Lincoln: narração de sua vida pessoal/V

V

PROSPERIDADE.

 

Nada sabemos de como o noivado de Lincoln se reatou, como tambem nada sabemos dos motivos da ruptura. Possivelmente, como foi sugerido, a causa reside num acontecimento do qual, por ironia do destino, ele iria envergonhar-se mais tarde.[1] John Shield, politico imprudente e de temperamento impulsivo, fôra satirizado num jornal de Springfield por algumas moças petulantes, uma das quais Mary Todd. O caso é obscuro, mas Lincoln agiu como o assessor literario das atacantes. Shield reclamou o nome de seu detrator — Lincoln apresentou-se e seguiu-se um desafio. Lincoln ficou em má posição, mas saiu-se do embrulho por meio dum recurso que empregaria mais de uma vez; gravemente propôs um duelo impossivel. Impôs condições que o transformariam em palhaçada — uma luta de carniceiros com espadagões de cavalaria. Shied, porém, impecavel em materia de formalismo, aceitou, e só no campo da honra a coisa foi impedida graças á intervenção de terceiros. Se isto foi a causa da reconciliação entre Lincoln e Mary Todd, ou a consequencia, ou se nada teve que ver com o incidente, é assunto não decidido. O que houve de certo é que se casaram a 4 de novembro de 1842.[2]

O carater de Mrs. Lincoln tem sido muito discutido. A mexericagem publica, com pouca base, decidiu contra a felicidade desse casamento. E se formos aceitar metade do que foi impresso, teriamos de concluir que equivaleu a um puro desastre; Lincoln teria achado insuportavel a vida de casado em virtude do autoritarismo e da excessiva impertinencia de sua mulher. Mas temos de pôr em duvida a autoridade dessas informações, porque não provem de nenhuma confissão das partes. E provavelmente nunca será tirado a limpo o que ha de verdadeiro ou falso no que circulou. Toda a cidade, entretanto, admirou-se de Mary ter se casado com Lincoln. Ainda era um homem pobre; tão pobre que depois do casamento foram morar na Globe Tavern, ao preço de quatro dolares por semana. E aquela moça havia sido cortejada por homens ricos! Mary Todd era inteiriça, imperiosa, dogmatica, mas social; Lincoln era erratico, lento no exasperar-se, incerto, solitario; sua propria aparencia depunha contra ele, e a humildade da sua cepa sofria com a alta ideia que a esposa tinha de si propria e dos seus. Embora ainda não fosse o homem terrivelmente feio de mais tarde — o "gorila", como os caricaturistas o pintavam — era mal construido de feições, com o labio inferior muito saliente e com tendencia a cair. Arcabouço enorme, delgado, anguloso; braços excessivamente longos, mãos, pés e sobrancelhas avantajadas, pele morena, cabelo negros e asperos, sempre em desalinho. Unicamente os admiraveis olhos sonhadores e a finura da cutis redimiam e davam distinção aquele rosto.[3]

Que fez Mary Todd escolher para marido tão estranha creatura? A historia de que se casou por ambição, adivinhando o que ele iria ser — como Jane Welsh na convencional historia de Carlyle — lisongeia em excesso o dom da profecia. Mas seja qual fosse o seu motivo, é mais que provavel que ela era o que o comercialismo de hoje chama um "fundo solido". Possuia certas qualidades que faltavam ao esposo, e tambem essa intuição dos grandes golpes que a gente superficial considera espirito pratico. Sua alma habitava o obvio; mas dentro do ambito do obvio ela se revelava astuta, corajosa e obstinada. Não havia perigo de que Mary Lincoln corresse atrás de sonhos, visões, presenças, como as que em espectral procissão perpassavam pelo cerebro do esposo. Em Lincoln havia o perigo, recrescente com os anos, de que a vida externa fosse anulada pela interna e ele perdesse de vista os fatos. Estamos hoje crentes de que se isto não aconteceu, foi sobretudo graças á presença da vontade firme, do espirito positivo da mulher com quem se casou. Mas nunca poderemos medir o quanto Lincoln se beneficiou com a salvaguarda de Mary.

Outro resultado que talvez tenha de lhe ir a credito foi o melhoramento da situação economica do casal. Tambem é possivel atribui-lo ao excelente advogado cujos olhos não largaram Lincoln desde a sua primeira entrada na politica. Stephen T. Logan "tinha a velha mentalidade dos legistas que não toleravam nenhum desleixo de espirito ou carater". Gosava "a reputação de ser o melhor advogado do estado".[4] Depois de observar por varios anos os dons ainda incultos do jovem Lincoln, o seu poder de simplificação e convicção em materia politica, e a sua escrupulosa honestidade — e foram essas as melhores cartas de Lincoln na profissão — Logan fez-lhe a surpreendente oferta de sociedade no escritorio, o que foi imediatamente aceito. Isso, quando o horizonte interior de Lincoln já começava a brilhar, logo depois do casamento. Uma fase de grande esforço se seguiu, de 1842 a 43. Lincoln deu-se a fundo á tarefa de tornar-se um verdadeiro advogado sob a direção de Logan. Esse zelo, entretanto, esmoreceu depois de algum tempo; e quando a sociedade chegou ao fim, ao cabo de dois anos, ele mostrava-se o mesmo que fôra antes. "Lincoln deixava ao socio todos os estudos no preparo das causas, confiando apenas em seus conhecimentos gerais e na inspiração para conquistar os juizes e o juri".[5] Conquanto Lincoln fosse sofrer outro forte estimulo da sua conciencia profissional antes de considerar-se advogado feito, os dois anos de sociedade com Logan deram-lhe a sua verdadeira base juridica.

Se o entusiasmo do primeiro ano não se sustentou, Lincoln, não obstante, saiu daquele severo curso bastante mudado e conhecedor da diferença entre o bom e o mau profissional. Seus metodos pessoais, certamente, continuaram os mesmos — pouco sistematicos, para não dizer desleixados. Até na presidencia, essa falta de sistema constituia muitas vezes o desespero de seus secretarios.[6] Herndon, que sucedeu a Logan no escritorio,[7] e que admirava tanto a este como a Lincoln, teve a intuição de que os dois homens não formavam uma associação muito harmoniosa. O choque das ambições politicas esclarece parte do desacordo; a falta de sistema de Lincoln, o resto. "Logan era escrupulosamente exato e extremado no apuro com que preparava os papeis. Escolhia muito bem as palavras e tinha o estilo majestatico e formal". Industrioso e economico. Já Lincoln não possuia "o senso do dinheiro". Logan devia exasperar-se quando o socio assinava pela firma cartas como esta: "Quanto á propriedade, não podemos tomar conta dela. Somos advogados e não agentes de terrenos. Recomendamos para isso Mr. Isaac S. Britton, homem de confiança e um dos que o Senhor creou de proposito para tais negocios".[8]

Observadores superficiais daí deduziram que Lincoln era um preguiçoso. Muitos anos antes, no tempo em que trabalhava manualmente no campo, já o haviam apelidado "osso mole".[9] E do Lincoln exterior, exceto quando sob a pressão da necessidade ou do entusiasmo (como no começo da sua associação com Logan), esse juizo tinha base nos fatos. A poderosa energia nela existente, incansavel, inexhaurivel, era toda interior, espiritual; nem sempre se ramificava nas sensibilidades de sua vida externa. O laço de ligação entre ambas, sua inteligencia, conquanto alerta aos estimulos da vida externa, não se mostrava suscetivel de grande esforço, salvo quando solicitada pela visão espiritual. Daí sua atitude diante do estudo juridico. A materia o empolgava, mobilizava-lhe todas as faculdades, observação, reflexão, inteligencia, mas só quando via diante de si um grande problema de justiça humana. Perdia o impeto quando a coisa degenerava em mero jogo de tecnica forense, de simples erudição ou dialetica.

O inquieto Lincoln interior descobriu novos canais para a sua energia nos anos em que esteve se firmando na profissão. Persistiu um grande ledor, mas suas leituras o tornaram ceptico. Payne e Volney seduziram-no. A onda de ultra-racionalismo, que por aquela epoca varria o mundo, alcançava todos os setores do país. Em Springfield, como em tantas outras pequenas cidades, mostrava dois efeitos: os que não eram atingidos, retesavam-se numa ciumenta vigilancia, com a religiosidade ferozmente exaltada; os atingidos tornavam-se afetadamente filosoficos e um tanto efervescentes. Os moços de espirito serio, ou os reformadores por temperamento, procuravam exaltar a novidade olhando de alto, quando não metendo a riso, o que era velho.

 
Mascara de Lincoln, aos 51 anos — Feita em 1860 por Leonard Wolk,
Chicago

Em Springfield, como em muitas outras cidades da fronteira, um liceu de moços declarou o mundo fora dos eixos e propôs-se a endireita-lo. Lincoln contribuiu para a tarefa. Um seu discurso sobre a Perpetuação das Nossas Instituições Livres,[10] mera retorica da peor especie hoje merecidamente esquecida, tanto deleitou os moços que eles o quiseram impresso — do mesmo modo que moços de hoje imprimem ensaios sobre o cubismo ou exemplos de versos livres recitados em sociedades poeticas. Que pontos de vista ele defendeu e como se mostrou abeberado dos cepticos, é coisa de que sabemos muito pouco.[11] Mas correu voz de que era um "incredulo" — rotulo aplicado a todos que em materia de religião discordam das opiniões do interpelante. Esse rumor baseava-se em parte na passagem dum dos seus discursos sobre a temperança. Em 1842 Lincoln, que sempre fôra abstemio, entrou numa sociedade de Washington para a supressão do alcool, e esse discurso ele o fez a pedido dessa sociedade. A passagem em causa, muito esclarecedora da generosidade, da humildade do orador, mas cautelosa em vista das suscetibilidades do momento, rezava assim: Se eles (os cristãos) creem, como professam, que a Onipotencia condescendeu em tomar forma dum homem pecador e como tal padecer ignominiosa morte, certamente não recusarão aceitar uma infinitamente menor condescendencia para a salvação temporal ou mesmo eterna duma grande classe de creaturas erradas e infelizes. E nem seria muito grande essa condescendencia. Ao meu ver, aqueles entre nós que nunca foram vitimas, devem-no mais á ausencia de apetite do que a alguma superioridade mental ou moral. Na realidade, creio que se tomassemos os bebedos habituais como uma classe, suas cabeças e seus corações suportariam vantajosamente a comparação com os de outra qualquer classe".[12] Esta observação aproxima-se da atribuida a outro grande genio, ao qual Lincoln a muitos respeitos se assemelhava, o fundador do Metodismo, quando disse de um bebedo que passava: "Ali vai John Wesley, exceto pela graça de Deus". Mas os catões da fronteira na decada de 1840 não eram ao tipo de Wesley. As historias cepticas de Lincoln, as insinuações prontamente discerniveis no seu discurso sobre a temperança, o fato de não ser ele frequentador de nenhuma igreja, tudo foi notado por um homem bom, mas de espirito estreito, um devoto e inculto evangelista, Peter Cartwright.

Em 1846 esse ponto religioso tornou-se ponto politico. Os Whigs puseram Lincoln no Congresso. Era outro exemplo de politica pessoal. Os lideres locais haviam feito uma especie de acordo entre si cujos detalhes desconhecemos, e em consequencia tornara-se Lincoln o inevitavel candidato.[13] Foi indicado sem oposição. Os Democraticos indicaram Cartwright.

Duas acusações ergueram-se contra ele: que era um infiel e que era — um aristocrata! E em torno disto girou a campanha. O que iria fazer ou não fazer em Washington, não tinha importancia nenhuma. Politica pessoal e vingança! A segunda acusação Lincoln rebateu com muito humorismo; quanto á primeira, silenciou.

Se recordarmos o seu eterno amor á verdade e tambem a sua inquieta ambição, só uma conclusão emerge desse silencio. Ele não podia negar categoricamente a imputação de Cartwright e ao mesmo tempo manter-se na sua imaculada concepção de honestidade. Que não havia verdade na coima de irreligião, as alusões das cartas de Speed o demonstram abundantemente. O tom é muito sincero para ser posto em duvida; não obstante, não davam mostra de qual fosse a sua teologia. Para homens como Cartwright, religião e teologia eram tudo um. Foi nesse ponto que Lincoln se separou do mundo de sua mãe. Conservando tenazmente o misticismo materno, rejeitava-lhe as formulas. A evidencia dos anos posteriores reafirma este duplo fato. O senso dum mundo espiritual acima do mundo dos fenomenos desenvolveu-se nele com os anos; mas o poder de explicar, de formular esse mundo, lhe fôra negado. Lincoln não mostrava nenhuma inclinação para o dogma. Etica e misticamente, um cristão; mas dogmaticamente não sabia o que era. Foi a razão de calar-se ante o desafio de Cartwright. Tentar explicar o que o separava dos seus acusadores, mostrar como de seu ponto de vista todos eles eram cristãos, traçar a linha entre o dogmatismo e o emocionalismo, teria resultado apenas em desastrosa confusão. Lincoln, o tacteante mistico, o filho da floresta, era tão inexplicavel para Cartwright — um crente absoluto no ceu e no inferno — como o Lincoln espiritual era incompreensível para New Salem e o Lincoln da ciencia politica para os seus amigos da Legislatura.

Mas não foi prejudicado por esse silencio. Era das mais firmes a fé que tantos homens depositavam nele. Nessa ocasião, como depois, e a despeito do que dissesse ou deixasse de dizer, nunca as pessoas sinceras deixaram de te-lo como um homem religioso. E isso bastava para a saudavel, generosa e moça Springfield. Ele e Cartwright podiam debater quanto quisessem aquele ponto religioso, mas Abe teria sua cadeira no Congresso. E foi eleito por grande maioria.[14]


  1. Carpenter.
  2. Lamon; Herndon; N. e H.
  3. Truesdell.
  4. Herndon.
  5. Ibid.
  6. Ibid.
  7. Ibid.
  8. Herndon.
  9. Lamon.
  10. Lincoln, I.
  11. Lamon.
  12. Lincoln, I.
  13. Nicolay; N. e H. I; Lamon.
  14. Lamon; Herndon; N. e H., I.
     
Licenças
Original

Esta obra está em domínio público nos Estados Unidos porque foi publicada antes de 1º de janeiro de 1930.

Tradução

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.