Lincoln: narração de sua vida pessoal/III
III
LIDER DE ALDEIA
Apesar de sereno, o jovem Lincoln não era um resignado. Diferia do resto da população no sonhar outra especie de vida. Mas o que desejava, nem ele mesmo saberia dizer. E՚ possivel que a viagem a New Orleans fosse a chave de seus anseios. Depois de conhecer New Orleans, que moço poderia contentar-se com Pigeon Creek?
Na primavera de 1830, logo depois de haver entrado na maioridade, pela primeira vez concordou com seu pai, cuja vagabundagem cronica havia renascido. Toda a familia entrou de novo numa carreta e se pôs de rumo a uma nova terra no rio Sangamon, no Illinois. Lá Abraham ajudou Thomas a limpar um trato de floresta para outro ilusorio "começo de vida". Na primavera seguinte separou-se da familia para viver vida propria.[1] Essa nova aventura foi uma segunda viagem em barcaça a New Orleans. Leva-lo-ia para lá algum desejo do coração? Se foi assim, os seus rusticos companheiros de remo nada perceberam. Mais tarde, um deles assegurou que Lincoln voltara cheio de revolta contra a escravidão lá dominante e determinado a “dar naquilo" sempre que pudesse. A lenda se baseia em ter ele assistido a um leilão de escravos e haver dado expansão ao seu horror num estilo muito diferente do de qualquer das suas falas devidamente autenticadas. Tudo muito duvidoso.[2] Além disso, o Lincoln de 1831 ainda não despertara. Sua vida interior ainda estava adormecida, e a exterior, aquela vida de clown entre camponios, constituia uma espessa camada isoladora. Aparentemente, o despertar da vida interior estava condicionado a um incidente pessoal que sobreveio de maneira desoladora alguns anos mais tarde.
Após a aventura de New Orleans passou certo tempo como caixeiro dum homem de nome Denton Offut, na mais triste aldeia do Illinois — um amontoado de casas reunidas em redor do moinho Rutledge, á margem do Sangamon, New Salem. Embora algumas pessoas de lá fossem de melhor naipe que a gente conhecida de Lincoln — com exceção, talvez, do moleiro do Kentucky — o restante da população valia bem pouco. A pobreza pesava, qual condenação, sobre a vida do povoado. Todos os relatos sobre New Salem apresentam-na como um aglomerado de incapazes, acidentalmente reunidos num ponto onde de nenhum modo uma cidade poderia nascer. Uma comunidade de acaso, formada de detritos humanos sem esperança de coisa nenhuma. Não admira, pois, que de muito tempo já não figure nos mapas; seus moradores breve se dispersaram e New Salem deixou de existir. Mas durante a sua breve existencia foi o palco dum episodio revelador do carater do Lincoln em formação. Não ocorreu imediatamente. Antes desse fato operou-se em sua alma outra reviravolta de quasi igual importancia. Havendo tomado forma as vagas ambições de Lincoln, resolveu ele tentar a politica. Já com vinte anos, e com menos de um ano de residencia ali, esse audacioso, senão impertinente moço, apresentou-se aos eleitores do condado de Sangamon como candidato á Legislatura, e nessa ocasião a humildade, que foi eventualmente a sua caracteristica, não veio à tona. Pode ser dada como subsequente á estadia em New Salem, prova de que a profunda experiencia pessoal que adiante contaremos assinala uma crise. Antes disso, tanto em New Salem como em Pigeon Creek, era ele uma amostra, singularmente decente, do turbulento, brincalhão e impertinente tipo que instintivamente procurava a vida mais solta da fronteira. Um eco de Pigeon Creek levou em 1832 ao jornal da zona a noticia de sua candidatura.[3] O primeiro discurso do jovem candidato foi uma peça politica espirituosa, fluente, intima e fantastica: "Concidadãos, presumo que todos me conheceis. Sou o humilde Abraham Lincoln. Fui solicitado por muitos amigos a apresentar-me candidato á legislatura. Minha politica é breve e suave como a dansa das velhas. Declaro-me partidario de um banco nacional. Tambem sou a favor do sistema de melhoramentos internos e da tarifa protecionista. São estes os meus sentimentos e os meus principios politicos. Se for eleito, confessar-me-ei grato; se não for, será a mesma coisa".[4] .png)
O mais antigo retrato de Lincoln, aos 39 anos
Esse lançamento dos dados da sorte, entretanto, não foi tão impertinente como parece. Durante sua estadia no armazem de Offut ele tinha conquistado New Salem. Aquele armazem correspondia ao club da comunidade. Havia lá constantes reuniões de desocupados, todos eles votantes. Era o lugar por onde passava toda a população, um hoje, outro amanhã. A um caixeiro habil, nada melhor para uma formação de corrente. E se ele tivesse, como Lincoln tinha, o dom do humor, o dom de contar historias, estava positivamente feito. Pigeon Creek de novo! A coleção das historias de Lincoln transformou o armazem num vaudeville e fez dele a creatura mais popular da cidade.
Novamente se repetiu a conquista de Pigeon Creek. New Salem tinha a sua Alsatia local, conhecida como Clary՚s Grove, cujos insolentes rapazes, chefiados por um Jack Armstrong, eram o terror da visinhança. Os armazens pagavam-lhes tributo sob forma de bebidas de graça. O desgraçado negociante que incorresse na má vontade dos insolentes encontrava por uma bela manhã a sua loja reduzida a escombros. Lincoln desafiou Jack para uma luta. Tudo se arranjou formalisticamente. Organizaram um ringue; a cidade inteira compareceu — e Lincoln derrotou-o da maneira mais completa. Mas isso foi apenas uma parte do seu triunfo. Suas proesas fisicas, somadas ao humor e á sociabilidade, cativaram completamente o Clary՚s Grove, pondo-o dali por diante como um reduto de Lincoln; os rufiões passaram a ser os seus capangas. Ai de quem levantasse a mão contra o novo heroi!
E ainda havia outras causas para aquela liderança. Uma, a sua bondade; outra, a sua honestidade. Corriam historias a respeito do seu escrupulo no armazem, como a de caminhar algumas milhas a pé afim de restituir a uma pobre creatura que lá comprara um pacote de chá a pequena soma recebida a mais. E, alem disso, para os padrões de New Salem era ele um homem de educação. A pratica que em Pigeon Creek havia feito na pá de madeira dera-lhe uma boa caligrafia, de modo que pôde oferecer-se graciosamente para tomar conta da escrita das eleições. A sua superioridade moral impunha-se. Ergueu-se entre os seus concidadãos como um homem diferente, imponente, apoiado pela força fisica excepcional e pela autoridade da força moral. Não se dava ao whiskey. A sobriedade já era a regra de sua vida, tanto da exterior como da interior. Mas de nenhum modo havia nele um Catão. Aceitou o devotamento do Clary՚s Grove sem a menor tentativa de amoldar aqueles valentões á sua propria imagem. Simpatizava-se com as ideias deles sobre o esporte. A sensibilidade para com os animais fora substituida pela bondade para com toda a sorte de creaturas humanas. Não se mostrava adverso da rinha de galos, e apreciava as corridas de cavalos.[5] Antes da catástrofe que o revelou a si mesmo, afinava-se pelo tom de New Salem, como anteriormente se afinara pelo tom de Pigeon Creek. No dia das eleições recebeu todos os votos de New Salem, com exceção apenas de tres.[6]
Mas a aldeia era uma pequena parte do condado de Sangamon, e embora recebesse bom numero de votos de outros pontos, não os reuniu em quantidade suficiente para ser eleito.
Entrementes, o armazem de Offut havia falido. Em meio á campanha eleitoral o caixeiro desempregado alistou-se nas forças em campanha contra o chefe indio Gavião Negro, mas logo depois das eleições retornou a New Salem sem haver cheirado a polvora. E como seus pares não lhe dessem um emprego no governo, pensou no comercio. Vemo-lo associar-se a um homem de nome Berry. Compraram a credito o remanescente dum armazem saqueado pelos rapazes do Clary՚s Grove e abriram um negocio novo — o "General Merchants", de Berry & Lincoln. A firma funcionou um ano com perfeito insucesso. Lincoln demonstrou ser muito mais inclinado ao estudo de qualquer livro que lhe caisse nas unhas do que a cuidar do negocio; ademais, não possuía o "senso do dinheiro". A nova firma teve o mesmo destino do armazem de Offut; só deixou atrás de si dividas. Mas como dividas não incomodassem ao socio Berry, o socio Lincoln assumiu a responsabilidade de todas. Essas dividas foram-lhe uma pesada carga que ele suportou com a paciencia do costume e pouco a pouco foi liquidando. Só ao cabo de quinze anos tornou-se um homem financeiramente livre.
Nova e poderosa influencia afetou sua vida durante a meia vadiação do periodo de negociante. Vale a pena repetir suas proprias palavras, ou as que lhe atribuem: "Um dia um homem que emigrava para o Oéste deteve diante do nosso armazem a carreta em que levava a sua gente e os tarecos. Perguntou-me se queria comprar um velho barril vazio para o qual não tinha bastante espaço no carro. Era-me inutil aquilo, mas para ajuda-lo comprei-o por meio dolar, se não estou errado. E sem mais exame guardei-o no armazem. Mais tarde, numa arrumação, removi o barril e, vendo que tinha coisas dentro, virei-o de boca para baixo. Apareceu lixo e nesse lixo uma edição com- pleta do Blackstone՚s Commentaries. Como dispusesse de tempo, comecei a ler aquele famoso trabalho; eram longos os dias de verão, os agricultores andavam ocupados nos campos, apareciam poucos fregueses no armazem, e espaçadamente. Quanto mais eu lia, mais me interessava. Nunca em minha existencia uma obra me absorveu tanto. Literalmente, devorei-a.[7]
A majestade da lei no fundo dum barril de lixo, descoberta por acaso e instantaneamente tomando posse do espirito do descobridor! Tal qual o genio a formar-se do fumo saido de um vaso naquele conto do pescador das Mil e Uma Noites! Mas a grande obra de Blackstone não foi o unico tesouro naquele tempo descoberto pelo negociante sem serviço; Lincoln tambem teve a revelação de Shakespeare e Burns, os quais o acompanhariam durante a vida inteira. Esses tesouros literarios eles os encontrou em Springfield, a vinte milhas de New Salem, para onde costumava ir a pé, sempre á cata de livros.
Sua subsistencia, depois do desastre da firma Berry & Lincoln, deveu-a ele á amizade do Inspetor Calhoun, que era Democratico, enquanto Lincoln se considerava Whig. Calhoun oferecera-lhe o lugar de assistente. Ao aceita-lo, Lincoln demonstrou mais uma vez a sua honestidade, estabelecendo que seria livre de expressar as suas opiniões e que naquele departamento de nenhum modo entraria a corrupção. Assentes esses pontos, entregou-se ao estudo dum tratado de inspetoria e, rapidamente, com o auxilio do mestre-escola da aldeia, habilitou-se para o desempenho do cargo. Sua primeira paga foram duas perneiras de couro que Hannah Armstrong "fixou" em suas calças "para que os espinheiros as não rasgassem".[8]
E assim correu o tempo até 1834, epoca em que lançou a sua unica riqueza — a popularidade — no pano verde de uma nova eleição. Dessa vez foi bem sucedido. No inverno seguinte já o vemos na Legislatura do Illinois. Era um deputado enorme, esquerdo, silencioso, que aparentemente não impressionava a ninguem, ou que aos deputados mais finos dava a impressão duma perfeita nulidade.
Na primavera de 1835 voltou a New Salem, para o seu lugar de assistente do Inspetor. Os amigos arranjaram-lhe o posto de agente do correio. A entrega de cartas ele a fazia nas suas idas e vindas na qualidade de assistente da Inspetoria. Como as malas chegassem uma só vez por semana e a correspondencia usual coubesse em seu chapeu, pouca renda lhe vinha daquilo; a paga era proporcional ás cartas entregues. Não obstante, lá ia vivendo.
Subito, um golpe de má sorte o feriu. Sua grande aventura, a primeira da grande serie de agonias espirituais que estava destinado a sofrer durante a vida, aproximava-se. Até então, desde a infancia, as mulheres não tinham exercido nenhuma influencia em sua vida. As recordações que temos da mocidade de Lincoln são muito vagas no capitulo feminino. Em Pigeon Creek, quando Thomas o punha a serviço dos outros, as mulheres gostavam de te-lo perto de si, aparentemente por ser um rapaz bondoso e amigo de fazer qualquer serviço ocasional, alem do trabalho a que se dedicava. Até 1835, entretanto, sua historia foi a dum homem só amigo de lidar com homens — talvez por causa do muito de feminino que havia em sua natureza. Mas uma mudança sobreveio nesse ano. Certa rapariga de New Salem, linda moça, a melhor que um lugar tão pobre poderia produzir, começou a impressiona-lo. Ann Rutledge foi o primeiro amor de Lincoln — mas o destino interpôs-se. O namoro terminou com a morte subita de Ann, no verão de 1835.[9] Desse breve e tragico idilio bem pouco sabemos, embora muito romance haja sido creado em torno. Sua significação foi a posterior "reação" de Lincoln. Houve muita doença em New Salem no verão em que Ann faleceu. Lincoln dera-se demais áquele amor, desse modo revelando o seu coração, e ficou em deploravel estado quando a desgraça sobreveio. O ultimo encontro com a rapariga moribunda deixou-o arrazado. Entrou depois num periodo de violenta agitação. Parecia completamente transfeito. Desaparecera o alegre Lincoln das anedotas, o deleite de Clary՚s Grove. Foi substituido por uma alma desolada — um irmão de dragões, na frase terrivel de Job — um morador dos escuros antros da aflição. Nancy ressurgia nele com todo o seu sinistro mundo agonico e aquele frenetico remoer-se em misterios de aflição de que até aquela idade ele se sentira livre. A mudança era incompreensivel para a grosseira gente de New Salem, de espirito pratico a todos os respeitos, inclusive o amor. Muitos passaram a te-lo como louco, e guardavam-no com especial vigilancia durante as tempestades, os nevoeiros, os dias de chuva — "receosos dum acidente". Muito natural que para a psicologia da New Salem fosse considerado louco um homem que andava a dizer: "Não posso conformar-me com o pensamento de que a neve, as chuvas, as tempestades castigam o tumulo em que ela repousa".[10]
Nesse momento crucial em que a verdadeira base do seu carater subitamente se tinha revelado — o apaixonamento, a incomensuravel tristeza do fundo de sua alma — Lincoln recebeu de dois finos amigos o socorro da compreensão. New Salem não era toda ao molde do Clary՚s Grove. Num sitio proximo, de bela e repousante paisagem, vivia um casal merecedor de recordação ― os Bowlin Green. Chamaram o desolado Lincoln para o seu convivio e na casinha aquecida pelo sol da amizade, enquanto lá fora tudo descambava na melancolia do outono, Lincoln recobrou os seus espiritos.[11] Mas o heroi de Pigeon Creek e do Clary՚s Grove estava morto. Na vida exterior, o alegre contador de historias, o vencedor de Jack Armstrong reapareceria. Mas na vida interior, que era a unica realidade de Lincoln, a mudança fôra definitiva. Dali por diante seria ele um solitario, a enfrentar em silencio as inescrutaveis coisas que para os espiritos primitivos são as coisas de todos os dias. Para sempre iria conservar no seu verdadeiro eu aquela tonalidade de crepusculo, ou de noite com estrelas, mas sem "nunca a alegre esperança duma nova manhã".
| Licenças | |
|---|---|
| Original | Esta obra está em domínio público nos Estados Unidos porque foi publicada antes de 1º de janeiro de 1931. |
| Tradução |
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41. |

