Eneias

 Nota: Para o médico e político brasileiro, veja Enéas Carneiro.
Eneias
Eneias foge de Troia em chamas, Federico Barocci, 1598, Galleria Borghese, Roma
Genealogia
PaisAfrodite e Anquises

Eneias ou Enéas (do latim Æneas, por sua vez do grego antigo Αἰνείας) é um personagem da mitologia greco-romana que aparece na Ilíada, de Homero, mas sua importância épica principal vem da Eneida, de Virgílio.

Segundo a lenda, Eneias foi o mais famoso dos chefes troianos, filho da deusa Afrodite (a romana Vénus) e de Anquises, filho de Cápis, filho de Assáraco, rei da Dardânia.[1] Era casado com Creúsa,[2] filha do rei Príamo e de Hécuba.[3] Tinha um filho, Iulo (na literatura romana Ascânio).

Eneias na tradição grega

Eneias carregando Anquisesc. 520 a.C. - 510 a.C., Museu do Louvre

Na Guerra de Troia, Eneias se converteu no mais valoroso guerreiro troiano, depois de Heitor. Favorecido pelos deuses, em várias ocasiões foi por eles salvo, durante os combates. Quando foi ferido por Diomedes, foi sua mãe, Afrodite, quem o salvou. E quando enfrentou Aquiles no campo de batalha, foi Poseidon quem o livrou de ser morto pelo herói grego.

Com a queda de Troia, sua mãe o aconselhou a deixar a cidade, levando sua família, pois lhe estaria reservado o destino de fazer reviver a glória troiana em outras terras.

Eneias na tradição latina

Eneias fala a Dido sobre a queda de Troia, por Pierre-Narcisse Guérin, Museu do Louvre

Sob a proteção de Afrodite, Eneias deixa Troia (incendiada pelos gregos), levando sua esposa Creusa, o filho Ascânio, seu velho pai Anquises (que ele carrega às costas) e um punhado de soldados troianos. Leva ainda os Penates troianos, divindades que protegiam o Estado, os governos e as instituições que regem um e o outro para assim fundar uma nova cidade. Na estrada, sua esposa desaparece sem deixar vestígios e ele embarca em um navio, no qual vagueia pelo mar Mediterrâneo, em busca de uma nova pátria.

O troiano pede então conselho a Apolo, que o manda ir para a terra de onde era originário o seu primeiro antepassado. Anquises, douto nessa matéria, afirmava que em dias muito remotos, antes do rei Tros fundar a cidade de Troia, vivia na Frígia um rei chamado Teucro, cuja filha, Bátia, se casara com Dardano, pai de Trós. Acreditavam que Teucro viera da ilha de Creta.

Eneias ferido por una flecha, curado pelo médico Iapige, com o filho Ascânio e assistido por Vénus pintura em parede, século I a.C., Pompeia, atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles

Puseram-se então a caminho. Ao terceiro dia aportaram em Creta, onde começaram imediatamente a construir uma cidade a que Eneias chamou Pérgamo. Lavraram a terra e semearam-na, e parecia que tudo correria bem, mas, inesperadamente, todo o seu trabalho foi destruído. Uma terrível seca arruinou as colheitas e desencadeou uma epidemia que se alastrou entre os troianos. Anquises interpretou isto como um sinal evidente da desaprovação divina, e aconselhou Eneias a voltar ao templo de Apolo, na Ilha de Delos, para receber novas instruções do oráculo. Na véspera da partida, os numes tutelares apareceram a Eneias e disseram-lhe que ele deveria ir para o local de origem de Dárdano, antes chamado Hespéria, agora Itália. Contando isto ao pai, Anquises lembrou-se que Cassandra profetizara que uma nova Troia erguer-se-ía na Hespéria. Mas, claro, todos acharam que ela estava louca. Puseram-se de novo a caminho.

Os Troianos encontraram-se com as Harpias, mas, ao contrário dos Argonautas, fugiram delas. Chegaram a Epiro, terras onde se tinham estabelecido Heleno e Andrómaca. Heleno disse-lhe o que ia acontecer e o que ele deveria fazer.

A seguir estiveram na ilha do ciclope Polifemo, e salvaram um homem, Aqueménides, que fora deixado para trás por Ulisses. Anquises, já velho, morreu antes de deixarem a Sicília.

Depois de muito tempo aporta em Cartago e, por artimanhas de Vénus e Cupido, torna-se amante de Dido, rainha e fundadora da cidade africana. Primeiro tinha sido Hera quem queria isto, para Eneias ficar com Dido e não chegar à Itália, mas Afrodite viu que o amor da rainha podia ser proveitoso para Eneias.

Porém não era ainda esse o seu destino final. Hermes, enviado por Zeus, pergunta-lhe por que estava ele construindo uma cidade que não seria do seu filho, para a sua descendência. Eneias fugira de Troia para não se submeter aos gregos e estava agora a submeter-se a Dido e seus conterrâneos!

Adverte-o, então, para que deixe Cartago e funde uma cidade e um reino para os seus. Ao deixar a cidade, mesmo a contragosto, vê Dido, extremamente apaixonada, suicidar-se numa pira funerária que tinha mandado fazer na sua fortaleza. E por último sua fuga após a guerra de Troia.

Origens de Roma

Eneias na corte de Latinoóleo em tela de Ferdinando Bol, 1661-1663 ca, Rijksmuseum, Amsterdam

Após esse episódio, Eneias aportou na Itália. Em Cumas, foi ao Submundo, onde se encontrou com o pai, que lhe falou das gerações futuras. Também viu Dido, mas esta se recusou a falar com ele.

Depois foi para o Lácio. Latino, rei do Lácio e neto de Saturno, ofereceu-lhe terras e a mão de sua bela filha Lavínia, há muito prometida a Turno, rei dos rútulos, em casamento. Tal facto deveu-se a uma profecia que dizia que Lavínia devia casar-se com um estrangeiro, para assim dar origem a uma raça poderosíssima que governaria o mundo. Lavínia e Eneias se apaixonaram, mas a rainha Amata, mãe de Lavínia, queria que a filha casasse com Turno.

Turno, vendo que perderia o reino do Lácio e Lavínia, declarou guerra a Eneias e seus troianos recém-chegados ao Lácio. Outras nações se juntaram aos contendores, de um lado e de outro. A guerra foi tão acesa que Latino, com medo que seu país se arruinasse e fosse destruído, sugeriu um combate singular entre Eneias e Turno, sendo Lavínia o prémio. Ambos aceitaram, e Eneias venceu a Turno. Podendo escolher entre matar ou poupar o adversário, mais jovem, Eneias decidiu, após longa hesitação, matá-lo. Pois, na hesitação, viu no ombro do adversário despojos do seu tão dileto Palante. Imolou Turno em nome do amigo. Amata, mãe de Lavínia, preferiu suicidar-se a ver Eneias no trono.

Eneias derrota Turnopor Luca Giordano,Galeria Corsini, Florença

Diz-se que Eneias abdicou ao trono a favor do filho e voltou para a pátria, para reconstruir Troia. Após a morte de Eneias, seu filho Iulo, ou Ascânio (conforme a versão), fundou Alba Longa, da qual seus descendentes serão reis sucessivos. Em 753 a.C., é fundada Roma, a segunda Troia, pelos gêmeos Rómulo e Remo, descendentes maternos de Eneias, mas filhos diretos do deus Marte.

Esta versão da fundação de Roma, ou melhor, da ascendência de Rómulo remontar a Eneias, é tida por pesquisadores modernos como mera recordação de contactos entre o mundo egeu e a Itália. Tal versão foi tomando forma a partir do século III a.C. Apareceu em Q. Fábio Pictor (200 a.C.) a primeira versão, sendo a definitiva dada por Virgílio na sua obra Eneida, Ovídio e Tito Lívio.

Origem e primeiros anos

Pintura «Vénus e Anquises» de Benjamin Robert Haydon, 1826

Eneias era descendente de Dárdano, o fundador do povo dos dárdanos no noroeste da Ásia Menor. O neto de Dárdano, Tros, teve três filhos: Ilo, Assáraco e Ganimedes. O neto de Assáraco, Anquises, foi visto e amado pela deusa do amor Vénus. Apresentando-se como filha do rei frígio Otreu, ela seduziu Anquises no cume do monte Ida,[4] onde este tocava cítara, após o que lhe revelou a verdade sobre a sua origem divina[5].

No IV Hino Homérico, Afrodite afirma que deu ao menino o nome de Eneias (em grego clássico: Αἰνείας — «terrível»), pois reconhecia o horror do seu ato imprudente — engravidar de um mortal.[6] Esta versão da etimologia do nome de Eneias foi a que obteve maior difusão.[7] De acordo com o mesmo hino homérico, após o nascimento, Eneias foi amamentado e criado por ninfas das montanhas. Aos cinco anos de idade, foi entregue ao pai, que passou a viver com ele em Troia.[8]

Segundo o antigo poema grego «Ciprias», Eneias participou na expedição dos troianos a Esparta, durante a qual Páris raptou Helena.[9]

Guerra de Troia

Federico Barocci. A Fuga de Eneias de Troia

Sendo parente do rei troiano Príamo e do seu filho Heitor, Eneias participou na Guerra de Troia contra as forças unidas dos gregos lideradas por Agamémnon. Segundo o Pseudo-Apolodoro, Eneias chegou em auxílio dos troianos apenas no décimo ano da guerra.[10] Durante os combates, os deuses salvaram Eneias da morte iminente por duas vezes. A primeira vez, Afrodite e Apolo protegeram-no de Diomedes.[11] Na segunda vez, Posídon salvou Eneias da fúria de Aquiles, retirando-o do campo de batalha.[12][13]

Quando os gregos, utilizando o estratagema do cavalo, capturaram Troia, Eneias conseguiu abandonar a cidade. Tornou-se o líder dos troianos sobreviventes e conduziu-os em busca de um novo lar. As fontes antigas descrevem a salvação de Eneias de formas diferentes. Segundo Virgílio, no pânico geral, Eneias conseguiu carregar aos ombros para fora da cidade o seu idoso pai Anquises, bem como o seu filho Iulo. A sua esposa Creusa ficou para trás e pereceu na Troia em chamas.[14] Diodoro Sículo e Cláudio Eliano relatam outro mito sobre a salvação: Eneias e uma parte dos troianos ocuparam uma zona da cidade e defenderam-se com sucesso dos gregos. Os helenos propuseram aos sitiados que abandonassem a cidade, levando consigo tudo o que pudessem carregar. Enquanto os outros guerreiros levavam joias, Eneias carregou o seu pai idoso. Impressionados com a nobreza deste ato, os gregos permitiram-lhe voltar uma segunda vez e levar o que considerasse necessário. Ele regressou e levou as relíquias sagradas paternas, o que suscitou ainda maior respeito[15][16][17][18].

As Errâncias de Eneias

«Eneida» de Virgílio

Jean-Joseph Taillasson [Jean-Joseph Taillasson]. Virgílio lê a «Eneida» a Augusto e Octávia. 1787
Mapa das errâncias de Eneias segundo a «Eneida» de Virgílio

A descrição das errâncias de Eneias é feita por muitos escritores antigos. A obra mais famosa, a «Eneida» de Virgílio, reflete a política ideológica oficial do período do reinado de Augusto.[19][20] Enquanto epopeia romana, a «Eneida» apontava para a origem de Roma predestinada pelos deuses e glorificava um dos seus descendentes através do pai adotivo «divino» Júlio César, Octáviano Augusto.[21]

Após sair de Troia, Eneias reuniu outros sobreviventes e construiu vinte navios. Inicialmente, aportou na Trácia, esperando encontrar refúgio junto do rei local Polimnestor. Este era genro do último rei troiano, Príamo. Para ele, os troianos tinham enviado o príncipe Polidoro com ouro. Quando o rei trácio soube da queda de Troia, ordenou a morte de Polidoro e ficou com o ouro. Ao saber da traição de Polidoro, Eneias abandonou a Trácia e seguiu caminho[22].

Ao chegar à ilha sagrada de Delos, Eneias recebeu de Apolo a profecia para navegar para Itália, que ele interpretou erroneamente como sendo para Creta. Eneias e os troianos sobreviventes tentaram inclusive fundar um povoado em Creta, mas, percebendo o erro, partiram novamente. Contornando o Peloponeso, os troianos invernaram em Zacinto. Com a chegada da primavera, os navios liderados por Eneias seguiram viagem. Passando pela ilha de Lêucade, aproximaram-se do cabo Áccio e desembarcaram em Ambrácia[23].

Lá, Eneias e parte dos guerreiros dirigiram-se a Dodona, onde se situava o oráculo de Júpiter. Lá, inesperadamente, encontraram Heleno e Andrómaca. Os antigos troianos contaram que, após a tomada de Troia, foram escravizados pelo filho de Aquiles, Neoptólemo. Após a morte deste, Heleno tornou-se rei e casou com a viúva de Heitor, Andrómaca. Heleno, que possuía o dom da profecia, avisou Eneias de que, para se estabelecer em Itália e tornar-se ancestral de um grande povo, deveria desembarcar na costa ocidental da Itália, e não na oriental[24].

Fresco romano antigo «Eneias e Dido»

Depois, os navios liderados por Eneias contornaram a Itália pelo sul e chegaram à costa da Sicília. Data desta época a morte de Anquises. Juno, sentindo ódio pelos troianos, pediu ao deus dos ventos Éolo que não permitisse a Eneias chegar a Itália. Ele soltou todos os ventos simultaneamente, provocando uma tempestade. Temendo pelo filho, Vénus recorreu ao deus dos mares Neptuno, que acalmou as águas. Devido à tempestade, Eneias e os sobreviventes foram parar à costa de África, onde a rainha Dido estava a construir a nova cidade de Cartago[25].

Para proteger o filho de possíveis hostilidades dos habitantes locais, Vénus fez com que Dido se apaixonasse por Eneias. Antes disso, a primeira rainha de Cartago fora casada com Acerbas, que foi morto pelo seu irmão e rei de Tiro, Pigmalião. Fugindo de Tiro, Dido jurara nunca mais amar ninguém, para não profanar a memória do primeiro marido. A irmã da rainha, Ana, convenceu Dido a não resistir ao coração, pois Cartago estava cercada de inimigos e a ajuda de um protetor poderoso como Eneias seria muito útil. Durante uma caçada, começou uma trovoada; Dido e Eneias refugiaram-se numa caverna, onde se entregaram ao amor. Depois disso, o troiano tornou-se co-governante da rainha de Cartago[26].

No entanto, este desenrolar dos acontecimentos não estava nos planos dos deuses. Júpiter enviou Mercúrio a Eneias com a ordem de prosseguir viagem. Eneias foi obrigado a obedecer. Dido entrou em fúria e, não suportando a dor do amor traído, suicidou-se. Antes de morrer, amaldiçoou Eneias e toda a sua linhagem. Durante as Guerras Púnicas, esta lenda serviu como uma das justificações para o confronto entre Roma e Cartago[27].

Predefinição:Нп5. Eneias e Anquises no reino dos mortos

Chegando à costa da Campânia, Eneias desembarcou perto de Cumas e encontrou-se com a profetisa local — a Sibila de Cumas. Ela confirmou o consentimento dos deuses para que Eneias fundasse uma nova cidade em Itália. Quando Eneias quis saber mais sobre o destino dos seus descendentes, a Sibila propôs-lhe visitar o submundo. Juntos, desceram ao reino dos mortos, onde encontraram Anquises. Este mostrou ao seu filho as almas dos descendentes ainda não nascidos, até Augusto. Também foi profetizado a Eneias que a cidade seria fundada onde ele visse uma porca branca com trinta leitões, e também onde os troianos comessem as suas próprias mesas[28].

Pouco depois, quando os troianos desembarcaram no reino de Latino, fizeram bolos e colocaram-nos sobre folhas de aipo recém-colhidas. Primeiro comeram os bolos e depois o aipo, cumprindo assim parte da profecia. Simultaneamente, Ascânio viu uma enorme porca branca com uma ninhada de trinta leitões. Eneias, vendo o cumprimento da profecia, enviou embaixadores ao rei Latino[29].

Latino recebeu os troianos de forma muito amigável. Anteriormente, recebera uma previsão de Fauno de que chegaria um estrangeiro que seria seu genro e ancestral de um grande povo. Ao mesmo tempo, a esposa de Latino, Amata, não aprovava o entusiasmo do marido. Juno, procurando por todos os meios impedir o renascimento de Troia num novo local, enviou a deusa da vingança Alecto ao pretendente da filha de Latino, Turno. Simultaneamente, armou a morte do cervo favorito dos itálicos pelas mãos de Ascânio. Quando todos os itálicos se levantaram contra os estrangeiros, Latino não teve outra escolha senão ceder ao ímpeto geral de indignação. O exército dos povos itálicos liderado por Turno avançou contra os recém-chegados troianos[30].

Eneias e Turno. Pintura de Luca Giordano

Eneias começou apressadamente a procurar aliados. Primeiro, recorreu ao idoso Evandro, que colocou à sua disposição um destacamento com o seu filho (ou neto), Palas. Evandro aconselhou também a recorrer ao rei etrusco Tarcão, que era oprimido por Mezêncio, aliado de Turno. Entretanto, as tropas lideradas por Turno atacaram os troianos. Já tinham invadido o seu acampamento quando Eneias chegou com reforços. A batalha tomou um novo rumo. Os deuses criaram um fantasma de Eneias que atraiu Turno para um navio, após o que cortaram a amarra e o navio partiu para o mar. Sem o seu comandante, os itálicos retiraram[31].

Contudo, a guerra não terminou ali. Regressado da viagem, Turno reuniu novamente o exército. No auge de uma nova batalha, Eneias jurou que, em caso de vitória, os troianos se assimilariam com os itálicos num único povo e o nome dos troianos não se conservaria. Com isto, aplacou Juno, que desejava a destruição total de Troia. Durante a batalha, Turno matou Palas, mas acabou por morrer em duelo com Eneias. Palas foi sepultado numa colina batizada em sua honra como Palatino. Com a morte de Turno e, consequentemente, a vitória de Eneias, termina a obra épica de Virgílio[32].

Errâncias de Eneias segundo versões de outras fontes antigas

Desembarque de Eneias no Lácio

Na «História desde a Fundação da Cidade» de Tito Lívio, na descrição do caminho de Eneias para Itália, não há menção à visita a Cartago ou ao conhecimento de Dido. Após desembarcar no Lácio, o rei local dos aborígenes do Lácio, Latino, reuniu um exército para repelir os recém-chegados. Não se chegou a travar batalha, pois ambos os governantes chegaram a acordo e selaram a aliança com o casamento entre a filha de Latino, Lavínia, e Eneias. Em sua honra foi batizada a nova cidade, Lavínio. Pouco depois, os aborígenes do Lácio e os troianos foram atacados pelos rútulos liderados por Turno. Os rútulos perderam a batalha, na qual morreu o rei Latino. Turno aliou-se ao rei etrusco Mezêncio. Perante a ameaça de uma nova guerra, Eneias uniu os troianos e os aborígenes num único povo, os latinos.[33]

A batalha contra o exército unido de rútulos e etruscos foi favorável aos latinos, mas nela morreu Eneias, que foi sepultado junto ao rio Numico. O filho de Eneias, seja de Creusa ou de Lavínia, Ascânio, abandonou Lavínio e fundou uma nova cidade, Alba Longa. Os seus descendentes foram Rómulo e Remo, os fundadores de Roma.[34]

Dionísio de Halicarnasso repete, no essencial, a versão de Virgílio, exceto a visita a Cartago. Complementa a lenda com vários detalhes, incluindo a lista de cidades que Eneias fundou pelo caminho, deixando nelas troianos que, por diversas razões, não podiam prosseguir viagem.[35] À chegada a Itália, Eneias alia-se a Latino, que na altura estava em guerra com os rútulos. Para Latino, os reforços vindos de longe são muito bem-vindos, e ele dá em casamento a Eneias a sua filha Lavínia.[36] Após a morte de Latino, Eneias, como genro deste, torna-se rei do povo unido de aborígenes e troianos — os latinos. Morre durante a guerra, e o reino é herdado por Ascânio,[37] que funda a nova cidade de Alba Longa, para onde transfere os latinos.[38]

A conclusão lógica do mito relativamente à vida de Eneias encontra-se nas «Metamorfoses» de Ovídio. Vénus convenceu o seu pai Júpiter a aceitar o seu filho no panteão. Após a realização do ritual correspondente, Eneias transforma-se numa divindade, que os romanos chamaram de Indiges.[39]

Veneração

Vénus visitando o seu filho Eneias. Miniatura do manuscrito Vergilius Romanus. Século V d.C.

O culto de Eneias era popular em Lavínio, como evidenciam achados arqueológicos[40]. Também era venerado pelos Etruscos. É possível que a base da lenda etrusca (e, mais tarde, romana) sobre a migração de Eneias para Itália seja o facto da migração dos próprios etruscos do Mediterrâneo Oriental, onde habitavam povos aparentados[41]. O culto de Eneias fundiu-se com o culto mais antigo de uma divindade ancestral do povo Indiges[42]. Posteriormente, o conceito de «indiges» dividiu-se e passou a referir-se a vários dos deuses mais venerados do panteão, no qual Eneias estava incluído[43].

O culto de Eneias parece ter sido adotado pelos romanos através dos seus vizinhos etruscos. A lenda da participação de Eneias na fundação de Roma pode ser rastreada até às obras perdidas de Helânico (um contemporâneo de Heródoto).[44] Foi atualizada nos anos da luta da República Romana contra Cartago, pois sublinhava as antigas raízes do confronto entre estas cidades, bem como a origem comum dos romanos com os etruscos por eles conquistados.[44] Até à queda da república, o culto de Eneias existia principalmente entre as famílias patrícias, que se declaravam descendentes de Eneias: os Júlios, Júnios, Cecílios, etc.[44] A nobreza romana considerava-se descendente dos eneados — companheiros de Eneias vindos de Troia[45], ao contrário da plebe, que não possuía tal genealogia. Em contraposição aos patrícios, a plebe considerava que Roma devia tudo, em primeiro lugar, aos seus antepassados — companheiros de Rómulo, que se juntaram ao lendário fundador de Roma[46]. Assim, numa certa fase da história da Roma Antiga, coexistiam simultaneamente cultos plebeus e patrícios, nos quais Eneias gozava de grande veneração entre a aristocracia[40].

Em particular, a família patrícia dos Júlios traçava a sua genealogia até Eneias e à sua mãe Vénus. O seu nome, segundo a tradição, provinha de Ascânio, que adotara o nome de Iulo.[47] Por esta razão, Júlio César considerava Vénus a sua protetora, em honra da qual começou a construir o Templo de Vénus Genetrix em Roma,[48][49] e colocava a sua imagem na maioria das moedas[50][51].

Na época imperial, a salvação por Eneias do seu pai idoso tornou-se um símbolo do cumprimento do dever, ao qual os antigos romanos davam grande importância, tendo inclusive criado o culto da deusa da piedade e do cumprimento do dever, Pietas[52]. Além disso, com a subida ao poder de Augusto, a virtude (pietas, que envolvia devoção, respeito e afeto para com os deuses, o país, os familiares e antepassados — especialmente os pais[53]) tornou-se parte da propaganda estatal oficial. O primeiro imperador procurou fortalecer as posições dos pequenos e médios proprietários de terras que o apoiavam, para quem as relações familiares arcaicas tinham importância não apenas moral, mas também económica. Naquele nível de desenvolvimento social, a forte autoridade do pai de família ou do senhor assegurava a gestão mais eficaz da propriedade. Consequentemente, a virtude da pietas, que contribuía para isso, ganhava grande importância. Estando estreitamente ligada ao «mito romano», a pietas pressupunha a veneração e uma atitude fervorosa perante a religião e os cultos romanos[54]. A propaganda oficial apresenta Eneias como a personificação da pietas, o que se reflete na «Eneida» de Virgílio.[55]

Eneias nas moedas da Roma Antiga

Denário de Júlio César com a imagem de Vénus no anverso e Eneias com Anquises e o paládio no reverso

As primeiras moedas com a imagem de Eneias foram cunhadas no tempo de Júlio César. Nelas, Eneias é representado a carregar Anquises com o sagrado paládio nas mãos[56][57]. Como personificação da piedade e devoção, o grupo de Eneias com Anquises e Ascânio foi colocado nas moedas dos imperadores Galba,[58] Trajano[59] e Antonino Pio[60][61]. Além das moedas imperiais gerais, Eneias também aparece em moedas provinciais de Apameia[62].

Interpretação do mito na Idade Moderna e Contemporânea

Ânfora encontrada na região da Etrúria, datada presumivelmente de 510 a.C., com a imagem de Eneias a carregar o seu pai Anquises para fora de Troia.

A atitude em relação ao mito de Eneias como ancestral lendário do povo romano mudou ao longo dos séculos. Nos séculos XV e XVI, estudiosos e filósofos do período do Renascimento entusiasmados com a Antiguidade aceitavam como verdadeiros quaisquer relatos de escritores antigos. Eneias e os seus companheiros eram, para eles, figuras históricas tão reais quanto os generais e imperadores romanos que de facto existiram[41].

No final do XVII e início do XVIII, a perceção do mito de Eneias alterou-se, passando a ser rejeitado por carecer de base histórica. O filósofo italiano e fundador da filosofia da história e da psicologia étnica, Giambattista Vico, considerava o relato de Eneias uma lenda implausível, motivada pela "vaidade da nação" — o desejo dos antigos romanos de ligar a sua história à épica grega antiga. No entanto, admitia a existência de algum núcleo histórico na lenda de Eneias[41].

Até meados do XX, prevaleceu entre os historiadores a convicção de que a lenda de Eneias surgiu no século III a.C., no contexto da penetração da religião grega nas crenças romanas, visando ligar a sua história à lendária Troia[41][63].

Descobertas arqueológicas em cidades antigas dos Apeninos, como o achado de 58 vasos etruscos com a imagem de Eneias datados de 520—450 a.C,[64] e estelas com dedicatórias a Eneias no local da antiga Lavínio do século VI a.C., forçaram uma revisão desta visão[41].[65] Tais evidências sugerem uma origem etrusca do mito de Eneias, posteriormente reinterpretado pelos romanos com base nas suas próprias crenças. Além disso, estes artefactos reforçaram a teoria da origem dos etruscos a partir de pelágios migrantes do Mediterrâneo Oriental[64][66]:217—224, 234.[67] A popularidade do mito entre os romanos, segundo Elena Shtaerman, estaria ligada aos Penates — figuras dos deuses protetores de todo o povo romano trazidas por Eneias de Troia, guardadas no recinto sagrado do Templo de Vesta[63][68].

Na literatura

Na Divina Comédia de Dante Alighieri, Eneias encontra-se no primeiro círculo do Inferno, habitado por crianças não batizadas e não-cristãos virtuosos.

A figura de Eneias exerceu uma influência profunda na literatura portuguesa, servindo de modelo estrutural para a obra máxima da língua: Os Lusíadas de Luís de Camões.[69] Camões mimetiza a estrutura da Eneida para narrar a viagem de Vasco da Gama, estabelecendo um paralelo entre a fundação de Roma e a expansão do império luso, onde o herói português assume o papel de um "novo Eneias" guiado pela providência.[70]

No contexto da literatura ocidental medieval, o poema francês Roman d'Énéas (séc. XII) adaptou a narrativa clássica aos moldes do amor cortês e da cavalaria. Já no teatro isabelino, Christopher Marlowe explorou a dimensão trágica do herói em Dido, Queen of Carthage.[71]

No final do século XVIII, o enredo da Eneida de Virgílio serviu de base para o poema herói-cómico de Nikolay Osipov, Eneida de Virgílio, Virada do Avesso, e para o poema burlesco Eneida de Ivan Kotlyarevsky. Esta última é considerada a primeira obra escrita em língua ucraniana.[72]

As viagens de Eneias e dos seus companheiros são também o tema central do livro Black Ships, de Joe Graham.

Na astronomia

Em honra de Eneias, foi nomeado o asteroide (1172) Aeneas, descoberto a 17 de outubro de 1930 pelo astrónomo alemão Karl Reinmuth no Observatório de Heidelberg.

Ver também

  • Histórias de Eneias (Carracci)
  • Aíolos

Referências

  1. Diodoro Sículo, Livro IV, 75.5
  2. Pausânias (geógrafo), Descrição da Grécia, 10.26.1
  3. Pseudo-Apolodoro, Biblioteca, 3.12.5
  4. Hesíodo. Teogonia. 1009—1010
  5. Tsirkin 2000, p. 184.
  6. Hinos Homéricos. IV. 192—255
  7. Faulkner Andrew (2008). The Homeric Hymn to Aphrodite: Introduction, Text, and Commentary. Col: Oxford Classical Monographs. Oxford: Oxford University Press. pp. 257. 342 páginas. ISBN 0199238049
  8. Hinos Homéricos. IV. 256—280
  9. Ciprias. Sinopse. Fragmento 1
  10. Pseudo-Apolodoro. Epítome III. 34
  11. Homero. Ilíada. Canto quinto. 311—442
  12. Homero. Ilíada. Canto vigésimo. 260—324
  13. Louden Bruce (6 de abril de 2006). «Aeneas in the Iliad: The One Just Man» (em inglês) 102nd Annual Meeting of the Classical Association of the Middle West and South ed. Gainesville, Florida. Cópia arquivada em 24 de fevereiro de 2021
  14. Virgílio. Eneida. Livro segundo
  15. Diodoro Sículo. Biblioteca Histórica. Livro VII, fragmento 4
  16. Cláudio Eliano. Vária História. Livro III. 22
  17. Tsirkin 2000, pp. 189.
  18. Neihardt 1990, pp. 518—519.
  19. Tronski I. M. (2017). História da Literatura Antiga. Moscovo: Yurayt. 376 páginas. ISBN 978-5-534-04848-3
  20. Enciclopédia Literária. 2. [S.l.]: Editora da Academia Comunista. 1929. p. 162—166
  21. Obnorski, Nikolai Petrovich — «Eneias, na mitologia». In: Dicionário Enciclopédico Brockhaus e Efron. Vol. XLa, págs. 822–823. São Petersburgo, 1904.
  22. Tsirkin 2000, pp. 189—190.
  23. Tsirkin 2000, pp. 190—191.
  24. Tsirkin 2000, pp. 190—192.
  25. Tsirkin 2000, p. 192.
  26. Tsirkin 2000, pp. 192—193.
  27. Tsirkin 2000, pp. 193—194, 506.
  28. Tsirkin 2000, p. 194.
  29. Tsirkin 2000, pp. 194—195.
  30. Tsirkin 2000, p. 195.
  31. Tsirkin 2000, pp. 195—196.
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Bibliografia

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