; os quaes são todos cheios de pello, e muito peçonhentos, cujas mordeduras são mui perigosas; e criam-se em tocas de arvores velhas no podre d’ellas.
Não são para lembrar as immundicias de que até aqui tratamos, porque são pouco damnosas, e ao que se póde atalhar com alguns remedios; mas á praga das formigas não se póde compadecer, porque se ellas não foram, a Bahia se podéra chamar outra terra de promissão, das quaes começaremos a dizer d’aqui por diante.