Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/116
Soca chamam os indios á lagarta, que é tambem como bichos de seda, quando querem morrer que estão gordos, a qual se cria de borboletas grandes que vão de passagem. A’s vezes se cria essa lagarta com muita agua e morre como. faz sol, outras vezes se cria com grande secca e morre como chove. Uma e outra destroe as novidades de mandioca, algodão, arroz e faz mal á cana nova de assucar, e ás vezes é tanta esta lagarta, que vão as estradas cheias d’ellas, e deixam o caminho varrido da herva, e escaldado. E quando dão nas roças da mandioca chascam de maneira que se ouve um tiro de pedra, ás quaes comem os olhinhos novos, e depois as outras folhas; e muitas vezes é tanta que comem a casca dos ramos da mandioca; e se se não muda o tempo, destroe as novidades de maneira que causa haver fome na terra, e o chão por onde esta praga passa, ainda que seja mato, fica escaldado de maneira que não cria herva em dous annos.
Imbuá é outra casta de lagartas verdes pintadas de preto e a cabeça branca, e outras pintadas de vermelho e preto, e todas são tão grossas como um dedo, e de meio palmo de comprido, com muitas pernas, as quaes crestam a terra e arvores por onde passam.
Ha outras mais pequenas que as de traz, que são pretas, de côr muito fina, todas cheias de pello tão macio como veludo, e tão peçonhento, que faz inchar a carne se lhe tocam, com cujo pello os indios fazem crescer a natura; e chamam a estas socauna.
Nos limoeiros e em outras arvores naturaes da terra se criam outras lagartas verdes, todas cobertas de esgalhos verdes, muito subtis e de estranho feitio, tão delgados como cabellos da cabeça, o que é impossivel poder-se contrafazer com pintura; estas tem os indios por mais peçonhentas que todas, e fogem muito d’ellas; e affirmam que fazem seccar os ramos das arvores por onde passam com lhes morderem os olhos.
Em outras arvores que se chamam cajuzeiros, se criam umas lagartas ruivaças, tamanhas como as das couves em Portugal, todas cobertas de pello, as quaes como sentem gente debaixo, sacodem este pello de si, e na carne onde chega, se levanta logo tamanha comichão que é peior que a das ortigas, o que dura todo um dia e criam-se estas nos ramos velhos.
Notas
- ↑ 190. Não sabemos individuar os apteros myriapodes, que Soares descreve n’este capitulo, por nossa mingua de conhecimentos entomologicos, e falta de collecções que nos siryam de guia. Piso (p. 287) escreve Ambuá.