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alimaria enroscam-se com ella, e apertam-n’a rijamente, e buscam-lhe com a ponta do rabo os ouvidos, pelos quaes lhe mettem com muita presteza, por que a tem muito dura e aguda; e por este lugar matam a preza, em que se depois desenfadam á vontade.
Surucucú são umas cobras muito grandes e brancas na côr, que andam pelas arvores, d’onde remettem á gente, e a caça que passa porjunto d’ellas, as quaes tem os dentes tamanhos que quando mordem levam logo bocado de carne fóra. D’estas cobras são os indios muito amigos, e tomam-n’as em umas armadilhas, que chamam mondéos, e se o macho acha alli a femea preza e morta, espera alli o armador, com quem se cinge, e não o larga até que o mata, e torna a esperar alli até que venha outra pessoa, a quem morde sómente, e com esta vingança se vai d’aquelle lugar.
Ha outra casta de cobras, a que os indios, chamam tiopurana, que são de quarenta e cincoenta palmos de comprido, que não mordem nem fazem mal á gente nenhuma, e mantem-se da caça que fomam. Estas tomam os indios ás mãos, quando são novas, e prendem n’as em casa, aonde as criam, e se fazem tão domesticas que vão buscar comer ao mato e tornam-se para casa, cuja carne é muito saborosa.
Caninam são outras cobras meas na grandura, com a pelle preta nas costas e amarella na barriga, as quaes criam em os concavos dos pãos podres, e são muito peçonhentas, e os mordidos d’ellas morrem muito depressa, se lhes não acodem logo.
Boiubú quer dizer cobra verde, que não são grandes, e criam-se no campo, onde se mantem com ratos que tomam. Estas tambem mordem gente se podem, mas são muito peçonhentas, as quaes se enroscam com as lagartixas, ratos e com outros bichos com que se atrevem, que tambem matam para comer.
Ha outra casta de cobras a que os indios chamam ubiracoá, que são pequenas e de côr ruivaça, as quaes andam sempre pelas arvores, d’onde mordem no rosto e pelos lugares altos das pessoas, e não se descem nunca ao chão; e se não acodem á mordedura d’esta com brevidade, é a sua