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andam sempre na agua, onde as femeas parem muitos filhos; mantem-se do peixe e camarões que tomam, cuja carne comem os indios.
Tatuaçú é um animal estranho, cujo corpo é como um bacoro, tem as pernas curtas cheias de escamas, o focinho comprido cheio de conchas, as orelhas pequenas, e a cabeça, que é toda cheia de conchinhas; os olhos pequeninos, o rabo comprido cheio de laminas em redondo, que cavalga uma sobre outra; e tem o corpo todo coberto de conchas feitas em laminas, que atravessam o corpo todo, de que tem armado uma formosa coberta; e quando se este animal teme de outro, mette-se todo debaixo d’estas armas, sem lhe ficar nada de fóra, as quaes são muito fortes: tem as unhas grandes, com que fazem as covas debaixo do chão, onde criam; e parem duas crianças. Mantem-se de frutas silvestres e minhocas; andam de vagar, e se cahem de costas, tem trabalho para se virar; e tem a barriga vermelhaça toda cheia de verrugas. Matam-n’os os indios em armadilhas onde cahem; tiram-lhe o corpo inteiro fóra d’estas armas, que estendidas são tamanhas como uma adarga; cuja carne é muito gorda e saborosa, assim cozida, como assada.
Ha uma casta de tatús pequenos da feição dos grandes, os quaes tem as mesmas manhas e condição; mas quando se temem de lhe fazerem mal, fazem-se em uma bola toda coberta em redondo com suas armas, onde ficam mettidos sem lhes apparecer cousa alguma; cuja carne é muito boa; comem e criam como os grandes. A estes chamam tatúmerim.
Ha outros tatús meãos, que não são tamanhos como os primeiros, de que se acham muitos no mato, cujo corpo não é maior que de um leitão; tem as pernas curtas cobertas de conchas, a cabeça comprida cheia de conchas, os dentes de gato, as unhas de cão, o rabo comprido e muito agudo coberto de conchas até a ponta, e por cima sua coberta de laminas como os grandes que são muito rijas, e na barriga não tem nada; cuja carne quando estão gordos é boa, mas cheira ao mato; mantem-se de frutas e minhocas,