Guerra da Cisplatina
| Guerra da Cisplatina | |||
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| Questão do Prata | |||
![]() Em sentido horário:
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| Data | 10 de dezembro de 1825 – 28 de agosto de 1828 | ||
| Local | Sul do Brasil, Uruguai e foz do Rio da Prata. | ||
| Desfecho | Independência do Uruguai e criação de um Estado-tampão na Banda Oriental
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| Mudanças territoriais | Independência do Uruguai | ||
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A Guerra da Cisplatina (1825–1828), denominada na historiografia argentina e uruguaia como Guerra do Brasil ou Guerra argentino-brasileira, foi um conflito armado entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata, com a participação de forças políticas e militares da Banda Oriental, pela posse da Província Cisplatina, território correspondente em grande parte ao atual Uruguai. Inseriu-se no contexto das disputas pela reorganização do espaço platino após a crise dos impérios ibéricos e pela definição do equilíbrio de poder na bacia do rio da Prata nas primeiras décadas do século XIX.
A guerra teve origem na incorporação da Cisplatina ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1821, mantida após a Independência do Brasil, e na insurreição de 1825 liderada pelos Trinta e Três Orientais, que proclamaram a separação da província e a sua união às Províncias Unidas. O conflito desenvolveu-se em campanhas terrestres na Banda Oriental e no sul do Brasil e em operações navais no Atlântico Sul e no estuário platino, sendo marcado por um impasse estratégico: enquanto o Império manteve o controlo das principais cidades e a supremacia marítima, as forças orientais e rio-platenses dominaram amplas áreas rurais e obtiveram vitórias em batalhas campais.
O bloqueio naval brasileiro comprometeu as receitas aduaneiras de Buenos Aires, ao passo que os custos financeiros e a impopularidade da guerra agravaram a crise política do Primeiro Reinado. A mediação diplomática do Reino Unido, interessada na manutenção da liberdade de comércio e do equilíbrio regional, conduziu à assinatura da Convenção Preliminar de Paz em 1828, que estabeleceu a independência da região como o Estado Oriental do Uruguai.
A guerra integrou o ciclo das chamadas questões platinas e desempenhou papel decisivo na formação do sistema de Estados do sul da América do Sul, ao fixar fronteiras, redefinir o equilíbrio geopolítico regional e inserir o espaço platino na ordem internacional do século XIX sob forte influência britânica. Teve também impactos duradouros na política interna do Império do Brasil, contribuindo para o desgaste do governo de Pedro I, e na dinâmica de fragmentação das Províncias Unidas.
Antecedentes
A formação da Província Cisplatina

A região da Banda Oriental constituiu, desde o período colonial, uma zona de fronteira entre os impérios ibéricos, cuja importância derivava da sua posição estratégica na entrada do estuário do rio da Prata, ponto de articulação entre o comércio atlântico e as rotas fluviais que conduziam ao interior sul-americano. A fundação da Colônia do Sacramento pelos portugueses, em 1680, inseriu-se nesse contexto de disputa geopolítica com a monarquia espanhola pelo controlo das redes comerciais platinas.[6][7]
A crise da monarquia espanhola no início do século XIX e os processos de independência na América alteraram profundamente o equilíbrio político regional. Na Banda Oriental, a liderança de José Gervasio Artigas articulou um projeto autonomista vinculado às Províncias Unidas do Rio da Prata, apoiado sobretudo por setores rurais e por formas de mobilização política e militar características do espaço platino.[7][8]
A intervenção militar luso-brasileira iniciada em 1816, conduzida pela Divisão de Voluntários Reais sob o comando de Carlos Frederico Lecor, resultou na ocupação de Montevidéu em 1817 e na derrota das forças artiguistas na Batalha de Tacuarembó em 1820, assegurando o domínio português sobre o território.[9][6]
Em 1821, um congresso reunido em Montevidéu aprovou a incorporação da região ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves com a denominação de Província Cisplatina.[nota 1] A anexação foi apresentada pela Coroa como medida destinada a garantir a segurança das fronteiras meridionais do Brasil e a estabilidade política no espaço platino, sendo mantida após a Independência do Brasil em 1822.[9][6]
A crise política na Banda Oriental
A integração da Cisplatina ao Império do Brasil realizou-se sob forte presença militar e apoiou-se na cooptação de setores das elites urbanas e rurais, que passaram a participar das instituições do novo Estado, enviando representantes às Cortes de Lisboa e, posteriormente, à Assembleia Constituinte de 1823.[9]
Apesar dessa inserção institucional, a incorporação não eliminou as tensões políticas locais. Parte significativa das lideranças orientais e da população rural manteve vínculos econômicos e políticos com as Províncias Unidas e opôs-se ao domínio brasileiro, em um contexto marcado pela circulação de forças armadas, pela autonomia das milícias regionais e por identidades políticas ainda em formação.[7][6]
Em 1825, o movimento dos Trinta e Três Orientais, liderado por Juan Antonio Lavalleja, desembarcou na praia da Agraciada e proclamou a separação da província do Império do Brasil e a sua união às Províncias Unidas do Rio da Prata. O apoio político, financeiro e militar de Buenos Aires ao levante transformou a crise provincial em um conflito internacional, levando o
Causas da guerra
A Guerra da Cisplatina resultou da convergência de fatores geopolíticos, econômicos e políticos que marcaram a reorganização do espaço platino após a crise das monarquias ibéricas. O conflito esteve relacionado simultaneamente às disputas pela definição de fronteiras entre os novos Estados sul-americanos, às dinâmicas internas da Banda Oriental e à inserção da região no sistema atlântico de comércio.[6][7][10]
A questão estratégica do rio da Prata
O estuário do rio da Prata constituía um dos principais eixos de circulação econômica do continente, articulando o comércio atlântico às bacias hidrográficas dos rios Paraná e Paraguai e às regiões produtoras do interior. O controlo da Banda Oriental permitia influenciar a navegação fluvial e o acesso a essas rotas, fator que conferia à Cisplatina grande importância estratégica tanto para o Império do Brasil quanto para as Províncias Unidas do Rio da Prata.[6][7]
Para o governo do Rio de Janeiro, a manutenção da província era considerada fundamental para a defesa da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e para a afirmação do Brasil como potência regional no Atlântico Sul. Para Buenos Aires, por sua vez, a reincorporação da Banda Oriental era vista como condição para a continuidade da unidade econômica e política herdada do antigo vice-reino e para o controlo das rotas comerciais do interior.[10][8]
O conflito entre projetos de organização regional
A guerra expressou também a oposição entre distintos projetos de organização política do espaço platino. O Império do Brasil procurava consolidar a Cisplatina como província integrada ao seu sistema monárquico e centralizado, enquanto setores dirigentes das Províncias Unidas defendiam a sua reintegração ao antigo território do Vice-Reino do Rio da Prata.[7][6]
Na própria Banda Oriental coexistiam posições divergentes. Parte das elites urbanas e dos grandes proprietários rurais colaborou com a administração brasileira, beneficiando-se da estabilidade proporcionada pela presença militar e da integração aos circuitos econômicos do sul do Brasil. Outros grupos, vinculados às tradições políticas do período artiguista e às redes comerciais de Buenos Aires, sustentaram o movimento insurgente de 1825.[9][7]
As tensões internas no Império do Brasil
O conflito ocorreu em um momento de consolidação do Estado imperial brasileiro. A manutenção da Cisplatina implicava elevados custos militares e financeiros, exigindo recrutamento forçado, ampliação da carga fiscal e mobilização de recursos em escala nacional.[10][8]
A guerra tornou-se progressivamente impopular entre os setores políticos que não identificavam vantagens econômicas diretas na região platina. A oposição liberal utilizou o conflito como instrumento de crítica ao governo de Pedro I, associando-o ao centralismo monárquico e ao agravamento da crise financeira do Império.[6][10]
Interesses britânicos e equilíbrio regional
A presença britânica no Atlântico Sul introduziu um elemento adicional na crise. O Reino Unido tinha interesse na manutenção da liberdade de comércio e na preservação de um equilíbrio de poder que impedisse o controlo exclusivo do estuário do Prata por qualquer das potências regionais.[6][11]
Nesse contexto, a guerra adquiriu dimensão internacional, pois a sua resolução dependia não apenas do resultado militar, mas também da mediação diplomática das potências atlânticas, cuja atuação favoreceu a constituição de um Estado independente na Banda Oriental como solução para o impasse.[6]
Forças em confronto
As forças mobilizadas durante a Guerra da Cisplatina refletiam as limitações estruturais dos Estados envolvidos, que ainda se encontravam em processo de consolidação política e militar. Tanto o Império do Brasil quanto as Províncias Unidas do Rio da Prata enfrentaram dificuldades para organizar exércitos permanentes, financiar a guerra e estabelecer mecanismos eficientes de recrutamento e comando.[10][8]
Império do Brasil
O Império possuía população e recursos potenciais superiores aos de seus adversários, mas essa vantagem demográfica não se converteu automaticamente em capacidade militar efetiva. A distância entre as províncias centrais e o teatro de operações, a resistência ao recrutamento e os conflitos políticos internos limitaram a mobilização de tropas.[10][6]
O núcleo profissional do Exército Brasileiro era formado por unidades herdadas do período joanino, às quais se somaram contingentes recrutados nas províncias — frequentemente por meio de recrutamento forçado — e tropas locais estacionadas na própria Cisplatina. A insuficiência de efetivos levou à contratação de mercenários europeus, sobretudo alemães e irlandeses, integrados em corpos específicos do exército imperial.[8][11]
A Marinha do Brasil constituiu o principal instrumento militar do Império ao longo do conflito. Organizada durante o processo de independência e dotada de superioridade material e experiência operacional, foi capaz de impor o bloqueio do estuário do Prata, comprometendo o comércio das Províncias Unidas e condicionando o equilíbrio estratégico da guerra.[11][10]

Províncias Unidas do Rio da Prata e forças orientais
As Províncias Unidas apresentavam menor capacidade demográfica e financeira e eram marcadas por forte fragmentação política. O esforço militar concentrou-se sobretudo em Buenos Aires, enquanto diversas províncias do interior participaram de forma limitada do conflito.[7][8]
O exército republicano foi organizado a partir de contingentes provinciais e das forças orientais lideradas por Juan Antonio Lavalleja e Fructuoso Rivera. A mobilização apoiou-se amplamente na cavalaria irregular formada por gaúchos, cuja experiência nas guerras regionais favorecia operações rápidas, controle do espaço rural e táticas de desgaste contra as tropas imperiais.[7][6]
No plano naval, a esquadra de Buenos Aires era inferior à brasileira em número de navios e poder de fogo. Ainda assim, a utilização de corsários, embarcações leves e oficiais estrangeiros permitiu realizar ações de perturbação do bloqueio e assegurar a continuidade parcial das trocas comerciais.[11]
Limitações estruturais
Em ambos os lados, a guerra evidenciou a ausência de estruturas militares plenamente nacionalizadas. A dependência de recrutamento forçado, de contingentes regionais e de oficiais estrangeiros revela o caráter ainda incompleto dos aparelhos estatais e a persistência de formas de mobilização herdadas do período colonial e das guerras de independência.[10][8]
Essas limitações contribuíram para o prolongamento do conflito e para a dificuldade de obtenção de uma vitória decisiva em terra, contrastando com a maior definição do cenário naval, onde a superioridade brasileira se manteve ao longo da guerra.[11]
Campanhas militares
As operações militares da Guerra da Cisplatina desenvolveram-se em dois eixos principais — terrestre e naval — e foram marcadas por um prolongado impasse estratégico. Enquanto o Império do Brasil manteve o controlo das principais cidades da província e a supremacia marítima, as forças republicanas obtiveram êxitos em batalhas campais e dominaram amplas áreas rurais.[10][8]
A campanha terrestre
A guerra em terra caracterizou-se pela elevada mobilidade das forças orientais e rio-platenses, que privilegiavam ações rápidas e táticas de desgaste, contrastando com a estratégia imperial baseada na ocupação de centros urbanos e na condução de operações convencionais.[7]

Em 1826, um exército das Províncias Unidas do Rio da Prata, sob o comando de Carlos María de Alvear, atravessou o rio da Prata e estabeleceu-se no interior da província, iniciando uma ofensiva contra as forças imperiais. O confronto decisivo ocorreu na Batalha do Passo do Rosário (Ituzaingó), na qual o exército brasileiro foi derrotado. A vitória republicana, entretanto, não pôde ser explorada estrategicamente em virtude das limitações logísticas e da incapacidade de ocupar as principais posições imperiais.[10][8]
Outro confronto relevante foi a Batalha de Sarandi, que consolidou o controlo das forças orientais sobre o espaço rural e reforçou a capacidade de mobilização local contra a presença imperial.[7]
Apesar desses êxitos, as Províncias Unidas não conseguiram conquistar Montevidéu nem Colônia do Sacramento, que permaneceram sob domínio brasileiro durante todo o conflito. A manutenção dessas posições garantiu ao Império pontos de apoio logístico e político fundamentais para a continuidade da guerra.[10]
Por sua vez, as tropas imperiais enfrentaram dificuldades para impor uma derrota decisiva ao inimigo, em razão da extensão do território, da escassez de efetivos e da predominância de formas de combate irregulares no interior da província.[8]
A guerra naval e o bloqueio do Prata
No plano marítimo, a guerra assumiu características distintas. A Marinha do Brasil estabeleceu o bloqueio do estuário do rio da Prata e do porto de Buenos Aires, comprometendo o comércio exterior das Províncias Unidas e reduzindo a sua capacidade de financiamento do esforço militar.[11][10]
Embora a esquadra republicana, comandada por Guillermo Brown, tenha obtido êxitos em ações pontuais e demonstrado grande capacidade operacional, a inferioridade material limitou a sua capacidade de romper o bloqueio de forma permanente.[11]
A batalha naval decisiva foi a Batalha de Monte Santiago (1827), que consolidou a supremacia marítima brasileira e assegurou o controlo das linhas de comunicação no Atlântico Sul.[11]
O bloqueio naval teve efeitos económicos significativos, provocando escassez de recursos nas Províncias Unidas, afetando as receitas aduaneiras de Buenos Aires e ampliando a pressão interna por uma solução diplomática para o conflito.[7]
O impasse militar
Ao final de 1827, a guerra encontrava-se num impasse. Em terra, nenhuma das partes possuía meios para ocupar de forma duradoura todo o território em disputa. No mar, a superioridade brasileira não era suficiente para impor a rendição do adversário.[10]
Esse equilíbrio precário elevou os custos financeiros e políticos da guerra para ambos os lados e criou condições para a intensificação da mediação diplomática britânica, que conduziria à assinatura da Convenção Preliminar de Paz em 1828.[6]
Diplomacia e mediação internacional
O prolongamento da guerra e o impasse militar favoreceram a intensificação da intervenção diplomática das potências europeias, em especial do Reino Unido, cujos interesses comerciais na região do rio da Prata eram diretamente afetados pelo bloqueio naval e pela instabilidade política.[6][12]
A política britânica para a América do Sul, no período posterior às independências, baseava-se na defesa da liberdade de comércio e na preservação de um equilíbrio de poder entre os novos Estados. Nesse contexto, a possibilidade de controlo exclusivo do estuário do Prata por parte do Império do Brasil ou das Províncias Unidas do Rio da Prata era considerada incompatível com a manutenção de um espaço económico aberto à navegação e ao comércio internacional.[6][7]
A mediação foi conduzida pelo representante britânico John Ponsonby, que atuou junto aos governos do Rio de Janeiro e de Buenos Aires na construção de uma solução negociada. A proposta central consistia na criação de uma entidade política independente na Banda Oriental, concebida como um Estado tampão entre as duas potências regionais e integrada ao sistema atlântico de comércio.[6][12]
A continuidade da guerra agravava a crise financeira do Império do Brasil, dependente de empréstimos externos e pressionado pelos custos militares, ao mesmo tempo que o bloqueio naval comprometia as receitas aduaneiras de Buenos Aires, base do financiamento das Províncias Unidas do Rio da Prata. Essas circunstâncias aumentaram a disposição de ambos os lados para aceitar a arbitragem internacional.[10][7]
As negociações resultaram na assinatura da Convenção Preliminar de Paz, em 28 de agosto de 1828, pela qual o Brasil e as Províncias Unidas reconheceram a independência da região, que passou a constituir o Estado Oriental do Uruguai.[6]
A solução diplomática refletiu não apenas o equilíbrio militar no teatro de operações, mas também a inserção do espaço platino na ordem internacional do século XIX, marcada pela preponderância económica e pela influência política britânica no Atlântico Sul.[12]

Consequências
A guerra produziu efeitos duradouros para os três espaços diretamente envolvidos — o Império do Brasil, as Províncias Unidas do Rio da Prata e o recém-criado Estado Oriental do Uruguai — e contribuiu para a redefinição do equilíbrio político na bacia do rio da Prata.[6][7]
Para o Império do Brasil
A perda da Província Cisplatina representou um revés político e simbólico para o Império, ao demonstrar os limites da sua capacidade de projeção militar no espaço platino. O conflito agravou a crise financeira do Estado, em razão dos elevados gastos militares e do recurso ao endividamento externo para o financiamento da guerra.[10][12]
A impopularidade do conflito ampliou o desgaste do governo de Pedro I do Brasil, intensificando as tensões entre o imperador e os setores liberais, especialmente na Assembleia Geral. Embora não tenha sido causa direta da abdicação de 1831, a guerra integrou o conjunto de fatores que enfraqueceram a sua posição política e contribuíram para a crise do Primeiro Reinado.[6][10]
Ao mesmo tempo, a manutenção da soberania brasileira sobre os Sete Povos das Missões atenuou parcialmente o impacto territorial da derrota e preservou a posição estratégica do Império na fronteira sul.[12]
Para as Províncias Unidas do Rio da Prata
Para as Províncias Unidas, a criação de um Estado independente na Banda Oriental implicou a renúncia ao projeto de reintegração do território ao antigo espaço do vice-reino do Rio da Prata. Ainda assim, a solução impediu a consolidação do controlo brasileiro sobre o estuário e preservou a autonomia estratégica de Buenos Aires no sistema regional.[7]
A guerra evidenciou as limitações do poder central portenho e as dificuldades de mobilização das províncias do interior para um esforço militar prolongado, reforçando a dinâmica de fragmentação política que marcaria as décadas seguintes da história argentina.[7]
Do ponto de vista económico, o bloqueio naval brasileiro comprometeu as receitas alfandegárias, base do financiamento estatal, contribuindo para a instabilidade fiscal e política do período.[6]
Para o Estado Oriental do Uruguai
A independência do Uruguai resultou da convergência entre a mobilização político-militar local e os interesses internacionais na estabilização da região. O novo Estado surgiu com a sua existência garantida por acordo diplomático, condição que marcou profundamente a sua formação institucional e a sua inserção no sistema regional como zona de equilíbrio entre os dois grandes vizinhos.[6][12]
A fragilidade demográfica, militar e económica inicial favoreceu a permanência de forte influência externa na política uruguaia ao longo do século XIX, tornando o país um espaço recorrente de intervenção e de disputa entre Brasil e Argentina.[7]
Impacto regional
A guerra redefiniu o equilíbrio geopolítico no sul da América do Sul e consolidou a formação de um sistema de Estados na bacia do Prata, no qual o Uruguai passou a desempenhar o papel de Estado-tampão entre o Brasil e as Províncias Unidas.[12]
O conflito também evidenciou os limites do recurso à guerra como instrumento de resolução das disputas regionais e assinalou a crescente importância da mediação diplomática internacional na política sul-americana do século XIX, em especial sob a influência britânica.[6]
Interpretações historiográficas
A Guerra da Cisplatina tem sido objeto de interpretações distintas nas historiografias brasileira, argentina e uruguaia, refletindo os processos de construção das narrativas nacionais e as diferentes leituras sobre a formação do sistema político na bacia do rio da Prata.[6][7]
Historiografia brasileira
Na tradição historiográfica brasileira do século XIX e início do XX, o conflito foi frequentemente interpretado como um episódio da política externa do Primeiro Reinado e como um dos fatores responsáveis pelo desgaste do governo de Pedro I do Brasil. Nessa perspectiva, a guerra aparecia como um empreendimento dispendioso e politicamente malsucedido, associado à crise interna do Império.[10]
Estudos posteriores relativizaram a ideia de derrota absoluta, destacando que o Brasil preservou posições estratégicas no sul e manteve a sua capacidade de projeção regional. A guerra passou a ser analisada como parte de uma política de segurança de fronteiras e de inserção do Império no sistema platino.[12]
Historiografia argentina
Na historiografia argentina, o conflito foi tradicionalmente denominado Guerra contra o Brasil e interpretado como etapa das lutas pela consolidação das Províncias Unidas do Rio da Prata e pela defesa da integridade do antigo vice-reino. Nesse enquadramento, a participação das forças orientais foi frequentemente apresentada como expressão da unidade política do espaço rio-platense.[7]
A produção historiográfica mais recente, contudo, tem enfatizado as limitações do poder central de Buenos Aires e o caráter fragmentado do esforço de guerra, inserindo o conflito no contexto mais amplo das disputas entre projetos federais e centralistas.[7]
Historiografia uruguaia
Na historiografia uruguaia, a guerra foi tradicionalmente associada ao processo de independência nacional e à atuação dos Trinta e Três Orientais como momento fundador da nacionalidade. Essa leitura conferiu centralidade à mobilização local e à resistência ao domínio brasileiro.[13]
Abordagens mais recentes têm destacado o papel da mediação internacional e a inserção da independência uruguaia no jogo de forças regional, relativizando interpretações estritamente nacionalistas e enfatizando o caráter negociado da formação do Estado.[6][12]
Abordagens regionais e transnacionais
A historiografia contemporânea tem privilegiado interpretações que situam a guerra no processo de formação de um sistema de Estados na América do Sul, marcado por fronteiras fluidas, identidades políticas múltiplas e intensa circulação de homens, recursos e projetos políticos no espaço platino.[6]
Nessa perspectiva, o conflito deixa de ser compreendido como uma guerra exclusivamente bilateral para ser analisado como parte das transformações decorrentes da crise dos impérios ibéricos e da construção das novas unidades políticas sul-americanas.[7]
Memória e representações
A Guerra da Cisplatina desempenhou papel relevante na construção das memórias nacionais no Brasil, na Argentina e no Uruguai, sendo reinterpretada de acordo com os projetos políticos e identitários de cada país ao longo do século XIX e início do XX.[6]
No Uruguai, o conflito foi integrado à narrativa fundadora do Estado, com destaque para a atuação dos Trinta e Três Orientais e para a ideia de uma luta pela autodeterminação. A pintura histórica teve papel central nesse processo, especialmente a obra O Juramento dos Trinta e Três Orientais (1877), de Juan Manuel Blanes, que transformou o episódio em símbolo visual da nacionalidade uruguaia. A composição enfatiza a unidade dos insurgentes e o caráter heroico do movimento, contribuindo para a consolidação de uma memória patriótica do conflito.[13]
Na historiografia e na cultura histórica brasileiras, a guerra foi durante longo tempo associada ao desgaste político do governo de Pedro I do Brasil e à perda da Província Cisplatina, sendo frequentemente interpretada como um episódio de custos elevados e resultados limitados. Essa leitura contribuiu para a sua menor presença na memória pública em comparação com outros conflitos do período imperial, como a Guerra do Paraguai.[10]
Na Argentina, o conflito foi integrado à narrativa das lutas contra o Império do Brasil e à defesa do espaço político herdado do antigo vice-reino do Rio da Prata. Contudo, a criação de um Estado independente na Banda Oriental foi frequentemente percebida como um desfecho imposto pela mediação internacional, o que contribuiu para uma memória mais ambígua do episódio.[7]
A memória da guerra também se expressa em monumentos, comemorações cívicas e na toponímia urbana, especialmente no Uruguai, onde batalhas e personagens do conflito foram incorporados ao espaço público como marcos da formação nacional.[13]
As abordagens historiográficas recentes têm analisado essas representações como parte dos processos de construção das identidades nacionais e da cultura política na região platina, evidenciando o caráter seletivo e mutável das memórias sobre o conflito.[6]
Ver também
- Cisplatina (província)
- Guerra contra Artigas
- Batalha do Passo do Rosário
- Batalha de Sarandi
- Batalha de Monte Santiago
- Questão do Prata
- História militar do Brasil
- História da Argentina
- História do Uruguai
Notas
- ↑ O chamado Congresso Cisplatino, reunido em Montevidéu em julho de 1821 sob a autoridade do general Carlos Frederico Lecor, foi composto majoritariamente por representantes das elites locais favoráveis à incorporação ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Realizado em contexto de ocupação militar, o seu caráter representativo é objeto de debate na historiografia.
Referências
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Bibliografia
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Leituras complementares
- Lemos, Juvêncio Saldanha (2015). A saga no Prata. 2. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército
- Autor anônimo (1975). Contribuição para a História da Guerra entre o Brasil e Buenos Aires. São Paulo: EDUSP / Itatiaia
- Meirelles da Silva, Theotonio (1884). História Naval Brasileira. [S.l.: s.n.]

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