Guerra da Cisplatina

Guerra da Cisplatina
Questão do Prata

Em sentido horário:
  • Batalha de Sarandi
  • Batalha do Passo do Rosário
  • Juramento dos Trinta e Três Orientais
  • Batalha de Juncal
Data10 de dezembro de 182528 de agosto de 1828
LocalSul do Brasil, Uruguai e foz do Rio da Prata.
DesfechoIndependência do Uruguai e criação de um Estado-tampão na Banda Oriental
Mudanças territoriaisIndependência do Uruguai
Beligerantes
Províncias Unidas do Rio da Prata
Trinta e Três Orientais
Império do Brasil
Comandantes
Bernardino Rivadavia
Guillermo Brown
Juan Lavalle
Carlos María de Alvear
Manuel Dorrego
Martín Rodriguez
Juan Antonio Lavalleja
Fructuoso Rivera
Manuel Oribe
Pedro I do Brasil
Marquês de Barbacena
Carlos Frederico Lecor
James Norton
Gustav Heinrich von Braun
Bento Manuel Ribeiro
Bento Gonçalves da Silva
Sebastião Barreto
Rodrigo Pinto Guedes
Unidades
Exército Republicano
Milícias Orientais
Exército Imperial Brasileiro
Merc. Alemães
Merc. Irlandeses
Forças
1826:
12 000 homens e milicianos
1828:
6 000 homens
1826:
6 832 homens
1828:
15 000 homens
Baixas
7 500 baixas 8 000 baixas

A Guerra da Cisplatina (1825–1828), denominada na historiografia argentina e uruguaia como Guerra do Brasil ou Guerra argentino-brasileira, foi um conflito armado entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata, com a participação de forças políticas e militares da Banda Oriental, pela posse da Província Cisplatina, território correspondente em grande parte ao atual Uruguai. Inseriu-se no contexto das disputas pela reorganização do espaço platino após a crise dos impérios ibéricos e pela definição do equilíbrio de poder na bacia do rio da Prata nas primeiras décadas do século XIX.

A guerra teve origem na incorporação da Cisplatina ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1821, mantida após a Independência do Brasil, e na insurreição de 1825 liderada pelos Trinta e Três Orientais, que proclamaram a separação da província e a sua união às Províncias Unidas. O conflito desenvolveu-se em campanhas terrestres na Banda Oriental e no sul do Brasil e em operações navais no Atlântico Sul e no estuário platino, sendo marcado por um impasse estratégico: enquanto o Império manteve o controlo das principais cidades e a supremacia marítima, as forças orientais e rio-platenses dominaram amplas áreas rurais e obtiveram vitórias em batalhas campais.

O bloqueio naval brasileiro comprometeu as receitas aduaneiras de Buenos Aires, ao passo que os custos financeiros e a impopularidade da guerra agravaram a crise política do Primeiro Reinado. A mediação diplomática do Reino Unido, interessada na manutenção da liberdade de comércio e do equilíbrio regional, conduziu à assinatura da Convenção Preliminar de Paz em 1828, que estabeleceu a independência da região como o Estado Oriental do Uruguai.

A guerra integrou o ciclo das chamadas questões platinas e desempenhou papel decisivo na formação do sistema de Estados do sul da América do Sul, ao fixar fronteiras, redefinir o equilíbrio geopolítico regional e inserir o espaço platino na ordem internacional do século XIX sob forte influência britânica. Teve também impactos duradouros na política interna do Império do Brasil, contribuindo para o desgaste do governo de Pedro I, e na dinâmica de fragmentação das Províncias Unidas.

Antecedentes

A formação da Província Cisplatina

Bandeira da Província Cisplatina, incorporada ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1821.

A região da Banda Oriental constituiu, desde o período colonial, uma zona de fronteira entre os impérios ibéricos, cuja importância derivava da sua posição estratégica na entrada do estuário do rio da Prata, ponto de articulação entre o comércio atlântico e as rotas fluviais que conduziam ao interior sul-americano. A fundação da Colônia do Sacramento pelos portugueses, em 1680, inseriu-se nesse contexto de disputa geopolítica com a monarquia espanhola pelo controlo das redes comerciais platinas.[6][7]

A crise da monarquia espanhola no início do século XIX e os processos de independência na América alteraram profundamente o equilíbrio político regional. Na Banda Oriental, a liderança de José Gervasio Artigas articulou um projeto autonomista vinculado às Províncias Unidas do Rio da Prata, apoiado sobretudo por setores rurais e por formas de mobilização política e militar características do espaço platino.[7][8]

A intervenção militar luso-brasileira iniciada em 1816, conduzida pela Divisão de Voluntários Reais sob o comando de Carlos Frederico Lecor, resultou na ocupação de Montevidéu em 1817 e na derrota das forças artiguistas na Batalha de Tacuarembó em 1820, assegurando o domínio português sobre o território.[9][6]

Em 1821, um congresso reunido em Montevidéu aprovou a incorporação da região ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves com a denominação de Província Cisplatina.[nota 1] A anexação foi apresentada pela Coroa como medida destinada a garantir a segurança das fronteiras meridionais do Brasil e a estabilidade política no espaço platino, sendo mantida após a Independência do Brasil em 1822.[9][6]

A crise política na Banda Oriental

A integração da Cisplatina ao Império do Brasil realizou-se sob forte presença militar e apoiou-se na cooptação de setores das elites urbanas e rurais, que passaram a participar das instituições do novo Estado, enviando representantes às Cortes de Lisboa e, posteriormente, à Assembleia Constituinte de 1823.[9]

Apesar dessa inserção institucional, a incorporação não eliminou as tensões políticas locais. Parte significativa das lideranças orientais e da população rural manteve vínculos econômicos e políticos com as Províncias Unidas e opôs-se ao domínio brasileiro, em um contexto marcado pela circulação de forças armadas, pela autonomia das milícias regionais e por identidades políticas ainda em formação.[7][6]

Em 1825, o movimento dos Trinta e Três Orientais, liderado por Juan Antonio Lavalleja, desembarcou na praia da Agraciada e proclamou a separação da província do Império do Brasil e a sua união às Províncias Unidas do Rio da Prata. O apoio político, financeiro e militar de Buenos Aires ao levante transformou a crise provincial em um conflito internacional, levando o

Causas da guerra

A Guerra da Cisplatina resultou da convergência de fatores geopolíticos, econômicos e políticos que marcaram a reorganização do espaço platino após a crise das monarquias ibéricas. O conflito esteve relacionado simultaneamente às disputas pela definição de fronteiras entre os novos Estados sul-americanos, às dinâmicas internas da Banda Oriental e à inserção da região no sistema atlântico de comércio.[6][7][10]

A questão estratégica do rio da Prata

O estuário do rio da Prata constituía um dos principais eixos de circulação econômica do continente, articulando o comércio atlântico às bacias hidrográficas dos rios Paraná e Paraguai e às regiões produtoras do interior. O controlo da Banda Oriental permitia influenciar a navegação fluvial e o acesso a essas rotas, fator que conferia à Cisplatina grande importância estratégica tanto para o Império do Brasil quanto para as Províncias Unidas do Rio da Prata.[6][7]

Para o governo do Rio de Janeiro, a manutenção da província era considerada fundamental para a defesa da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e para a afirmação do Brasil como potência regional no Atlântico Sul. Para Buenos Aires, por sua vez, a reincorporação da Banda Oriental era vista como condição para a continuidade da unidade econômica e política herdada do antigo vice-reino e para o controlo das rotas comerciais do interior.[10][8]

O conflito entre projetos de organização regional

A guerra expressou também a oposição entre distintos projetos de organização política do espaço platino. O Império do Brasil procurava consolidar a Cisplatina como província integrada ao seu sistema monárquico e centralizado, enquanto setores dirigentes das Províncias Unidas defendiam a sua reintegração ao antigo território do Vice-Reino do Rio da Prata.[7][6]

Na própria Banda Oriental coexistiam posições divergentes. Parte das elites urbanas e dos grandes proprietários rurais colaborou com a administração brasileira, beneficiando-se da estabilidade proporcionada pela presença militar e da integração aos circuitos econômicos do sul do Brasil. Outros grupos, vinculados às tradições políticas do período artiguista e às redes comerciais de Buenos Aires, sustentaram o movimento insurgente de 1825.[9][7]

As tensões internas no Império do Brasil

O conflito ocorreu em um momento de consolidação do Estado imperial brasileiro. A manutenção da Cisplatina implicava elevados custos militares e financeiros, exigindo recrutamento forçado, ampliação da carga fiscal e mobilização de recursos em escala nacional.[10][8]

A guerra tornou-se progressivamente impopular entre os setores políticos que não identificavam vantagens econômicas diretas na região platina. A oposição liberal utilizou o conflito como instrumento de crítica ao governo de Pedro I, associando-o ao centralismo monárquico e ao agravamento da crise financeira do Império.[6][10]

Interesses britânicos e equilíbrio regional

A presença britânica no Atlântico Sul introduziu um elemento adicional na crise. O Reino Unido tinha interesse na manutenção da liberdade de comércio e na preservação de um equilíbrio de poder que impedisse o controlo exclusivo do estuário do Prata por qualquer das potências regionais.[6][11]

Nesse contexto, a guerra adquiriu dimensão internacional, pois a sua resolução dependia não apenas do resultado militar, mas também da mediação diplomática das potências atlânticas, cuja atuação favoreceu a constituição de um Estado independente na Banda Oriental como solução para o impasse.[6]

Forças em confronto

As forças mobilizadas durante a Guerra da Cisplatina refletiam as limitações estruturais dos Estados envolvidos, que ainda se encontravam em processo de consolidação política e militar. Tanto o Império do Brasil quanto as Províncias Unidas do Rio da Prata enfrentaram dificuldades para organizar exércitos permanentes, financiar a guerra e estabelecer mecanismos eficientes de recrutamento e comando.[10][8]

Império do Brasil

O Império possuía população e recursos potenciais superiores aos de seus adversários, mas essa vantagem demográfica não se converteu automaticamente em capacidade militar efetiva. A distância entre as províncias centrais e o teatro de operações, a resistência ao recrutamento e os conflitos políticos internos limitaram a mobilização de tropas.[10][6]

O núcleo profissional do Exército Brasileiro era formado por unidades herdadas do período joanino, às quais se somaram contingentes recrutados nas províncias — frequentemente por meio de recrutamento forçado — e tropas locais estacionadas na própria Cisplatina. A insuficiência de efetivos levou à contratação de mercenários europeus, sobretudo alemães e irlandeses, integrados em corpos específicos do exército imperial.[8][11]

A Marinha do Brasil constituiu o principal instrumento militar do Império ao longo do conflito. Organizada durante o processo de independência e dotada de superioridade material e experiência operacional, foi capaz de impor o bloqueio do estuário do Prata, comprometendo o comércio das Províncias Unidas e condicionando o equilíbrio estratégico da guerra.[11][10]

A Batalha de Monte Santiago (1827) consolidou a supremacia naval brasileira e permitiu a manutenção do bloqueio do rio da Prata.

Províncias Unidas do Rio da Prata e forças orientais

As Províncias Unidas apresentavam menor capacidade demográfica e financeira e eram marcadas por forte fragmentação política. O esforço militar concentrou-se sobretudo em Buenos Aires, enquanto diversas províncias do interior participaram de forma limitada do conflito.[7][8]

O exército republicano foi organizado a partir de contingentes provinciais e das forças orientais lideradas por Juan Antonio Lavalleja e Fructuoso Rivera. A mobilização apoiou-se amplamente na cavalaria irregular formada por gaúchos, cuja experiência nas guerras regionais favorecia operações rápidas, controle do espaço rural e táticas de desgaste contra as tropas imperiais.[7][6]

No plano naval, a esquadra de Buenos Aires era inferior à brasileira em número de navios e poder de fogo. Ainda assim, a utilização de corsários, embarcações leves e oficiais estrangeiros permitiu realizar ações de perturbação do bloqueio e assegurar a continuidade parcial das trocas comerciais.[11]

Limitações estruturais

Em ambos os lados, a guerra evidenciou a ausência de estruturas militares plenamente nacionalizadas. A dependência de recrutamento forçado, de contingentes regionais e de oficiais estrangeiros revela o caráter ainda incompleto dos aparelhos estatais e a persistência de formas de mobilização herdadas do período colonial e das guerras de independência.[10][8]

Essas limitações contribuíram para o prolongamento do conflito e para a dificuldade de obtenção de uma vitória decisiva em terra, contrastando com a maior definição do cenário naval, onde a superioridade brasileira se manteve ao longo da guerra.[11]

Campanhas militares

As operações militares da Guerra da Cisplatina desenvolveram-se em dois eixos principais — terrestre e naval — e foram marcadas por um prolongado impasse estratégico. Enquanto o Império do Brasil manteve o controlo das principais cidades da província e a supremacia marítima, as forças republicanas obtiveram êxitos em batalhas campais e dominaram amplas áreas rurais.[10][8]

A campanha terrestre

A guerra em terra caracterizou-se pela elevada mobilidade das forças orientais e rio-platenses, que privilegiavam ações rápidas e táticas de desgaste, contrastando com a estratégia imperial baseada na ocupação de centros urbanos e na condução de operações convencionais.[7]

Operações militares no teatro sul em fevereiro de 1827.

Em 1826, um exército das Províncias Unidas do Rio da Prata, sob o comando de Carlos María de Alvear, atravessou o rio da Prata e estabeleceu-se no interior da província, iniciando uma ofensiva contra as forças imperiais. O confronto decisivo ocorreu na Batalha do Passo do Rosário (Ituzaingó), na qual o exército brasileiro foi derrotado. A vitória republicana, entretanto, não pôde ser explorada estrategicamente em virtude das limitações logísticas e da incapacidade de ocupar as principais posições imperiais.[10][8]

Outro confronto relevante foi a Batalha de Sarandi, que consolidou o controlo das forças orientais sobre o espaço rural e reforçou a capacidade de mobilização local contra a presença imperial.[7]

Apesar desses êxitos, as Províncias Unidas não conseguiram conquistar Montevidéu nem Colônia do Sacramento, que permaneceram sob domínio brasileiro durante todo o conflito. A manutenção dessas posições garantiu ao Império pontos de apoio logístico e político fundamentais para a continuidade da guerra.[10]

Por sua vez, as tropas imperiais enfrentaram dificuldades para impor uma derrota decisiva ao inimigo, em razão da extensão do território, da escassez de efetivos e da predominância de formas de combate irregulares no interior da província.[8]

A guerra naval e o bloqueio do Prata

No plano marítimo, a guerra assumiu características distintas. A Marinha do Brasil estabeleceu o bloqueio do estuário do rio da Prata e do porto de Buenos Aires, comprometendo o comércio exterior das Províncias Unidas e reduzindo a sua capacidade de financiamento do esforço militar.[11][10]

Embora a esquadra republicana, comandada por Guillermo Brown, tenha obtido êxitos em ações pontuais e demonstrado grande capacidade operacional, a inferioridade material limitou a sua capacidade de romper o bloqueio de forma permanente.[11]

A batalha naval decisiva foi a Batalha de Monte Santiago (1827), que consolidou a supremacia marítima brasileira e assegurou o controlo das linhas de comunicação no Atlântico Sul.[11]

O bloqueio naval teve efeitos económicos significativos, provocando escassez de recursos nas Províncias Unidas, afetando as receitas aduaneiras de Buenos Aires e ampliando a pressão interna por uma solução diplomática para o conflito.[7]

O impasse militar

Ao final de 1827, a guerra encontrava-se num impasse. Em terra, nenhuma das partes possuía meios para ocupar de forma duradoura todo o território em disputa. No mar, a superioridade brasileira não era suficiente para impor a rendição do adversário.[10]

Esse equilíbrio precário elevou os custos financeiros e políticos da guerra para ambos os lados e criou condições para a intensificação da mediação diplomática britânica, que conduziria à assinatura da Convenção Preliminar de Paz em 1828.[6]

Diplomacia e mediação internacional

O prolongamento da guerra e o impasse militar favoreceram a intensificação da intervenção diplomática das potências europeias, em especial do Reino Unido, cujos interesses comerciais na região do rio da Prata eram diretamente afetados pelo bloqueio naval e pela instabilidade política.[6][12]

A política britânica para a América do Sul, no período posterior às independências, baseava-se na defesa da liberdade de comércio e na preservação de um equilíbrio de poder entre os novos Estados. Nesse contexto, a possibilidade de controlo exclusivo do estuário do Prata por parte do Império do Brasil ou das Províncias Unidas do Rio da Prata era considerada incompatível com a manutenção de um espaço económico aberto à navegação e ao comércio internacional.[6][7]

A mediação foi conduzida pelo representante britânico John Ponsonby, que atuou junto aos governos do Rio de Janeiro e de Buenos Aires na construção de uma solução negociada. A proposta central consistia na criação de uma entidade política independente na Banda Oriental, concebida como um Estado tampão entre as duas potências regionais e integrada ao sistema atlântico de comércio.[6][12]

A continuidade da guerra agravava a crise financeira do Império do Brasil, dependente de empréstimos externos e pressionado pelos custos militares, ao mesmo tempo que o bloqueio naval comprometia as receitas aduaneiras de Buenos Aires, base do financiamento das Províncias Unidas do Rio da Prata. Essas circunstâncias aumentaram a disposição de ambos os lados para aceitar a arbitragem internacional.[10][7]

As negociações resultaram na assinatura da Convenção Preliminar de Paz, em 28 de agosto de 1828, pela qual o Brasil e as Províncias Unidas reconheceram a independência da região, que passou a constituir o Estado Oriental do Uruguai.[6]

A solução diplomática refletiu não apenas o equilíbrio militar no teatro de operações, mas também a inserção do espaço platino na ordem internacional do século XIX, marcada pela preponderância económica e pela influência política britânica no Atlântico Sul.[12]

O Juramento dos Trinta e Três Orientais (1877), de Juan Manuel Blanes — representação simbólica da memória do movimento independentista oriental.

Consequências

A guerra produziu efeitos duradouros para os três espaços diretamente envolvidos — o Império do Brasil, as Províncias Unidas do Rio da Prata e o recém-criado Estado Oriental do Uruguai — e contribuiu para a redefinição do equilíbrio político na bacia do rio da Prata.[6][7]

Para o Império do Brasil

A perda da Província Cisplatina representou um revés político e simbólico para o Império, ao demonstrar os limites da sua capacidade de projeção militar no espaço platino. O conflito agravou a crise financeira do Estado, em razão dos elevados gastos militares e do recurso ao endividamento externo para o financiamento da guerra.[10][12]

A impopularidade do conflito ampliou o desgaste do governo de Pedro I do Brasil, intensificando as tensões entre o imperador e os setores liberais, especialmente na Assembleia Geral. Embora não tenha sido causa direta da abdicação de 1831, a guerra integrou o conjunto de fatores que enfraqueceram a sua posição política e contribuíram para a crise do Primeiro Reinado.[6][10]

Ao mesmo tempo, a manutenção da soberania brasileira sobre os Sete Povos das Missões atenuou parcialmente o impacto territorial da derrota e preservou a posição estratégica do Império na fronteira sul.[12]

Para as Províncias Unidas do Rio da Prata

Para as Províncias Unidas, a criação de um Estado independente na Banda Oriental implicou a renúncia ao projeto de reintegração do território ao antigo espaço do vice-reino do Rio da Prata. Ainda assim, a solução impediu a consolidação do controlo brasileiro sobre o estuário e preservou a autonomia estratégica de Buenos Aires no sistema regional.[7]

A guerra evidenciou as limitações do poder central portenho e as dificuldades de mobilização das províncias do interior para um esforço militar prolongado, reforçando a dinâmica de fragmentação política que marcaria as décadas seguintes da história argentina.[7]

Do ponto de vista económico, o bloqueio naval brasileiro comprometeu as receitas alfandegárias, base do financiamento estatal, contribuindo para a instabilidade fiscal e política do período.[6]

Para o Estado Oriental do Uruguai

A independência do Uruguai resultou da convergência entre a mobilização político-militar local e os interesses internacionais na estabilização da região. O novo Estado surgiu com a sua existência garantida por acordo diplomático, condição que marcou profundamente a sua formação institucional e a sua inserção no sistema regional como zona de equilíbrio entre os dois grandes vizinhos.[6][12]

A fragilidade demográfica, militar e económica inicial favoreceu a permanência de forte influência externa na política uruguaia ao longo do século XIX, tornando o país um espaço recorrente de intervenção e de disputa entre Brasil e Argentina.[7]

Impacto regional

A guerra redefiniu o equilíbrio geopolítico no sul da América do Sul e consolidou a formação de um sistema de Estados na bacia do Prata, no qual o Uruguai passou a desempenhar o papel de Estado-tampão entre o Brasil e as Províncias Unidas.[12]

O conflito também evidenciou os limites do recurso à guerra como instrumento de resolução das disputas regionais e assinalou a crescente importância da mediação diplomática internacional na política sul-americana do século XIX, em especial sob a influência britânica.[6]

Interpretações historiográficas

A Guerra da Cisplatina tem sido objeto de interpretações distintas nas historiografias brasileira, argentina e uruguaia, refletindo os processos de construção das narrativas nacionais e as diferentes leituras sobre a formação do sistema político na bacia do rio da Prata.[6][7]

Historiografia brasileira

Na tradição historiográfica brasileira do século XIX e início do XX, o conflito foi frequentemente interpretado como um episódio da política externa do Primeiro Reinado e como um dos fatores responsáveis pelo desgaste do governo de Pedro I do Brasil. Nessa perspectiva, a guerra aparecia como um empreendimento dispendioso e politicamente malsucedido, associado à crise interna do Império.[10]

Estudos posteriores relativizaram a ideia de derrota absoluta, destacando que o Brasil preservou posições estratégicas no sul e manteve a sua capacidade de projeção regional. A guerra passou a ser analisada como parte de uma política de segurança de fronteiras e de inserção do Império no sistema platino.[12]

Historiografia argentina

Na historiografia argentina, o conflito foi tradicionalmente denominado Guerra contra o Brasil e interpretado como etapa das lutas pela consolidação das Províncias Unidas do Rio da Prata e pela defesa da integridade do antigo vice-reino. Nesse enquadramento, a participação das forças orientais foi frequentemente apresentada como expressão da unidade política do espaço rio-platense.[7]

A produção historiográfica mais recente, contudo, tem enfatizado as limitações do poder central de Buenos Aires e o caráter fragmentado do esforço de guerra, inserindo o conflito no contexto mais amplo das disputas entre projetos federais e centralistas.[7]

Historiografia uruguaia

Na historiografia uruguaia, a guerra foi tradicionalmente associada ao processo de independência nacional e à atuação dos Trinta e Três Orientais como momento fundador da nacionalidade. Essa leitura conferiu centralidade à mobilização local e à resistência ao domínio brasileiro.[13]

Abordagens mais recentes têm destacado o papel da mediação internacional e a inserção da independência uruguaia no jogo de forças regional, relativizando interpretações estritamente nacionalistas e enfatizando o caráter negociado da formação do Estado.[6][12]

Abordagens regionais e transnacionais

A historiografia contemporânea tem privilegiado interpretações que situam a guerra no processo de formação de um sistema de Estados na América do Sul, marcado por fronteiras fluidas, identidades políticas múltiplas e intensa circulação de homens, recursos e projetos políticos no espaço platino.[6]

Nessa perspectiva, o conflito deixa de ser compreendido como uma guerra exclusivamente bilateral para ser analisado como parte das transformações decorrentes da crise dos impérios ibéricos e da construção das novas unidades políticas sul-americanas.[7]

Memória e representações

A Guerra da Cisplatina desempenhou papel relevante na construção das memórias nacionais no Brasil, na Argentina e no Uruguai, sendo reinterpretada de acordo com os projetos políticos e identitários de cada país ao longo do século XIX e início do XX.[6]

No Uruguai, o conflito foi integrado à narrativa fundadora do Estado, com destaque para a atuação dos Trinta e Três Orientais e para a ideia de uma luta pela autodeterminação. A pintura histórica teve papel central nesse processo, especialmente a obra O Juramento dos Trinta e Três Orientais (1877), de Juan Manuel Blanes, que transformou o episódio em símbolo visual da nacionalidade uruguaia. A composição enfatiza a unidade dos insurgentes e o caráter heroico do movimento, contribuindo para a consolidação de uma memória patriótica do conflito.[13]

Na historiografia e na cultura histórica brasileiras, a guerra foi durante longo tempo associada ao desgaste político do governo de Pedro I do Brasil e à perda da Província Cisplatina, sendo frequentemente interpretada como um episódio de custos elevados e resultados limitados. Essa leitura contribuiu para a sua menor presença na memória pública em comparação com outros conflitos do período imperial, como a Guerra do Paraguai.[10]

Na Argentina, o conflito foi integrado à narrativa das lutas contra o Império do Brasil e à defesa do espaço político herdado do antigo vice-reino do Rio da Prata. Contudo, a criação de um Estado independente na Banda Oriental foi frequentemente percebida como um desfecho imposto pela mediação internacional, o que contribuiu para uma memória mais ambígua do episódio.[7]

A memória da guerra também se expressa em monumentos, comemorações cívicas e na toponímia urbana, especialmente no Uruguai, onde batalhas e personagens do conflito foram incorporados ao espaço público como marcos da formação nacional.[13]

As abordagens historiográficas recentes têm analisado essas representações como parte dos processos de construção das identidades nacionais e da cultura política na região platina, evidenciando o caráter seletivo e mutável das memórias sobre o conflito.[6]

Ver também

Notas

  1. O chamado Congresso Cisplatino, reunido em Montevidéu em julho de 1821 sob a autoridade do general Carlos Frederico Lecor, foi composto majoritariamente por representantes das elites locais favoráveis à incorporação ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Realizado em contexto de ocupação militar, o seu caráter representativo é objeto de debate na historiografia.

Referências

  1. Nahum, Benjamín (1994). Manual de Historia del Uruguay 1830–1903. Montevideo. Editorial De la Banda Oriental.
  2. Méndez Vives, Enrique (1990). Historia Uruguaya. Montevideo. Editorial De la Banda Oriental.
  3. CARNEIRO, David. História da Guerra Cisplatina. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1946. Pg 38, 59, 70, 112 and 114.
  4. Doratioto (2002)
  5. Castellanos, La Cisplatina, la Independencia y la república caudillesca, pág. 73–77.
  6. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 Bethell 1985.
  7. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 Halperín Donghi 2005.
  8. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Scheina 2003.
  9. 1 2 3 4 Ferreira 2012.
  10. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Doratioto 2002.
  11. 1 2 3 4 5 6 7 8 Vale 2000.
  12. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Moniz Bandeira 2012.
  13. 1 2 3 Ribeiro 2009.

Bibliografia

  • Carneiro, David (1946). História da Guerra Cisplatina. São Paulo: Companhia Editora Nacional 
  • Vale, Brian (2000). A War Betwixt Englishmen: Brazil Against Argentina on the River Plate, 1825–1830. Londres: I. B. Tauris 
  • Scheina, Robert L. (2003). Latin America's Wars: The Age of the Caudillo, 1791–1899. Washington: Brassey's 
  • Duarte, Paulo de Queirós (1985). Lecor e a Cisplatina: 1816–1828. 2. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército 
  • Donato, Hernâni (1987). Dicionário das batalhas brasileiras. São Paulo: Ibrasa 
  • Lustosa, Isabel (2007). D. Pedro I. São Paulo: Companhia das Letras 
  • Vainfas, Ronaldo (2002). Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva 

Leituras complementares

  • Lemos, Juvêncio Saldanha (2015). A saga no Prata. 2. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército 
  • Autor anônimo (1975). Contribuição para a História da Guerra entre o Brasil e Buenos Aires. São Paulo: EDUSP / Itatiaia 
  • Meirelles da Silva, Theotonio (1884). História Naval Brasileira. [S.l.: s.n.] 

Ligações externas