Língua bretã

Bretão

Brezhoneg

Pronúncia:[bʁəˈzɔ̃ːnɛk] / [bʁəˈzɔ̃ːnək] / [bʁeˈzõːnɛk]
Falado(a) em: França
Região: Bretanha
Total de falantes: 172,000 nos 5 departamentos da Bretanha[1]
16,000 na região da Ilha de França[2]
Família: Indo-europeia
 línguas célticas
  línguas britónicas
   Bretão
Escrita: Alfabeto latino
Estatuto oficial
Língua oficial de: Não é oficial
Regulado por: Ofis Publik ar Brezhoneg
Códigos de língua
ISO 639-1: br
ISO 639-2: bre (B)bre (T)
ISO 639-3: bre

A língua bretã (brezhoneg AFI: [bʁeˈzõːnɛk] (escutar) ou AFI: [brəhõˈnek] em Morbihan) é uma língua britônica falada na zona ocidental da Bretanha (conhecida como Baixa Bretanha; em bretão, Breizh Izel), na França.

O idioma é da família indo-europeia, e faz parte do ramo britônico das línguas célticas que foram levadas da Grã-Bretanha pelas migrações bretãs para a Armórica, no início do Medievo. Está estreitamente relacionada com outras línguas britônicas, sobretudo com o córnico e o galês, e um pouco mais distante do gaélico irlandês e do gaélico escocês, sendo classificada como uma língua céltica insular.

O bretão é a única língua celta sem estatuto oficialmente reconhecido. O número de falantes diminuiu dos mais de um milhão de falantes, nos anos 1950, para os cerca de 200.000 da atualidade, sendo que a maioria desses locutores tem mais de 60 anos de idade[3]. O declínio nos usuários do idioma é resultado de um longo processo de tentativas de políticos franceses de proibir sua utilização cotidiana na região e a extinção do seu ensino em escolas. Além disso, o único idioma oficial reconhecido na França é a Língua francesa, reduzindo as aparições do Bretão em documentos oficais. Estes fatos tornaram o bretão uma língua ameaçada de extinção, de acordo com o Livro Vermelho das Línguas Ameaçadas da UNESCO.

Quanto aos dialetos, o bretão é dividido em 4 principais: Leonég, falado em Léon; Tregerieg, comum na região de Tregor; Kerneveg, da Cornualha; e Gwenedeg, falado em Vannes.

Etimologia

O termo Brezhoneg deriva da palavra brezhong (AFI: [breː.zɔ̃n]), que, em formas mais modernas do idioma, é o gentílico atribuído àqueles nascidos na Bretanha e, em traduções mais arcaicas, "britânico". O sufixo "-eg" é uma partícula usada no idioma bretão após um gentílico para se referir à idiomas e dialetos. [4]Assim, Brezhoneg é a "língua dos bretões".

Já "bretão", nome em português do idioma, deriva de "Bretanha", região no qual é falado. Este nome deriva do grego Prettaniké ou Brettaníai, utilizado pelo explorador grego Píteas para designar as Ilhas Britânicas.[5]O termo foi traduzido para o latim como Britannia, utilizado para denominar a província da Britanha após a conquista da região pelo Império Romano.

Distribuição

O bretão é falado, em especial, na Baixa Bretanha (oeste da Bretanha), região noroeste da França, mas também encontra alguma expressividade na região da Alta Bretanha. A utilização da língua está em rápido declínio: em 2024, estimou-se 107 mil falantes, que correspondem a 2,7% dos habitantes da região, e à metade dos aproximados 214 mil em 2018. [6]

Dialetos

Em cores, os dialetos do Bretão, divididos na região da Baixa Bretanha. Em cinza, a Alta Bretanha, onde se fala a Língua galo.

O bretão se ramifica, atualmente, em 4 dialetos, correspondentes aos 4 bispados medievais da Baixa Bretanha. A seguir, estão listados os nomes bretões de cada variação do idioma, seguidos respectivamente pelo nome em francês e por seu bispado de origem:

  • Leoneg (Léonard, Léon)
  • Tregerieg (Trégorrois, Trégor)
  • Kerneveg (Cournuallais, Cornualha)
  • Gwenedeg (Vannetais, Vannes)

Além destes, há ainda o Gwerraneg, Falado em Batz-sur-Mer. Esse dialeto é considerado extinto desde a morte de seus últimos falantes nos anos 1960. [7]| ssim é composto o Continuum dialetal do bretão, visto que são poucas as diferenças entres os dialetos. No entanto, o Gwenedeg é alvo de discussões quanto à sua classificação como dialeto, já que apresenta as maiores variações, como a posição da sílaba tônica (última no Gwenedeg, penúltima nos demais), e requer mais estudos para ser compreendido em relação às suas contrapartes de outras regiões.

Línguas relacionadas

O bretão, assim como demais línguas britônicas, descende do protocelta. Desta protolíngua, descendem os ramos celta nuclear, dividido nos sub-ramos celta insular (do qual descende a linhagem britônica, cujo um dos idiomas é o bretão, e a linhagem goidélica), cisalpino e gálata; ramo celtibérico, que deu origem ao galaico e ao lusitano; e o ramo venético, que deu origem à língua venética.

protocelta
ramo celta nuclear
subramo celta insular
linhagem britônica

córnico

cúmbrico

galês

bretão

Leoneg

Tregerieg

Kerneveg

Gwenedeg

†Gwerraneg

linhagem goidélica

irlandês

manês

subramo cisalpino

gaulês

lepôntico

nórico

subramo gálata

†gálata

ramo celtibérico

galaico

lusitano

ramo venético

venético

História

Áreas com culturas de origem britônica no século VI. O mar era o meio de comunicação entre as diferentes comunidades.

A origem do bretão

Entre os séculos IV e VII d.C., os britânicos se movimentaram de sua terra de origem à Bretanha, trazendo consigo sua língua. A área conhecida pelos romanos como Armórica foi renomeada "Pequena Bretanha", por serem os seus habitantes oriundos da Grã-Bretanha, especialmente na Cornualha. Acredita-se se que, no período da chegada dos migrantes à região, esta já era habitada por certos grupos de Gauleses, povos celtas que viviam na Gália, no sudeste da Bretanha. Atribui-se à isso as já citadas discrepâncias entre o Gwenedeg, falado no sudeste, e os demais dialetos do bretão, devido à interação entre os idiomas britânicos e o gaulês.

Não existem registros escritos deste momento da história do Bretão, que se estendeu até o Século VIII.

Bretão antigo

A partir do Século IX d.C., os registros escritos do Bretão passam a ser mais frequentes que em épocas anteriores, mas ainda sem grande expressividade. É desta época que data o Dornskrid Leiden (Manuscrito de Leida), primeiro texto em bretão do qual se tem conhecimento.

Primeira página do Dornskrid Leiden, mais antiga documentação do do bretão. Cerca de 900 d.C.

A este momento do idioma corresponde o bretão antigo, predominante até o Século XI. As referências deste período da língua além do Dornskrid Leiden (bretão; Manuscrit de Leyde em francês) são limitadas a nomes de lugares e pessoas e poucas palavras em dicionários. Neste mesmo momento, a fronteira entre o bretão e o galo é definida.

Bretão médio

O bretão médio é marcado pela influência de línguas românicas, bem como empréstimos linguísticos, especialmente do francês. Um exemplo disso é o Catholicon, publicado em 1499, que consiste em um dicionário em bretão, francês e latim.

Bretão moderno

A partir da metade do Século XVII, o bretão moderno é a variação predominante entre os falantes do idioma. Alguns estudiosos sugerem a subdivisão do período em dois para refletir os momentos de publicação das obras de dois autores essenciais para a compreensão do bretão moderno: o padre Julian Maunoir e Jean François Le Gonidec.

Maunoir é o autor de "Le Sacré Collège de Jésus" (1659), uma obra de caráter catequético inteiramente na língua bretã acompanhado de um dicionário bretão-francês que apresentava algumas das novas características do bretão moderno, como a distinção entre o Dígrafo <ch> e o diacrítico <c'h>.

Já em 1807, Le Gonidec publicou sua "Grammaire celto-bretonne" (em português: Gramática celto-bretã) e, 20 anos depois, o "Dictionnaire celto-breton" (em português: dicionário celto-bretão). Em sua obra, Le Gonidec propôs um novo sistema de escrita baseado no Leonég. Algumas das características desse sistem envolviam a diminuição de empréstimos do francês.

Durante os primeiros anos do século XX, um grupo de escritores conhecido como Emglev ar Skrivagnerien elaborou e reformou o sistema de Le Gonidec. Eles o tornaram mais adequado como uma representação superdialetal dos dialetos de Cornouaille, Leon e Trégor (conhecido como de Kernev, Leon e Treger em bretão). Esta ortografia KLT foi estabelecida em 1911. Ao mesmo tempo, escritores do dialeto Vannetais mais divergente desenvolveram um sistema fonético também baseado no de Le Gonidec.

Durante muito tempo houve consideráveis variações na grafia dos sons da língua bretã. Então, em 1908 a ortografia dos três dialetos Kerneveg, Leoneg e Tregerieg, foi unificada no chamado KLT. O Gwennedeg não foi incluído na reforma, mas foi inserido na reforma ortográfica de 1941.

À medida que as diferenças fonéticas e fonológicas entre os dialetos começaram a aumentar, muitas regiões, particularmente Vannes, começaram a criar suas próprias ortografias. Muitas dessas ortografias estavam mais relacionadas ao modelo francês, embora com algumas modificações. Exemplos dessas modificações incluem a substituição do bretão antigo ⟨-z⟩ por ⟨-h⟩ para denotar o final da palavra /x ~ h/ (uma evolução do bretão antigo /θ/ no dialeto de Vannes) e o uso de ⟨-h⟩ para denotar a mutação inicial de / k / (hoje essa mutação é escrita como ⟨c'h⟩).[8] Seguindo propostas feitas durante a década de 1930, as ortografias KLT e Vannetais foram fundidas em 1941 para criar um sistema ortográfico para representar todos os quatro dialetos. Esta ortografia peurunvan ("totalmente unificada") foi significativa para a inclusão do dígrafo zh, que representa a / h / em Vannetais e corresponde a a / z / nos dialetos KLT.

Hoje, a maioria dos escritores continua a usar a ortografia peurunvan, e é a versão ensinada na maioria das escolas de língua bretã. Na década de 1970, uma nova ortografia padrão foi concebida - o etrerannyezhel ou interdialectale. Este sistema é baseado na derivação das palavras.[9]

Atualmente, o bretão pode ser ouvido em um bom número de estações de rádio por algumas horas e há um programa semanal bretão na TV, com uma hora de duração. Há ainda algumas revistas semanais e mensais escritas na língua.

Edição de 1499 do Catholicon

História da documentação

O primeiro registro escrito da língua data de 790. Trata-se do Manuscrit de Leyde, um tratado de botânica, redigido em bretão e em latim. O primeiro texto impresso em bretão, uma peça romântica, surgiu em 1530. O século XIX marcou o renascer da literatura bretã.

Os primeiros textos bretões existentes, contidos no Manuscrito de Leyde datam de 50 anos antes dos Juramentos de Estrasburgo, considerado o primeiro exemplo do francês. Como muitas ortografias medievais, a ortografia do bretão antigo e médio não foi padronizada a princípio, e a grafia de uma palavra em particular variava a critério dos autores. Em 1499, entretanto, o Catholicon (dicionário trilíngue) foi publicado; como o primeiro dicionário escrito para francês e bretão, além das traduções em Latim, tornou-se um ponto de referência para a transcrição da língua. A ortografia apresentada no Catholicon era muito semelhante à do francês, em particular no que diz respeito à representação das vogais, bem como ao uso do dígrafo latino ⟨qu⟩ - um remanescente da mudança de som /kʷ/>/k/ em latim — e britânico ⟨cou-⟩

História do Ensino

Entre 1880 e meados do século XX, o ensino do bretão foi banido das escolas, e as crianças eram punidas se falassem a língua.[10] Isso mudou, porém, em 1951 com a promulgação da Lei Deixonne, que passou a permitir o ensino da cultura e da língua bretã, três horas por semana, nas escolas públicas, se os professores assim o quisessem e conhecessem a língua. Desde então, muitas escolas e mesmo faculdades foram preparadas para educação em bretão ou bilíngue (bretão - Francês).

Fonologia

O bretão apresenta 33 fonemas, entre vocálicos e consonantais, além de suas variações. Na fonologia deste idioma, é evidenciada a influência do francês em sua construção, como por exemplo, fonotática e na definição das sílabas tônicas de vocábulos.

Consoantes

O número de fonemas consonantais do bretão não é exato. No entanto, verificando-se as diferentes pronúncias dos 4 dialetos principais, é possível se deduzir que sejam 24 fonemas ao todo, destacados a seguir:

Fonemas consonantais do Bretão
Ponto de articulação →
BilabialLabiodentalAlveolarPós-alveolarPalatalVelarUvularGlotal
Plosiva p       b t       d k       g
Nasal          m          n          ɲ
Vibrante          r          ʀ
Fricativa f       v s       z ʃ       ʒ x                   ʁ h         
Aproximante          j          w
Aproximante lateral          l          ʎ

Vogais

A língua bretã tem, ao todo, 10 fonemas vocálicos. Todos estes fonemas podem ser anasalados, fênomeno representado na ortografia pela adição de <n>; além disso, podem ser tanto longos quanto curtos.

Vogais
Posterioridade →
↓ Altura
AnteriorPosterior
Fechada i      y         u
Semifechada e      ø         o
Semiaberta ɛ      œ         ɔ
Aberta ɑ        

Transformações fonológicas

No bretão, as vogais podem ser longas ou curtas (antes de fonemas desvozeados e consoantes duplas).[11] Em monossílabos, a vogal é longa se o vocábulo terminar em consoante vozeada, mas isso é variável conforme o dialeto. As vogais podem mudar de pronúncia se longas ou curtas, especialmente <e>, <o> e <eu>, que tendem a se fechar conforme são encurtadas, nos fonemas: [e], [o] e [ø] respectivamente, podendo os dois primeiros se tornar [i] e [u].[11]

Vogais não tônicas podem ser transformadas em schwa ou sofrer elisão, especialmente antes da letra <r>. [11]

Também são comuns no bretão as mudanças em consoantes iniciais por assimilação, característica das línguas célticas. [11] Estes processos evidenciam como as consoantes no início das palavras do idioma foram definidas, e qual a tendência seguida naturalmente para tal definição. Assim, as mutações possibilitam dividir as consoantes iniciais em quatro grupos: surdas, fortes, fricativas e africadas, a partir dos seguintes padrões:

  • Surdas: acontecem após de artigos definidos (exceto em palavras começadas com a letra d), em proclíticos, e depois de nomes e adjetivos;
  • Fricativas: em pronomes possessivos (ex: o pronome ma passa a ser va), após alguns numerais (nav fesk), após pronomes possessivos (como em hor c'harr), e em outros casos específicos, como na expressão "domingo de Páscoa" em que Pask se torna Fask (Sul Fask);
  • Fortes: Após o pronome possessivo ho (ho preur) ou no pronome infixo z (a citar da'z pag);
  • Africadas: as partículas verbais e e o (como ocorre em emaon o vont da Vrest).

Fonotática

Em relação à fonotática, o bretão é considerado uma língua complexa.[nota 1] Isto significa que admite formações de sílabas com duas ou mais consoantes antes ou depois da vogal. É obrigatório no idioma que cada sílaba tenha, no mínimo, uma vogal, e que esta seja o núcleo. Assim, as sílabas bretãs podem ser:

  • V (somente uma vogal);
  • CV;
  • CVC;
  • CCV;
  • CCVC.

Vale destacar que o bretão também admite ditongos, podendo, assim, variar a quantidade de vogais no núcleo de cada sílaba.

Prosódia

No que tange as sílabas tônicas, o padrão da convenção KLT são paroxítonas.[11] Existem casos específicos de oxítonas no KLT, sendo eles:

  • alguns substantivos, como: abardaez, itron, gwinegr;
  • certos adjetivos, como: fallakr;
  • o verbo brezañ (ser) no presente: emaon;
  • alguns advérbios, preposições e pronomes: abred, antromez, avat;
  • nomes compostos de lugares se o primeiro componente não for tônico e o segundo é um monossílabo: Plogoñv e Lanveur.

Esta tendência é uma herança do francês, língua cuja sílaba tônica mais comum é a oxítona, e mostra o quanto ambos os idiomas influenciaram um ao outro ao longo da história. Este não é um padrão previsível e está sujeito à variações.

Variações

Entre as variações linguísticas, a mudança de sílaba tônica no Gwenedeg é a mais evidente. Enquanto nos demais dialetos a sílaba tônica é a penúltima, o bretão falado em Vannes tende às oxítonas. Este fenômeno é atribuído ao processo de contração de alguns encontros vocálicos ocorrido especificamente neste dialeto, como em palavras terminadas em -aat e -aer. Um exemplo disso é a palavra pesketaer (AFI: [peskeˈtaɛr]; português: pescador), que é oxítona. No entanto, palavras formadas a partir do mesmo radical peske-, mas com terminações diferentes, conservam a característica de paroxítona. É o caso de pesketour (AFI:[pesˈketːur]; português: pescador esportivo).[12]

Ortografia

O sistema de escrita oficial do bretão é o peuruvan, criado em 1941 com a finalidade de atender às necessidades de todos os dialetos do idioma. Algumas de suas características são a terminação em <h> (como, por exemplo, Breizh Izel) [13]. A língua bretã utiliza o alfabeto latino, mas não apresenta as letras <q> e <x>. A letra <c> não aparece sozinha, e só é utilizada acompanhada de <h>, em (Ch), ou <'h>, em(C'h). A direção de escrita de textos em bretão é horizontal, da esquerda para a direita, assim como na língua portuguesa.

Tabela grafema-fonema do Peuruvan
ConsoanteNome da letraSom no AFIAproximação
aa/a/pá
bbe/b/bule
chche/ʃ/chá
c'hc'he/x/Mexico (espanhol)
dde/d/data
ee/e/mel
fef/f/faca
gge/g/gato
hhach/h/hot (inglês)
ii/i/ilha
jje/ʒ/jeito
kke/k/casa
lel/l/lata
mem/m/mão
nen/n/não
oo/o/pó
ppe/p/pato
rer/ʀ/rato
ses/s/salto
tte/ʈ/taça
uu/y/tu (francês)
vve/v/vila
wwe/w/alto
yye/j/cai
zzed/z/asa
gn/ɲ/unha
lhilh/ʎ/ ou /j/olho
zh/z/ ou /h/ [nota 2]casa ou harm (inglês)
ñ- [nota 3]

Diacríticos

Além destas vogais e consoantes, são utilizados os diacríticos acento circunflexo, grave, trema e til. O bretão também admite combinações de vogais. Ambos os fenômenos estão representados a seguir.

Diacrítico/Combinação Som no AFI
â /ɑː/
an /ɑ̃n/ /añ/
ao /ao̯~aw/ /ɔː/ /ao̯~aw/
aou /ɔʊ̯~ɔw/
e /ɛ/, /ɛ̞/, /e/, /eː/] [ɛ, ɛ̞, e, eː]
ê /ɛː/
ei /ɛi̯~ɛj/
eeu /eø̯~ew/
eo /eː/ /eɔ/ /eː/ /eː/,/ə/
eu /œ/, /œ̞/, /ø/, /øː/
/ɛɥ/, /e(v)y/
eue /ø̯e~ɥe/
i /i/, /iː/, /j/
o /ɔ/, /ɔ̞/, /o/, /oː/
oa /ɔ̯a~wa/, /ɔ̯ɑː~wɑː/ /ɔ̯a~wa/, /ɔ̯ɑː~wɑː/, /ɔa, oːa/ /ɔ̯a~wa/, /ɔ̯ɑː~wɑː/ /ɔ̯ɛ~wɛ/, /ɔ̯eː~weː/
ôa /oːa/
oe /ɔ̯ɛ(ː)~wɛ(ː)/
on [ɔ̃n]
/ɔ̃/
ou /u/, /uː/, /w/ /u/, /uː/, /w~(ɥ)/
/u/ /o/ [/ø/, /ow/, /aw/, /aɥ/, /ɔɥ/
/oy̆/, /oːy/
u /y/, /yː/, /ɥ/
ui /ɥi/, /ɥiː/
ul, un, ur /ɔl/, /ɔn/, /ɔʀ/ /œl/, /œn/, /œr/ /œl/, /œn/, /œɾ/ /yl/, /yn/, /yʁ/

Gramática

O bretão é uma língua ergativa dividida. Isto significa que, em certos casos, a forma acusativa é usada, e, em outros, a nominativa. [14]

Pronomes pessoais

Os pronomes pesoais no bretão variam de acrdo com sua função sintática, seja ela sujeito ou objeto. [15] Assim, podem ser divididos entre pronomes do caso reto e do caso oblíquo.

Pronomes pessoais do Caso Reto
Pessoa Bretão Português
1a pessoa do singular me eu
2a pessoa do singular te tu
3a pessoa do singular eñ/hi ele/ela
1a pessoa do plural ni nós
2a pessoa do plural c'hwi vós
3a pessoa do plural int eles
Pronomes pessoais do caso oblíquo
Pessoa Bretão Português
1a pessoa do singular va/'m mim
2a pessoa do singular da/'z' ti
3a pessoa do singular e/hen o
3a pessoa do singular he a
1a pessoa do plural hol/hon/hor nos
2a pessoa do plural ho/hoc'h vos
3a pessoa do plural o os

Para a primeira e segunda pessoas do caso oblíquo, as formas 'm e 'z são utilizadas após a preposição "da". E, da 3a pessoa, é usado antes de substantivos verbais e no particípio.[15] Para a primeira pessoa do plural, a utilização varia de acordo com a primeira letra da palavra seguinte, sendo:

  • Hol antes de palavras iniciadas com <l>;
  • Hon antes de <n>, <d>, <t> , <h>, e vogais;
  • Hor nos demais casos.

Similarmente, na segunda pessoa do plural, ho precede consoantes, e hoc'h, vogais.[15]

Verbos

Os verbos regulares são conjugados com a adição de sufixos à raiz do verbo. Os modos possíevis no idioma são indicativo, imperativo e condicional.[16] A seguir, estão as terminações regulares:

Terminações de verbos regulares: Indicativo
Pessoa Presente Pretérito Imerfeito Pretérito Perfeito Futuro
1a pessoa do singular -an -en -is -in
2a pessoa do singular -ez -es -jout -i
3a pessoa do singular -iv -e -vas -o
1a pessoa do plural -omp -emp -jomp -imp
2a pessoa do plural -it -ec'h -joc'h -ot
3a pessoa do plural -ont -ent -jont -int
Forma impessoal -er -ed -jod -or
Terminações dos verbos regulares: Condicional
Pessoa Presente Pretérito
1a pessoa do singular -fen -jen
2a pessoa do singular -fes -jes
3a pessoa do singular -fe -je
1a pessoa do plural -femp -jemp
2a pessoa do plural -fec'h -jec'h
3a pessoa do plural -fent -jent
Forma Impessoal -fed -jed
Terminações dos verbos reguares: Imperativo
Pessoa
1a pessoa do singular -
2a pessoa do singular -iv
3a pessoa do singular -et
1a pessoa do plural -omp
2a pessoa do plural -it
3a pessoa do plural -ent
Forma Impessoal -

Sentenças

Ordem da Frase

A classificação da ordem da frase no bretão é tópico de discussão entre linguistas. Um dos pensamentos defende que o bretão moderno se utiliza marjoritariamente da construção SVO (substantivo + verbo + objeto). Geralmente, os verbos são precedidos da partícula "e", mas, em casos específicos, a partícula utilizada é "a"[17] . Os casos em que esta substituição acontece estão listados a seguir:

  • Após elementos nominais
  • Após infinitivos

Exemplo: Nina a droc'ho ar wastel (em português: Nina corta o bolo). Neste caso, são evidententes tanto a sequência SVO (droc'ho significa cortar, equanto wastel significa bolo), quanto a presença da partícula "a" após o elemento nominal "Nina". [17]

Outra corrente aponta que a ordem da frase no bretão é VSO (verbo + sujeito + objeto), tanto por sua origem celta na qual esta estrutura é mais comum, quanto por certos csos, como cláusulas subordinadas ou sentenças negativas, que seguem esta ordem. Além disso, orações com o verbo ser conjugado na 3a pessoa do singular no presnte, Emañ, diretamente seguido do sujeito, utilizado para sentenças no gerúndio. [17]Ambas as situações estão ilustradas a seguir:

  • Debri a ra bara du (em portguês: Ele come pão preto), sendo "debri" o verbo comer, "ra" o pronome ele, e "bara du", pão preto.[18]
  • Emañ Nina o troc'hañ ar wastell (em protuguês: Nina está cortando o bolo). [17]

A forma SVO vêm substituindo a VSO na maioria dos dialetos do bretão moderno. No Vannetais, por exemplo, é a construção mais comum, e dificilmente é alterada.[18]

Construções em foco

Na língua bretã, a ordem das sentenças pode variar de acordo com aquilo que se deseja dar foco. Em geral, o processo consiste em posicionar o elemento principal no início da frase, sendo possíveis construções além das VSO e SVO tradicionais do idioma.[19]

A seguir, a mesma frase é reescrita com focos diferentes:

  • Nina a droc’ho ar wastell (em português: Nina vai cortar o bolo). O foco está em Nina (SVO). [19]
  • Ar wastell a droc’ho Nina (em português: Nina vai cortar o bolo). O foco está em bolo (OVS). [19]
  • Troc’hañ ar wastell a raio Nina (em português: Nina vai cortar o bolo). O foco está em cortar (VSO). [19]

Artigos

Assim como no português, o bretão tem tanto artigos definidos como indefinidos. Estes variam apenas em número, mas não em gênero.[20]

Definidos Indefinidos
al ul
an un
ar ur

Como no inglês, a escolha de qual artigo será utilizado é feita a partir da primeira letra da palavra seguinte.[20]

  • Al e ul são usados antes de <l>;
  • An e un são usados antes de <n>, <d>, <t> e <h>;
  • Ar e ur nos demais casos.

Sentenças negativas

Para a formação de sentenças negativas, são adicionadas partículas de prefixo e sufixo aos verbos (ne+verbo+ket).[21]

Exemplo: N'emañ ket ar plac'hig o c'hoari (Em português: A garotinha não está brincando). Emañ é o verbo estar, que se torna negativo pela adição de N' (contração de Ne, já que emañ começa em <e>) e ket.[21]

Vocabulário

Empréstimos

Palavras que passaram para o francês e para o inglês : as palavras inglesas dolmen e menhir foram emprestadas do francês, que as retirou do bretão. No entanto, isso é incerto: por exemplo, menhir é peulvan ou maen hir ("pedra longa"), maen sav ("pedra reta") (duas palavras: substantivo + adjetivo) em bretão. Dolmen é uma palavra mal interpretada (deveria ser taol-vaen). Alguns estudos afirmam que essas palavras foram emprestadas do Córnico.[22] Maen hir pode ser traduzido diretamente do galês como "pedra longa" (que é exatamente o que um menhir ou maen hir é). Os sobrenomes Cornicos Mennear, Minear e Manhire derivam todos dos homens hyr ("pedra longa"), assim como Tremenheere "assentamento pela pedra longa". A palavra francesa baragouiner é derivada do bretão bara (português: pão) e gwin (português: vinho). A palavra francesa goéland (português: gaivota grande) é derivada do bretão gwelan, que compartilha a mesma raiz do inglês gull (galês: gwylan, córnico: goelann).

Amostras de texo

A seguir, está o Artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos em bretão e sua tradução para o português.

Bretão

"Dieub ha par en o dellezegezh hag o gwirioù eo ganet an holl dud. Poell ha skiant zo dezho ha dleout a reont bevañ an eil gant egile en ur spered a genvreudeuriezh."

Português

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São providos de razão e consciência e devem agir uns em relação aos outros num espírito de fraternidade."

Dias da semana em bretão

Dia da semana em bretãoTradução para o português
SulDomingo
LunSegunda-feira
MeurzhTerça-feira
Merc'herQuarta-feira
YaouQuinta-feira
GwenerSexta-feira
Sadom Sábado


Notas

  1. https://wals.info/author/maddiesoni
  2. O zh pode ser pronunciado como [z] ou [h], sendo o segundo mais comum no Gwennedeg
  3. Ñ não tem pronúncia.Serve de indicativo que a vogal anterior é nasal.

Referências

  1. https://www.ouest-france.fr/moins-de-200-000-personnes-parlent-le-breton-319002].
  2. Diagnostic de la langue bretonne en Île-de-France. Sur le site www.ofis-bzh.org.
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