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de arvores grossas, e em povoado nas igrejas, de cujas alampadas comem o azeite.

Jucurutú é uma ave tamanha como um frango, que em povoado anda de noite pelos telhados; e no mato cria em tocas de arvores grandes, e anda ao longo dos caminhos; e aonde quer que está, toda a noite está gritando pelo seu nome. Esta ave é de côr brancacenta, tem as pernas curtas, a cabeça grande com tres listas pardas por ella que parecem cutiladas, e duas pennas n’ella de feição de orelhas.

Ha outros passaros, a que os indios chamam ubujaús, que são tamanhos como pintãos, tem a cabeça grande, o rabo comprido; e são todos pardos e muito cheios de penugem, os quaes andam de noite gritando cuxaiguigui.

Ha outros passaros do mesmo nome mais pequenos, que são pintados, os quaes andam de madrugada dando os mesmos gritos e uns e outros criam no chão, onde põem dous ovos somente; e mantem-se das frutas do mato.

Ha outros passaros pardos, a que os indios chamam oitibó, com que tem grande agouro; os quaes andam ordinariamente gritando oitibó, e de dia não os vê ninguem; e mantem-se das frutas e folhas de ar vores, onde lhe amanhece.

Aos morcegos chamam os indios andura; e ha alguns muito grandes, que tem tamanhos dentes como gatos, com que mordem; criam nos concavos das arvores, e nas casas e logares escuros; as femeas parem quatro filhos e trazemos pendurados ao pescoço com as cabeças para baixo, e pegados com as unhas ao pescoço da mãe; quando estes morcegos mordem alguem que está dormindo de noite, fazemn’o tão subtilmente que se não sente; mas a sua mordedura é mui peçonhenta. Nas casas de purgar assucar se criam infinidade d’elles, onde fazem muito damno, sujando o assucar com o seu feitio, que é como de ratos; e comem muito d’elle.

CAPITULO LXXXVII.com. 161
Em que se declara de alguns passaros de diversas côres e costumes.

Uranhengatá é uma ave do tamanho de um estorninho, que tem o peito, pescoço, barriga e coxas de fino amarello, e as costas, azas e rabo de cor preta mui fina, e a cabeça e de redor do bico um só queixo amarello, e as pernas e pés como flouba; os quaes criam em ninhos, em arvores altas,