Apontamentos de Psychologia/Psychologia Sensitiva/1ª parte/Capitulo VI
VI Unidade e simplicidade do principio vital
(dos animaes)
1. Não ha nos animaes senão um só principio para a dupla vida sensitiva e vegetativa. (O "vitalismo" suppõe duas almas, Platão, no homem, tres almas).
Argumento: a união entre as duas vidas vegetativa e sensitiva é tão harmonica, perfeita e constante que não pode ser o effeito de duas almas separadas. (a) As funcções da vida vegetativa produzem os orgãos da vida sensitiva, e esta, por sua vez, provê ás necessidades daquella. (fome...) (b) Actividade muito forte da vida sensitiva suspende as funcções da vida vegetativa (dor!) (c) Principiam juntos, desenvolvem-se e acabam juntos. (d) Alem disso não é scientifico suppor dois principios onde um só basta para explicar os phenomenos.
2. A alma do animal não tem subsistencia propria, ella subsiste como parte substancial do animal todo. E՚ chamada "substancia incompleta ou parcial" — e a mesma palavra applica-se ao corpo — porque só com o corpo perfaz uma substancia completa. E՚ chamada tambem "material", porque na sua existencia depende intrinsecamente da materia (não como se fosse feita de materia); ou "forma substancial", porque formando com a materia uma substancia nova, constitue este ser novo numa categoria superior. (As formas accidentaes deixam a substancia na sua categoria.)
Argumento. Essencia e actividade de um ser estão sempre em proporção necessaria. (São da mesma ordem). Ora toda a actividade do animal é intrinsecamente dependente da materia, como segue do N.° IV acima. Logo tambem a alma do animal.
Alem disso a vida sensitiva tem por fim unico o bem estar material. (Movimento local, affecto sensitivo, conhecimentos sensitivos). Logo o principio della já não tem razão de ser quando separado da materia. Logo não lhe devemos suppor uma essencia capaz de continuar a existencia depois de destruido o corpo, como seria uma alma de categoria superior.
3. A simplicidade da alma do animal é de essencia, de perfeição, de natureza, mas não de existencia.
Simplicidade de essencia: i. é, não é composta de partes essenciaes, como o animal todo.
Simplicidade de perfeição: i. é, a perfeição da alma sensitiva existe toda no animal todo e toda em qualquer parte delle; com outras palavras a differença entre vista e ouvido, p. ex., está só na materia não na alma que a informa.
Simplicidade da natureza: i. é, as partes exigem-se mutuamente, até certo ponto, não podem existir umas sem as outras. Esta simplicidade porem, é imperfeita nos animaes inferiores.
A simplicidade de existencia negamos a alma do animal. Ella é extensa. A razão disto é esta: uma alma cuja essencia e existencia toda é intrinsecamente dependente da materia, tem naturalmente tambem um modo de existir em proporção com a materia, i. é, ella é extensa.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
