Apontamentos de Psychologia/Psychologia Sensitiva/1ª parte/Capitulo IV

IV Os animaes não tem intelligencia

 

1. Definição da intelligencia. A intelligencia é a faculdade de formar ideias abstractas. D՚ahi segue:

a) A intelligencia pode conceber objectos immateriaes (Espirito, virtude....).

b) Ella concebe os objectos materiaes de um modo immaterial, forma conceitos universaes. Cf. o modo material de representar seus objectos, da imaginação.

c) A intelligencia percebe relações como taes; em particular a de causa a effeito.

d) Ella forma juizos e raciocinios, que são muito differentes das associações sensitivas.

e) Reflecte sobre suas proprias acções, examinando-lhes a utilidade, a belleza, a moralidade, e, em consequencia disso aperfeiçoa seus actos, realisa progresso.

2. A intelligencia falta aos animaes.

1.° argumento. Seres intelligentes tem linguagem conceitual. Ora os animaes não tem linguagem conceitual. Logo nem tem intelligencia. (Linguagem conceitual exprime conceitos, e não apenas sentimentos como a linguagem chamada natural.)

A maior segue da necessidade ineluctavel com que o ser intelligente, formando ideas e juizos, os communica a seus semelhantes.

Quanto á menor: a) A linguagem dos animaes é natural.

b) Certos signaes que observamos na vida dos animaes, pelos quaes estes se communicam determinadas impressões, explicam-se perfeitamente por associações sensitivas. Cf. o signal da sentinella que da alarme aos companheiros.

c) Jamais animal algum, até collocado nas circumstancias mais favoraveis, apprendeu linguagem conceitual.

2.° argumento. A intelligencia leva necessariamente ao progresso. Ora os animaes não realisam progresso. Logo não tem intelligencia.

Quanto á maior. A intelligencia dá uma ideia abstracta das necessidades do individuo (necessidade de se proteger contra influencia do tempo), ella dá um typo abstracto das obras que podem occorrer a estas necessidades (habitação). Comparando este typo abstracto com a realidade da obra, a intelligencia descobre as imperfeições desta, conhecendo alem disso as relações de causa para effeito, de meio para o fim, corrigirá estas imperfeições, realisará progresso.

Quanto á menor. Os animaes podem individualmente ser ensinados pelos homens (por processos de adestração puramente sensiti vos), pela experiencia sensitiva podem ser levados a adaptar suas obras de instincto ás circumstancias que apresenta o meio ambiente. D՚ahi, porem não passam, não realisam progressos que suppunham ideas abstractas.

Para explicar o instincto, não se pode recorrer á intelligencia, por que (1.°) não se deve suppor intelligencia, enquanto o instincto pode ser explicado sem ella. (2.°) A intelligencia não explica como os animaes chegam a praticar acções, cuja utilidade não podem conhecer intellectivamente. (3.°) Não explica porque os animaes praticam acções instinctivas em circumstancias que as tornam evidentemente inuteis (4.°) Não explica certas anomalias.

Como os animaes não tem intelligencia, tambem não podem possuir o livre arbitrio, sciencia, moralidade, religião, direito, que são consequencias só da intelligencia.

Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.