Lincoln: narração de sua vida pessoal/VII

VII

O SEGUNDO ARRANCO

 

Espiaçado pela sua falha em Washington, entregou-se Lincoln por algum tempo, de corpo e alma, ao estudo das leis, depois de a si proprio explicar o fracasso como devido á deficiencia de treino mental.[1] E repetiu a experiencia feita com Logan, porém com muito maior determinação e mais resultados.

Naqueles dias, no Illinois como na Inglaterra, os juizes percorriam um certo numero de termos, para julgamento dos casos em curso. Juizes e advogados iam de cidade em cidade, "fazendo o circuito"; ás vezes de deligencia, ás vezes a cavalo ou em troles proprios. Nas reminiscencias de Lincoln relativas a esse periodo está o seu "Poky", um cavalo velho, e o seu "ramshackle", um velho trole. Muitas e muitas milhas, no Oitavo Circuito Judicial, percorreu daquela humilde maneira. Que pensamentos lhe brotaram no cerebro durante tais viagens Lincoln não nos contou. As nuvens de sua vida interior deviam andar excessivamente densas. Já a sua vida exterior dessa epoca é por demais conhecida.

"Frequentemente eu saia com ele, escreve Herndon", e nas pequenas hospedarias do caminho ocupavamos a mesma cama. Em muitos casos era cama curta demais para um homem tão comprido, e seus pés sobravam, ficando de fora com um bom pedaço de canela. Com a luz á cabeceira da cama punha-se a estudar durante horas, pela noite a dentro. Muitas vezes o vi assim até duas da madrugada. Entrementes, eu e outros, que por acaso ocupassemos o mesmo comodo, dormiamos regaladamente. Foi nesses circuitos que Lincoln estudou Euclides, até conseguir com facilidade demonstrar todas as suas proposições. Como podia ele manter o equilibrio ou concentrar o pensamento na abstração matematica, enquanto Davis Logan, Swett, Edward e eu enchiamos o recinto com os nossos roncos, era coisa que nunca pudemos compreender".[2]

Uma surrada edição de Shakespeare não o abandonava nunca.

Lincoln progrediu rapidamente na profissão, mesmo a despeito da falta de sistema. Do mesmo modo que nos tempos de Logan, desinteressava-se do lado mecanico da advocacia, e deixava o preparo dos papeis a cargo do seu socio mais moço. Mas a situação mudara dum modo importante. Lincoln encontrara em Herndon um moço de talento que o adorava como Sexta-Feira adorava Robinson. Mas felizmente essa adoração não induzia Herndon a idealizar o seu heroi. O moço não se deixava perturbar pelas facetas grotescas e absurdas de Lincoln.

"Sempre o conheci desleixado no vestuario”, escreveu esse socio de escritorio. "Numa carta a um colega de outra cidade, desculpando-se de não haver respondido mais cedo, dizia M. Lincoln: Primeiramente, estive muito ocupado no Tribunal; depois, quando recebi sua carta, pu-la dentro do meu chapeu velho, e como no dia seguinte adquirisse um novo e encostasse aquele, a carta me ficou fora de vistas por algum tempo. Esse chapeu de Lincoln — um chapeu alto de seda — constituia um extraordinario receptaculo. Secretária e gaveta. Nele levava o seu caderno de cheques e um maço de cartas. Nas suas leituras ou investigações, quando queria tomar uma nota, lançava-a ás costas dum envelope ou em qualquer pedaço de papel e espetava-o na cartola; desse modo tinha as notas sempre á mão". Herndon não trepida em revelar o desleixo do escritorio. Tão neglicenciado, que um moço, de muito apuro nos habitos, que nele entrara como estudante de leis, não resistiu á tentação de proceder a uma limpeza; o primeiro habitué que surgiu espantou-se da mudança e exclamou: "Que é que aconteceu por aqui?"[3]

"Esse escritorio", escreveu esse estudante", ficava no segundo andar duma casa de tijolos, no largo do Forum. Subia-se e ao fim do corredor ficava a saleta. Uma comprida mesa no centro e outra menor encostada, formando um T, coberta de pano verde. Duas janelas abrindo para o patio. A um canto, uma velha secretária com repartições e uma gaveta onde Mr. Lincoln e seu socio guardavam os papeis. Havia tambem uma estante com uns duzentos volumes, livros de direito e outros. Nenhuma ordem ali". Tudo que dizia respeito a dinheiro Lincoln deixava a cargo de Herndon. "Nunca fez um lançamento no livro de contas. Se na ausencia de Herndon recebia algum pagamento, dividia o dinheiro, embrulhava uma parte e punha-a na mesa do socio, com uma nota, Caso de Roe versus Doe — metade de Herndon. Tinha o habito de ler alto, com muito aborrecimento do companheiro. Falava sem cessar; ás vezes lá se ia a tarde inteira consumida pelas historias. [4]

Essas historias tornaram-se uma instituição no circuito. Dois homens, já de ha muito esquecidos, lutavam contra ele como rivais em humorismo. As vezes travavam-se verdadeiros torneios. Herndon via "o hotelzinho, onde nos intervalos do tribunal os tres se reuniam, encher-se de gente ansiosa por assistir á luta entre os membros daquele estranho triunvirato. Os medicos da cidade, todos os advogados e com frequencia um pregador faziam parte da turba de ouvintes. As historias contadas não podem ser repetidas aqui, pois, conquanto expondo a fraqueza moral das creaturas humanas, eram bem mal cheirosas. Algumas, sem duvida, teriam seculos de idade; mas com a mudança dos nomes e vestidas ao sabor do tempo, tornavam-se novidades. Graças a esses recursos, Lincoln localizava-a "no Egito"[nota 1] ou em Indiana uma "historie drolatique" de Balzac e impingia-a como absolutamente original... Vi o juiz Treat, que era a propria gravidade em pessoa, cair sentado e rir-se até quasi, como ele mesmo dizia, "arrebentar as costelas". No dia seguinte Treat tomava assento no tribunal e ouvia Lincoln sobre um caso de homicidio, com toda a severidade dum juiz inglês na sua cabeleira".[5]

Lincoln apreciava aquela vida. Não que sempre estivesse em maré de anedotas; boa parte do tempo passava remoendo ideias, e suas homericas expansões alternavam com assomos de melancolia. Levantava-se sempre cedo, apesar dos estudos noturnos e das interminaveis sessões do torneio anedotico. "As vezes sentava-se ao pé do fogo espevitava as brasas, ficando a pensar ou falar em soliloquio".[6] Alem do amado Shakespeare, gostava de poesias de tipo muito diferente, como Byron. Nunca se cansou do conjunto de estancias que abrem com "Oh, why should the spirit of mortal be proud?"[7]

A hilaridade do circuito não era tudo para Lincoln. Parte do encanto residia no contraste com o seu recente insucesso em Washington. Dominava aquele mundo ali. Ali o seu humor lhe aumentava a influencia, e rapidamente. Era o favorito dos juizes, do juri e do forum. Sempre respeitoso para com as damas, geralmente se sentia pouco á vontade diante delas. Não brilhava no que seus amigos chamavam "sociedade geral". Muito desajeitado, muito desatento a amenidades de salão. Em casa, embora posuisse uma e estivesse ganhando o que para ele significava muito dinheiro, devia constituir um castigo para Mrs. Lincoln. Não conseguia elevar-se socialmente ao nivel da esposa. Conservava-se o que fôra sempre, o favorito de todos os homens — o velho e bom Abe em que todos podiam confiar, embora chovesse cães e gatos. Mas com as damas! Pessoas da moda que iam em visita a Mrs. Lincoln ele as recebia em mangas de camisa, inteiramente á vontade, como se fosse um nobre e não um ninguem.[8] Diz a tradição que á mesa se servia de manteiga com a propria faca. O povo rosnava que a pobre Mrs. Lincoln tinha em casa um urso em vez dum marido. Diziam tambem que não vinha para casa nos fins de semana quando em serviço fora, como muitas vezes teria podido. Talvez esse fato significasse qualquer coisa, talvez não. Mas não havia duvida que a alegre vida itinerante do Circuito muito lhe agradava. Tanto mesmo, que chegou a recusar lisongeiro convite para fazer parte de prospera firma de Chicago.

De tudo resultou um aumento do seu poder de impressionar aos homens por meio da palavra. O torneio dos contadores de historias era um torneio de advogados. A figura central vivia lendo, estudando, pensando — aperfeiçoando-se como em nenhum outro periodo da sua existencia. Embora suas fabulas permanecessem do tipo grosso, já iam mudando de carater. A inclinação etica do espirito de Lincoln vinha á tona. Seus amigos concordavam que o melhor daquelas historias era a lição moral.[9]

Seu senso das coisas eticas e a larga sociabilidade, a profunda tolerancia de espirito e o poder de transformar casos em parabolas — tudo isso o tornava insuperavel no juri. "Se eu pudesse despir este caso de todas as tecnicalidades e lança-lo ao juri, minha vitoria seria certa", é uma frase a ele atribuida.[10]

Mas nada ha nele da falta de escrupulos geralmente atribuida ao advogado do juri. Poucas coisas mostram mais firmemente o carater de Lincoln, do que a sua imunidade aos "passes" dos advogados "espertos". Usar o talento perante os jurados para regalo proprio, ou com outro alvo que não o da justiça, era-lhe organicamente impossivel. Sua natureza, por mais misteriosa que fosse, primava pela simplicidade — uma terrivel simplicidade. O exercicio de suas singulares faculdades irrevogavelmente se condicionava á sua fé na justificação moral. Não admitia nenhuma concepção de advogado que não fosse um instrumento da justiça. Despresava a ideia da lei como um jogo, uma estrategia aceita pelo estado. Nunca, sob condição nenhuma, tentou puxar para o cliente mais do que em justiça lhe cabia. O seu primeiro passo numa causa: convencer-se de que era justa. Muitas abandonou em meio, ao perceber que o cliente não era o que lhe parecera. E não poupava ironias contra os comercializadores da lei.

"Numa acirrada demanda", escreve o seu socio Ward Hill Lamon. "Lincoln fez a prova da conta dum cliente de moral incerta. O advogado contrario, porém, apresentou um recibo que liquidava a questão. Lincoln não se achando presente, o tribunal mandou chama-lo no hotel. "Digam ao juiz que não vou, respondeu ele". "Minhas mãos ficaram sujas e estou procurando lava-las." [11]

"Procurai evitar as demandas," escreveu ele. “Procurai induzir vossos vizinhos a acordo, sempre que for possivel. Mostrai-lhes como o nominal vencedor frequentemente sai perdendo, em despesas, custas, honorarios de advogados e perda de tempo. Como elemento conciliador, um advogado tem altas oportunidades de ser um homem de bem."[12]

Lincoln manteve a sua moral profissional com a mesma inflexibilidade com que manteve a sua moral politica. Ninguem o demovia quando se firmava numa ideia. Singularmente obstinado nesse ponto, embora nas coisas menores da vida, que não afetavam suas ideias centrais, não passasse da mais maleavel das creaturas. Essas feições transparecem em grande numero de casos, durante o periodo do Circuito. Favorito que se tornara de toda gente nos hoteis, breve os hoteleiros concluiram que de tal hospede nunca viriam reclamações. Nos pequenos favores, na escolha dos quartos, no assinalamento de lugares á mesa, na distribuição de petiscos, o comodo Lincoln era o primeiro a ser ignorado. "Nunca se queixou da comida, da cama ou dos quartos," diz David Davis. "Se outros rosnavam á apresentação das contas, Lincoln jamais fez a menor reclamação."[13]

Mas a sua complacencia era apenas superficial. Tinha ideias proprias e suas ideias eram suas. A elas se apegava com extrema tenacidade. Herndon foi um dos varios que na familiaridade de Lincoln discernia a sua inflexibilidade. "Estou convencido," diz ele, "que nunca o levei a modificar nenhuma das suas ideias. E ainda direi mais: depois de se haver firmado numa conclusão, homem nenhum o demudava, ou fazia modificar a sua ideia." [14]

Teve Herndon naqueles anos muitas ocasiões de verificar a tenacidade com que seu socio se apegava ás proprias ideias e a indiferença que tinha pela dos outros. Herndon tornara-se abolicionista e inutilmente tentou induzi-lo a fazer o mesmo. Lincoln mostrou-se inexpugnavel como a Esfinge. O ardente moço atacou-o de todas as formas, advertiu-o do seu aparente conservantismo diante das necessidades da hora; sua unica resposta era: "Billy, você é muito exuberante e espontaneo."[15]

Nada o demovia da convicção de que a violencia do abolicionismo fazia dessa ideia um mal. Equiparava-o á escravidão: eram dois males para as instituições livres, embora opostos. Teve ensejo de reafirmar este ponto numa importante declaração politica — a oração funebre de Henry Clay:" "Lançado na vida quando a escravidão já estava largamente espalhada e profundamente enraizada, ele não percebeu, como suponho nenhum homem sensato percebeu, como podia a escravidão ser imediatamente erradicada sem produzir um mal ainda maior á propria causa da liberdade humana".[16]

Cumpre recordar que os abolicionistas nunca foram muito nacionais de sentimentos. A certos respeitos sugerem os extremistas internacionais de hoje. A lealdade desses homens não era acima de tudo para com a sociedade ou os governos, mas para com ideias abstratas. E Lincoln mostrava uma instintiva aversão. pelo abstrato na politica. Sempre se sentiu impregnado do senso da comunidade, da obrigação de trabalhar para o bem comum. Os proprios preconceitos, a estreiteza de vistas duma comunidade, eram coisas a serem consideradas e tratadas com ternura. Daí a sua repugnancia em forçar reformas sobre comunidades ainda não bem amadurecidas para bem recebe-las. Num dos seus grandes discursos declara: "Um sentimento universal, bem ou mal fundado, não pode ser impunemente desrespeitado."[17]

Antecipando essas ideias, na oração funebre de Clay Lincoln produziu uma impressionante denuncia das duas fações radicais de 1852.

"Aqueles (abolicionistas) que despedaçariam a união destes estados, rasgariam a nossa veneravel Constituição e queimariam até o ultimo exemplar da Biblia, se necessario fosse para a imediata libertação dos negros, conjuntamente com todos os seus mais indecisos simpatizantes, receberam, e estão recebendo, uma justa condenação; o nome e a influencia de Mr. Clay estão plenamente, e espero que efetiva e duradouramente, mobilizados contra eles. Mas eu tambem, se pudesse, levantaria seu nome, sua opinião e influencia contra o extremo oposto, contra um pequeno, mas recrescente numero de homens que, afim de perpetuar a escravidão, começam a assaltar e a meter a grotesco a carta da liberdade do homen branco — a declaração de "todos os homens foram creados livres e iguais."[18]

Em outra passagem Lincoln estabelece o que concebia como a inspiração central de Clay. Se estivesse pensando de si mesmo, não poderia ver mais exatamente o rumo do seu futuro como estadista.

"Clay amou seu país parte porque era o seu proprio país, mas ainda mais porque era um país livre: e ardeu de zelo pelo progresso, prosperidade e gloria dessa terra porque via nisso o progresso, a prosperidade e a gloria de liberdade humana, dos direitos humanos e da natureza humana." [19]


  1. Herndon.
  2. Ibid.
  3. Ibid.
  4. Ibid.
  5. Ibid.
  6. Ibid.
  7. Lamon.
  8. Herndon.
  9. Herndon; Stories.
  10. Herndon.
  11. Lamon.
  12. Lincoln.
  13. Herndon.
  14. Ibid.
  15. Ibid.
  16. Lincoln, II.
  17. Ibid.
  18. Ibid.
  19. Ibid.
     

Notas

  1. Sul de Illinois.
Licenças
Original

Esta obra está em domínio público nos Estados Unidos porque foi publicada antes de 1º de janeiro de 1930.

Tradução

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.