Kitsune

O Japão abriga duas subespécies de raposa-vermelha: a raposa de Hokkaido (Vulpes vulpes schrencki, na foto) e a raposa-vermelha japonesa (Vulpes vulpes japonica).

Kitsune (AFI: [kitsɯne]) japonês: ; pronunciação é a palavra japonesa para raposa. Raposas são um tema recorrente no folclore japonês; kitsune refere-se geralmente a isso neste contexto. As histórias as descrevem como seres inteligentes e dotados de capacidades mágicas que aumentam com a sua idade e sabedoria. Entre esses poderes mágicos, destaca-se a habilidade de assumir a forma humana — geralmente a de uma bela mulher, de uma jovem ou de uma anciã. Embora algumas histórias afirmem que as kitsune utilizam essa habilidade apenas para enganar as pessoas — como frequentemente ocorre nos folclores — outras as retratam como guardiãs fiéis, amigas, amantes e esposas. Além da habilidade de assumir a forma humana, as kitsune possuem poderes de possessão, conseguem gerar fogo de suas caudas e de sua boca, têm a capacidade de aparecer nos sonhos alheios e de criar ilusões.

Etimologia

Príncipe Hanzoku aterrorizado por uma raposa de nove caudas. Impressão por Utagawa Kuniyoshi, do século XIX.

A etimologia completa é desconhecida.[1] O mais antigo uso conhecido da palavra kitsune encontra-se no texto de 794 Shin'yaku Kegonkyō Ongi Shiki. Outras fontes antigas incluem Nihon Ryōiki (810–824) e Wamyō Ruijushō (c. 934). As fontes mais antigas estão escritas em man'yōgana e identificam claramente a ortografia histórica como kitune. Na sequência de diversas mudanças fonológicas diacrônicas, a palavra passou a ser pronunciada kitsune.

Muitas sugestões etimológicas foram propostas, embora não haja consenso geral:

  • Myōgoki (1268) sugere que ela é chamada assim porque está "sempre" (tsune) "amarela" (ki).
  • No início da era Kamakura, Mizukagami indica que a palavra significa "veio" (ki) — partícula de aspecto perfectivo tsu — para o "quarto" (ne), com base em uma lenda na qual uma kitsune desejaria ser esposa e ter filhos.
  • Arai Hakuseki, em Toga (1717), sugere que (ki) significa "mau cheiro", (tsu) é uma partícula possessiva, e (ne) está relacionada com inu, a palavra japonesa para "cão".
  • Tanikawa Kotosuga, em Wakun no Shiori (1777–1887), sugere que (ki) significa "amarelo", tsu é uma partícula possessiva e ne está relacionado com neko, a palavra japonesa para "gato".
  • Otsuki Fumihiko, em Daigenkai (1932–1935), propõe que a palavra deriva de kitsu, onomatopeia para o som emitido por uma raposa, e ne, que pode ser um afixo ou uma palavra honorífica significando "servo de um santuário de Inari".[2]
  • Nozaki também sugere que a palavra kitsune era originalmente uma onomatopeia: kitsune representaria o som da raposa e teria se tornado o termo geral para o animal, ao passo que -nē seria um afixo afetuoso.[3]

Kitsune é uma palavra arcaica; no japonês moderno, o som emitido por uma raposa é transcrito como kon kon ou gon gon.[4]

Um dos mais antigos contos remanescentes sobre kitsune fornece uma conhecida etimologia popular da palavra.[5] Diferentemente da maioria dos contos de kitsune em que estas se tornam humanas e se casam com um homem, este não termina tragicamente.[6][7] Nesta lenda, a raposa sempre retorna ao marido a cada noite na forma de uma mulher e, como parte a cada manhã, passa a ser chamada de kitsune. No clássico japonês, kitsu-ne significa "vir e dormir" e ki-tsune significa "sempre".[7]

Ono chamou por ela: "Você pode ser uma raposa, mas você é a mãe do meu filho e eu te amo. Volte quando quiser; você será sempre bem-vinda." Assim, todas as noites ela voltava e dormia em seus braços.

Origens

Tamamo-no-Mae, uma lendária kitsune que tem destaque no noh e no kyogen. Impressão por Yoshitoshi.

Muitos dos mitos de raposas do Japão podem ser encontrados no folclore da China, da Coreia ou da Índia. Esses mitos populares contam histórias de raposas capazes de ter até nove caudas. Várias dessas histórias foram registradas no Konjaku Monogatari, uma coleção do século XI de narrativas chinesas, indianas e japonesas.

Há um debate sobre a origem dos mitos das kitsune: não há consenso sobre se teriam surgido inteiramente de fontes estrangeiras ou se fazem parte do folclore japonês, com raízes que remontam ao século V. O folclorista japonês Kiyoshi Nozaki argumenta que os japoneses veem positivamente as kitsune desde o século IV d.C., e que os únicos elementos importados da China ou da Coreia foram os atributos negativos associados a elas. Ele afirma que, de acordo com um livro de registros do século XVI chamado Nihon Ryakki, as raposas e os seres humanos viveram em grande proximidade no Japão antigo, e que as lendas indígenas sobre as criaturas se formaram como consequência desse convívio. A estudiosa Karen Smyers aponta que a ideia da raposa como sedutora e a conexão dos mitos de raposas ao budismo foram introduzidas no folclore japonês por meio de histórias chinesas similares, mas observa que algumas histórias de kitsune contêm elementos exclusivamente japoneses.

Características

Esta obake karuta (carta de monstros) do século XIX apresenta uma kitsune. O jogo envolve relacionar fatos do folclore às imagens de criaturas específicas.

Acredita-se que as kitsune possuam inteligência superior, vida longa e poderes mágicos. Elas são um tipo de yōkai, ou entidade espiritual; a palavra kitsune é muitas vezes traduzida como espírito da raposa. No entanto, isso não significa que sejam fantasmas ou que sejam diferentes de raposas comuns, pois a palavra "espírito" é usada para refletir um estado de conhecimento ou iluminação.[8]

Existem duas classificações comuns de kitsune. As zenko (善狐; literalmente, raposas do bem), que são raposas benevolentes e celestiais, associadas ao deus Inari; são chamadas às vezes simplesmente de raposas de Inari. Por outro lado, as yako (野狐; literalmente, raposas maldosas) tendem a ser mais maliciosas.[9] Tradições locais costumam acrescentar outros tipos.[10] Por exemplo, ninko é um espírito de raposa invisível que os seres humanos só conseguem perceber quando são possuídos por ele. Outra classificação tradicional consiste em enquadrar a kitsune em um dos treze tipos existentes, com base nas habilidades sobrenaturais que possui.

Fisicamente, as kitsune são reconhecidas por possuírem nove caudas. Em geral, um maior número de caudas indica uma raposa mais velha e mais poderosa; segundo os folclores, uma nova cauda crescerá a cada 100 anos de vida.[11] Um, cinco, sete e nove caudas são os números mais comuns nas histórias. Quando uma kitsune recebe sua nona cauda, sua pelagem torna-se prateada ou dourada.[12] Essas Kyūbi no Kitsune (九尾の狐; raposas de nove caudas) ganham a capacidade de ver e ouvir qualquer coisa em qualquer parte do mundo, adquirindo também sabedoria infinita (onisciência).[13]

Mudar de forma

Uma kitsune pode assumir a forma humana, habilidade que aprende ao atingir uma certa idade — normalmente 100 anos, embora alguns digam serem necessários apenas 50.[carece de fontes?] As formas mais comumente assumidas por uma kitsune incluem: belas mulheres, jovens, idosos e homens. Essas formas não são limitadas pelo sexo ou pela idade da raposa,[carece de fontes?] e uma kitsune pode reproduzir a aparência de uma pessoa específica.[carece de fontes?] As raposas são frequentemente representadas com a aparência de uma bela mulher. Uma crença comum no Japão medieval era a de que uma bela mulher encontrada sozinha à noite ou ao entardecer poderia ser uma kitsune.[carece de fontes?] Kitsune-gao, ou "rosto de raposa", refere-se a seres humanos — geralmente mulheres — com rosto muito estreito, olhos e sobrancelhas finas e maçãs do rosto muito salientes. Tradicionalmente, essa estrutura facial é considerada muito atraente, e em alguns contos é associada à raposa em forma humana.[carece de fontes?] Variantes desses mitos mostram kitsune com outras características reveladoras, como pelos finos e sombras em forma de raposa mesmo na forma humana, pois o reflexo da luz pode revelar sua verdadeira aparência.[carece de fontes?] Em algumas histórias, as kitsune têm dificuldades em esconder a cauda quando estão na forma humana; observá-la enquanto a raposa estava ébria ou descuidada era um método comum de revelar sua verdadeira identidade em algumas lendas.[carece de fontes?] Algumas pessoas podem enxergar através do disfarce da kitsune simplesmente olhando com atenção, embora isso seja praticamente impossível.[14] Algumas kitsune também podiam revelar sua verdadeira forma em razão do medo e do ódio que sentem por cães, fugindo às pressas na forma de raposa.

Uma lenda ilustra bem as imperfeições que podiam revelar um humano kitsune: a Lenda de Koan narra a história de um sábio tido como detentor de poderes mágicos que, certa vez, foi tomar um banho preparado por seus discípulos, mas a água estava muito quente e ele saiu correndo nu pelo local. As pessoas que estavam por perto ficaram espantadas ao ver que ele possuía pelos de raposa em partes do corpo e uma cauda. Em seguida, Koan se transformou em uma raposa envelhecida diante de todos e fugiu.[carece de fontes?] Outras habilidades comumente atribuídas à kitsune incluem possessão, bocas e caudas que cospem fogo ou raios, manifestação voluntária nos sonhos de outras pessoas, capacidade de voar e criação de ilusões tão convincentes que são quase impossíveis de distinguir da realidade.[carece de fontes?] Outros contos retratam kitsune com poderes ainda maiores, como o de dobrar o tempo e o espaço, enlouquecer pessoas ou assumir a forma de seres fantásticos.[carece de fontes?] Outras kitsune agem como súcubos, alimentando-se da energia humana por meio do ato sexual.[carece de fontes?]

Kitsunetsuki

Inari Ōkami e seus espíritos de raposa ajudando o ferreiro Munechika a forjar a lâmina kogitsune-maru (raposinha) no final do século X. A lenda é o tema do drama noh Sanjō Kokaji.
Raposa de nove caudas, Clássico de Montanhas e Mares

Kitsunetsuki (em japonês: 狐憑き, 狐付き?), também escrito kitsune-tsuki, significa, literalmente, "o estado de ser possuído por uma raposa". A vítima geralmente é uma jovem mulher, em quem a raposa adentra por meio de seus seios.[15] Em alguns casos, o rosto da vítima pode se transformar de tal modo que se assemelhe ao de uma raposa. Embora as raposas no folclore possuam suas vítimas por livre e espontânea vontade, também podem fazê-lo em decorrência de encantamentos lançados contra a vítima.

O folclorista Lafcadio Hearn descreve os aspectos de uma vítima:

Ele observa que, uma vez liberada da possessão, a vítima nunca mais poderá comer tofu ou qualquer alimento dedicado às raposas. No Japão, o kitsunetsuki foi visto como uma doença desde o período Heian e permaneceu como diagnóstico para doenças mentais até o início do século XX.[carece de fontes?] A possessão era a explicação para o comportamento de indivíduos aflitos. No final do século XIX, o Dr. Shunichi Shimamura observou que doenças físicas que causavam febre eram frequentemente associadas a casos de kitsunetsuki.[carece de fontes?] Essa crença foi perdendo seu valor ao longo do tempo, embora ainda existam casos popularmente atribuídos a ela.[16]

Na medicina, o kitsunetsuki é uma síndrome intimamente vinculada à cultura japonesa; aqueles que sofrem dela acreditam ter sido possuídos por uma raposa.[17] Os sintomas incluem desejo por feijão-azuki, agitação, apatia e aversão ao contato visual. O kitsunetsuki é semelhante, mas distinto, da licantropia clínica.[18]

Hoshi no tama

Representações de kitsune ou de suas vítimas possuídas podem incluir esferas brancas conhecidas como hoshi no tama (ほしのたま?, "estrelas" ou "bolas"). Os contos as descrevem como brilhantes, semelhantes às kitsunebishi.[carece de fontes?] Algumas histórias as identificam como joias e pérolas mágicas.[carece de fontes?] Quando não estão na forma humana ou em posse de um ser humano, uma kitsune mantém a esfera em sua boca ou a carrega na cauda. As joias são um símbolo comum de Inari, e representações de Inari ou das kitsune sem elas são raras.[carece de fontes?]

Acredita-se que, quando uma kitsune se transforma, uma porção de seu poder fica armazenada nas hoshi no tamas. Segundo a crença, a esfera representa a alma da kitsune, e ela morreria caso ficassem separadas por muito tempo. Aqueles que obtiverem a esfera podem ser capazes de arrancar uma promessa de ajuda da kitsune, em troca da devolução da hoshi no tama.[carece de fontes?] Por exemplo, um conto do século XII descreve um homem que usa uma hoshi no tama para garantir um favor; a raposa mais tarde lhe salva a vida, fazendo-o passar por entre um bando de assaltantes armados.[carece de fontes?]

Servos de Inari

Estátua de uma kitsune no Inari shrine adjacente ao Todai-ji, em Nara

As kitsune são associadas a Inari, o deus xintoísta da fertilidade e da prosperidade.[carece de fontes?] Essa associação intensifica o significado sobrenatural das raposas.[carece de fontes?] O papel original das kitsune era o de mensageiras de Inari; contudo, a distinção entre os dois tornou-se tênue, e o próprio deus Inari às vezes é representado como uma raposa. Da mesma forma, santuários inteiros são dedicados às kitsune, onde os devotos vão deixar ofertas ao espírito da raposa.[19] Afirma-se que as kitsune apreciam o tofu frito cortado, chamado aburage, ingrediente semelhante ao utilizado nos pratos kitsune udon e kitsune soba, feitos com macarrão. Da mesma forma, Inari é o nome de um tipo de sushi que consiste em bolinhos de arroz envoltos em tofu frito.[carece de fontes?] Especialistas especulam se teria existido, no passado, uma divindade raposa distinta.[carece de fontes?]

As kitsune são ligadas ao budismo por meio de Dakiniten, divindade que incorpora alguns aspectos de Inari. Dakiniten é retratada como uma figura feminina bodhisattva que empunha uma espada e cavalga uma raposa branca voadora.[carece de fontes?]

Malandras

A lua sobre as planícies de Musashi (raposa), por Yoshitoshi

As kitsune são frequentemente retratadas como malandras, com motivações que variam da simples travessura à pura maldade. As histórias falam de kitsune que zombam do orgulho de samurais arrogantes, comerciantes gananciosos e plebeus. Suas vítimas são geralmente homens; as mulheres são possuídas em vez de enganadas. Por exemplo, imagina-se que as kitsune usem suas kitsunebi na forma de fogo-fátuo para desviar viajantes do caminho.[carece de fontes?] Outra tática consiste em confundir o alvo com ilusões ou visões.[carece de fontes?] Outros objetivos comuns das kitsune malandras incluem sedução, roubo de comida, humilhação do orgulho alheio ou vingança contra quem as percebe rapidamente.

Um jogo tradicional chamado kitsune-ken ("punho de raposa") faz referência aos poderes das kitsune sobre os seres humanos. O jogo é semelhante ao pedra, papel e tesoura, mas as três posições de mão representam uma raposa, um caçador e um chefe de aldeia. O chefe supera o caçador; o caçador abate a raposa; a raposa enfeitiça o chefe.[carece de fontes?]

Esse retrato ambíguo, aliado à reputação de vingativas, leva as pessoas a tentarem compreender os motivos que conduzem as raposas a agir assim. Em um caso do século XVI, o líder Toyotomi Hideyoshi escreveu uma carta ao deus Inari.

As kitsune mantêm suas promessas e se esforçam para retribuir um favor. Ocasionalmente, uma kitsune se apresenta a uma pessoa ou família, onde pode causar todo tipo de travessuras. Em uma história datada do século XII, apenas ameaças eram capazes de convencer as raposas a se comportar.

O Fushimi Inari em Quioto dispõe de inúmeras estátuas de kitsune.

Outras kitsune empregam sua magia em benefício de seus companheiros ou anfitriões, quando os seres humanos as tratam com respeito. Como yōkai, no entanto, as kitsune não compartilham da moralidade humana, e uma delas que tenha se instalado em uma casa pode, por exemplo, trazer dinheiro ou objetos roubados dos vizinhos. Assim, as kitsune são comumente tratadas com desconfiança.[carece de fontes?] Curiosamente, famílias de samurais tinham muitas vezes a fama de manter acordos semelhantes com as kitsune, mas essas raposas eram consideradas zenko e o uso de sua magia, um sinal de prestígio. Casas abandonadas eram comumente habitadas por kitsune. Um conto do século XII fala de um ministro que se mudou para uma mansão antiga, apenas para descobrir que uma família de raposas ali vivia. Primeiro, elas tentam assustá-lo; em seguida, afirmam que a casa "foi nossa por muitos anos, e... desejamos registrar um vigoroso protesto". O homem recusa-se a sair, e as raposas resignam-se a mudar para um terreno abandonado nas proximidades.[carece de fontes?]

Os contos distinguem os presentes das kitsune de seus pagamentos. Se uma kitsune oferece um pagamento ou recompensa que inclui dinheiro ou riqueza material, parte ou a totalidade da soma será composta de papel velho, folhas, galhos, pedras ou itens semelhantes, sem valor real, ilusoriamente disfarçados de riqueza.[carece de fontes?] Seus verdadeiros presentes são geralmente intangíveis, como proteção, conhecimento e longa vida.[carece de fontes?]

Esposas e amantes

A kitsune Kuzunoha projeta uma sombra de raposa mesmo na sua forma humana. Kuzunoha é uma figura popular no folclore. Impressão por Utagawa Kuniyoshi.

As kitsune são comumente retratadas como amantes, geralmente em histórias que envolvem um jovem humano e uma kitsune que toma a forma de mulher. A kitsune pode ser sedutora, mas essas histórias são em sua maioria de natureza romântica. Normalmente, o jovem se apaixona pela raposa sem o saber, e ela se revela uma esposa dedicada. O homem descobre a verdadeira natureza de sua esposa, e a mulher-raposa é forçada a deixá-lo. Em alguns casos, o marido acorda como se saísse de um sonho, sujo, desorientado e longe de casa. Em seguida, retorna para casa e, envergonhado, confronta-se com a família que acredita ter abandonado.

Muitas histórias relatam mulheres-raposas que têm filhos. Quando essas crianças são humanas, possuem habilidades físicas especiais ou sobrenaturais, qualidades que muitas vezes são transmitidas a seus próprios filhos. O astrólogo e mágico Abe no Seimei tinha fama de ter herdado tais poderes extraordinários de sua mãe, que teria sido uma kitsune.

Outras histórias contam que, quando as kitsune se casam, a chuva cai de um céu claro — uma chuva ensolarada — chamada de kitsune no yomeiri, ou casamento da kitsune, em referência a uma lenda que descreve uma cerimônia de casamento realizada nessas condições. O evento é considerado um bom presságio, mas a kitsune buscará vingança contra qualquer convidado indesejado, como está representado no filme de Akira Kurosawa (Sonhos).

Stephen Turnbull, em "Nagashino 1575", relata a história do envolvimento do clã Takeda com uma mulher-raposa. O senhor da guerra Takeda Shingen, em 1544, derrotou em batalha o guerreiro Suwa Yorishige, que se suicidou após uma "humilhante e espúria" conferência de paz. Em seguida, o clã Takeda forçou o casamento de uma filha da Senhora Koi — com apenas 14 anos de idade — com Takeda Shingen. Turnbull escreve: "ele era tão obcecado pela garota que seus seguidores supersticiosos ficaram alarmados e acreditavam que ela fosse uma encarnação do espírito da raposa branca do Santuário de Suwa, que havia o enfeitiçado a fim de obter vingança." Quando seu filho Takeda Katsuyori se mostrou um grande líder, mas conduziu o clã à devastadora derrota na batalha de Nagashino, Turnbull escreve: "os antigos chefes sábios balançaram a cabeça, lembrando-se das infelizes circunstâncias de seu nascimento e de sua mágica mãe".

Representação

Profundamente incorporadas ao folclore japonês, as kitsune aparecem em inúmeras obras japonesas. Noh, kyogen, bunraku e kabuki são estilos clássicos que tiveram obras criadas a partir de contos populares.[carece de fontes?] As kitsune também aparecem em obras contemporâneas, como anime, mangá e jogos de videogame. Alguns ídolos de bandas musicais japonesas utilizam mitos sobre as kitsune em suas letras e incluem o uso de máscaras de raposa, sinais de mão e interlúdios de animação durante os shows ao vivo.[20] Autores de ficção ocidentais também fazem uso das lendas da kitsune.[20][21][22]

Jogos de videogame

  • É possível ser uma kitsune no jogo Camp Half-Blood RPG
    "Kitsunebi no Ano Novo, uma Noite sob as árvores Enoki perto de Ōji", no Cem Vistas de Edo por Hiroshige. Cada raposa tem um kitsunebi flutuante próximo ao seu rosto.
  • Tails, um dos personagens da série de videogames Sonic, é uma jovem raposa com duas caudas. Segundo seu criador, Yasushi Yamaguchi, Tails foi inspirado na kitsune.
  • No MMORPG Perfect World, a classe Feiticeira da raça Selvagem alterna entre sua forma humanoide e a de raposa para obter bônus de defesa, precisão e ataque físico.
  • Na expansão Samurai Empire do MMORPG Ultima Online, uma série de novas criaturas foi introduzida, incluindo a kitsune.
  • Em Pokémon, Vulpix e sua evolução Ninetales são raposas de seis e nove caudas, respectivamente, e possuem poderes pirocinéticos. Zorua e Zoroark são raposas com a habilidade de criar ilusões e, portanto, podem alterar sua aparência, chegando a se passar por humanos.
  • No jogo Ōkami, o mestre da ilha Oni é um demônio raposa de nove caudas chamado Kyubi (Ninetails na versão em inglês); cada uma de suas caudas contém um espírito vingativo, e ele carrega uma espada nas costas.
  • No jogo Flyff, um dos familiares disponíveis é uma kitsune, que também concede bônus para magias.
  • No jogo online Dofus, uma torre é habitada por criaturas semelhantes a kitsune, de cores diferentes conforme seu elemento: fogo, ar, água ou terra.
  • No RPG Shadowrun para SNES, uma das personagens é uma xamã chamada kitsune, com o poder de se transformar em raposa.
  • Em Tales of Symphonia, Corine, o espírito que deveria ter sido criado pelo homem que acompanha Sheena Fujibayashi, tem aparência de raposa com três caudas. Após sua morte causada pelo espírito do relâmpago, Volt, Corine torna-se Vérius, o espírito do coração, com aparência de uma kitsune adulta de nove caudas.
  • Yakumo, personagem da série de videogame Touhou Project, é a chefe da fase extra de Perfeito, Flor de Cerejeira e é uma kitsune.
  • Na série The Legend of Zelda, especialmente em Majora's Mask e Minish Cap, Keaton é um misterioso animal amarelo semelhante a uma raposa, com três caudas.
  • No jogo League of Legends, a campeã Ahri é uma raposa fêmea de nove caudas.
  • No jogo Muramasa: The Demon Blade, Kongiku e Yuzuruha são mulheres-raposas.
  • Em Super Mario 3D Land e Super Mario 3D World, Luigi pode se transformar em kitsune, adquirindo a habilidade de planar, atacar com a cauda e se converter em estátua (exceto em Super Mario 3D World).
  • Em Aura Kingdom, é possível obter um espírito de kitsune com aparência de bela jovem de quimono, que luta ao lado da personagem.
  • Em Fire Emblem: Destinos, Kaden e Selkie pertencem à classe kitsune, o que lhes permite se transformar em raposa.
  • Na franquia Fate/Stay Night, o mito da kitsune é representado pela servo Tamamo no Mae, inspirada na lendária Tamamo no Mae da mitologia japonesa, aparecendo em Fate/Extra, Fate/Extra CCC, Fate/Grand Order e Fate/Extella como servo da classe Caster.
  • Na franquia Yo-Kai Watch, o Yo-Kai Kyubi foi inspirado em uma kitsune. Na franquia Smite,[23] Da Ji representa a Kyubi: possui garras nas mãos e forma humana acompanhada das 9 caudas. Ela é referenciada pela mitologia chinesa e integra o panteão de deuses do jogo.

Na literatura

  • Inari Ōkami aparece como guerreiro acompanhado por uma kitsune. Este retrato mostra a influência dos conceitos Dakiniten do budismo. Impressão por Utagawa Kuniyoshi.
    No livro A Espada e o Sabre, de Armand Cabasson, o episódio Chacais, Raposas e Borboletas chama atenção para uma mulher-raposa que aconselha um senhor da guerra.
  • No terceiro, quarto e quinto livros da série Diários de um Vampiro, os dois kitsune chamados Shinichi e Misao podem assumir a forma humana para induzir as pessoas a atos terríveis e desumanos. Alimentam-se das memórias das pessoas, e sua energia vital está contida em uma esfera na forma de fluido. Têm o poder de controlar plantas e dominar pessoas por meio de malachs. De acordo com L. J. Smith, há duas maneiras de matar uma kitsune: uma delas é destruir sua esfera mágica.
  • Na série Black Swan, de Richelle Mead, Kiyo, um dos aliados da heroína, é uma kitsune capaz de mudar de forma.
  • Na série de light novels Kanokon, Chizuru é um espírito de raposa com uma cauda; descobre-se que Kouta pode se transformar em espírito de raposa com cinco caudas.

Na televisão

  • Na série americana Teen Wolf, a personagem Kira Yukimura é uma kitsune shakko.
  • No programa infantil japonês Escola dos Monstros (Bakeruno Shōgakkō Hyūdoro-gumi), a personagem Byakko é uma kitsune.

Nos mangás e animes

  • No mangá Naruto, o personagem principal carrega dentro de si o espírito de uma kitsune.
  • No anime Digimon Tamers, a personagem Kyubimon foi inspirada em uma kitsune.
  • No anime Yu Yu Hakusho, Youko Kurama pode se transformar em uma raposa de nove caudas.
  • No anime InuYasha, Shippou é um filhote de kitsune.
  • No anime Sewayaki Kitsune no Senko-san, Senko, Sora e Shiro são kitsune retratadas como bondosas e afetuosas.

Tipos de kitsune

  • Bakemono-kitsune: Kitsune má e espectral, semelhante a um fantasma, muito parecida com Reiko, Kiko e Koryo.
  • Genko: Kitsune negra, geralmente vista como um bom presságio.
  • Kiko: Espírito de uma kitsune.
  • Kitsune: Termo geral para "raposa"; as kitsune podem ser retratadas tanto como benevolentes quanto como maléficas.
  • Kitsune-bi: Kitsune com o poder de invocar chamas pela boca e pela cauda, além de transmutação.
  • Koryo: Kitsune amaldiçoada.
  • Kuko: Kitsune do elemento Ar. As kuko são consideradas muito maléficas, equiparadas ao Tengu, o goblin japonês.
  • Kyuubi: Kitsune que alcançaram 900 anos de vida e possuem 9 caudas; adquirem a habilidade de ver e ouvir tudo em qualquer parte do mundo, além de sabedoria infinita — a onisciência.
  • Nogitsune: Kitsune selvagens. O termo é usado para diferenciar as kitsune boas das maléficas: "kitsune" designa as boas, enquanto "nogitsune" se refere àquelas que enganam pessoas. As nogitsune não são necessariamente cruéis; simplesmente apreciam enganar e se alimentam de medo, caos e dor. Têm o poder de possuir indivíduos e controlá-los, e gostam de manipular a mente do hospedeiro com charadas.
  • Reiko: Fantasma de uma kitsune; não é intrinsecamente má, mas é definitivamente perversa.
  • Shakko: Kitsune vermelha; pode ser considerada tanto boa quanto má.
  • Shouzaa: Espírito Seiryu, supervisor das raposas.
  • Tenko: A elite celestial das kitsune; são aquelas que alcançaram 1.000 anos de vida (geralmente já com 9 caudas e pelagem prateada ou dourada). Algumas são consideradas maléficas, como Tamamo-no-Mae, enquanto outras são benevolentes e sábias, como as mensageiras da deusa Inari — embora nem todas sejam necessariamente mensageiras dela.
  • Yako/Yakan: yako (野狐; literalmente, raposas maldosas)

Ver também

  • Nguruvilú

Referências

  1. 劉 克華. 「民話の狐と人間」. 『愛知工業大学研究報告』, volume 40-A, 2005.
  2. Nozaki Kiyoshi, Kitsune— Japan's Fox of Mystery, Romance, and Humor, Tokyo, The Hokuseidô Press, 1961, p. 5.
  3. Nozaki Kiyoshi, Kitsune— Japan's Fox of Mystery, Romance, and Humor, Tokyo, The Hokuseidô Press, 1961, p. 5.
  4. Lafcadio Hearn, Le Japon inconnu : esquisses psychologiques, traduit par Mme Léon Raynal, Paris, 1904, p. 282.
  5. Hamel 2003, p. 89
  6. Goff, "Foxes", Japan Quarterly, vol. 44, no 2.
  7. 1 2 Smyers 1999, p. 72
  8. Smyers 1999, p. 127–128
  9. Yōkai no hon written by Prof. Abe Masaji & Prof. Ishikawa Junichiro
  10. Hearn. 154
  11. Hamel 2003, p. 91
  12. Smyers 1999, p. 129.
  13. Hearn, Glimpses, p. 159
  14. Heine, Steven.
  15. Nozaki.59
  16. MIYAKE-Downen, Jean.
  17. Haviland, William A. (2002) Cultural Anthropology, 10th ed.
  18. Yonebayashi, T. (1964)
  19. Hearn 154
  20. 1 2 ''Metal Hammer UK issue 273''
  21. Johnson, K. I. J. (2001)
  22. Lackey, Mercedes; Edghill, Rosemary (2001)
  23. «Battleground of the Gods»