Colisão elástica
| Mecânica clássica |
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Em física, uma colisão elástica ou choque elástico é um encontro entre dois corpos em que a energia cinética e o momento linear total do sistema se conservam, e em que os corpos envolvidos não sofrem deformações permanentes durante o impacto.[1] Colisões perfeitamente elásticas ocorrem apenas se não houver conversão de energia cinética em outras formas (como calor ou ruído) e, portanto, elas não são parte das nossas experiências cotidianas.[2] Algumas colisões entre átomos em gases são exemplos de colisões perfeitamente elásticas. Entretanto, existem alguns exemplos de colisões em mecânica onde a energia perdida pode ser insignificante. Estas colisões podem ser consideradas elásticas, mesmo que elas não sejam perfeitamente elásticas. Colisões de bolas de bilhar rígidas ou as bolas num pêndulo de Newton são dois exemplos disso.[3]
As colisões em que a energia não se conserva e em que se produzem deformações permanentes nos corpos chamam-se inelásticas.[1]
Equações
Newtoniana unidimensional
Em qualquer colisão sem uma força externa, o momento linear (quantidade de movimento) é conservado; mas numa colisão elástica, a energia cinética também é conservada.[4] Considere as partículas A e B com massas mA, mB e velocidades vA1, vB1 antes da colisão, e vA2, vB2 após a colisão. A conservação do momento linear antes e depois da colisão é expressa por:[4]
Numa colisão elástica, a energia cinética é conservada e pode ser expressa por:[4]
Estas equações podem ser resolvidas diretamente para encontrar quando são conhecidos:[5]
Se ambas as massas forem iguais, temos uma solução trivial: Isto corresponde simplesmente aos corpos trocarem as suas velocidades iniciais entre si.[5]
Como seria de esperar, a solução é invariante sob a adição de uma constante a todas as velocidades (relatividade de Galileu), o que é equivalente a utilizar um referencial com velocidade de translação constante. De facto, para deduzir as equações, pode-se primeiro mudar o referencial de modo a que uma das velocidades conhecidas seja zero, determinar as velocidades desconhecidas no novo referencial e converter de volta para o referencial original.
Exemplos
- Antes da colisão
- Bola A: massa = 3 kg, velocidade = 4 m/s
- Bola B: massa = 5 kg, velocidade = 4 m/s
- Após a colisão
- Bola A: velocidade = −1 m/s
- Bola B: velocidade = 3 m/s
Outra situação:

As imagens seguintes ilustram o caso de massas iguais, .


No caso limite em que é muito maior do que , tal como uma raquete de pingue-pongue a bater numa bola de pingue-pongue ou um SUV a bater num caixote do lixo, a massa mais pesada quase não altera a sua velocidade, enquanto a massa mais leve faz ricochete, invertendo a sua velocidade acrescida de aproximadamente o dobro da velocidade da massa mais pesada.[6]
No caso de um grande, o valor de é pequeno se as massas forem aproximadamente iguais: atingir uma partícula muito mais leve não altera muito a velocidade, mas atingir uma partícula muito mais pesada faz com que a partícula rápida faça ricochete com alta velocidade. É por isso que um moderador de neutrões (um meio que abranda os neutrões rápidos, transformando-os em neutrões térmicos capazes de sustentar uma reação em cadeia) é um material cheio de átomos com núcleos leves que não absorvem facilmente neutrões: os núcleos mais leves têm aproximadamente a mesma massa que um neutrão.
Dedução da solução
Para deduzir as equações acima para reorganize as equações da energia cinética e do momento linear:
Dividindo cada lado da equação superior por cada lado da equação inferior, e utilizando obtém-se:
Ou seja, a velocidade relativa de uma partícula em relação à outra é invertida pela colisão.
Agora, as fórmulas acima resultam da resolução de um sistema de equações lineares para ; isto é feito considerando
como constantes:
Uma vez determinado , pode ser encontrado por simetria.
Referencial do centro de massa
Em relação ao centro de massa, ambas as velocidades são invertidas pela colisão: uma partícula pesada move-se lentamente em direção ao centro de massa e faz ricochete com a mesma velocidade baixa, e uma partícula leve move-se rapidamente em direção ao centro de massa e faz ricochete com a mesma velocidade alta.
A velocidade do centro de massa não é alterada pela colisão. Para ver isto, considere o centro de massa no instante antes da colisão e no instante após a colisão:
Por conseguinte, as velocidades do centro de massa antes e depois da colisão são:
Os numeradores de e representam o momento linear total antes e depois da colisão. Como o momento linear é conservado, temos que
Relativística unidimensional
De acordo com a relatividade restrita, onde p denota o momento de qualquer partícula com massa m, v denota a velocidade e c é a velocidade da luz.
No referencial do centro de momento, onde o momento total é igual a zero,
Aqui, representam as massas de repouso dos dois corpos em colisão, representam as suas velocidades antes da colisão, as suas velocidades após a colisão, os seus momentos, é a velocidade da luz no vácuo e denota a energia total, sendo esta a soma das massas de repouso e das energias cinéticas dos dois corpos.
Visto que a energia e o momento totais do sistema são conservados e as suas massas de repouso não se alteram, demonstra-se que o momento do corpo em colisão é ditado pelas massas de repouso dos corpos em colisão, pela energia total e pelo momento total. Em relação ao referencial do centro de momento, a magnitude do momento de cada corpo em colisão não se altera após a colisão, mas a sua direção de movimento é invertida.
Comparando com a mecânica clássica, que fornece resultados precisos ao lidar com objetos macroscópicos a moverem-se muito mais lentamente do que a velocidade da luz, o momento total dos dois corpos em colisão é dependente do referencial. No referencial do centro de momento, de acordo com a mecânica clássica:
Isto está em concordância com o cálculo relativístico de apesar de outras diferenças.
Um dos postulados da Relatividade Restrita afirma que as leis da física, tais como a conservação do momento linear, devem ser invariantes em todos os referenciais inerciais. Num referencial inercial geral onde o momento total possa ser arbitrário:
Podemos encarar os dois corpos em movimento como um único sistema cujo momento total é a energia total é e a sua velocidade é a velocidade do seu centro de massa. Relativamente ao referencial do centro de momento, o momento total é igual a zero. Pode ser demonstrado que é dada por: Agora, as velocidades antes da colisão no referencial do centro de momento e são:
Quando e
Por conseguinte, o cálculo clássico mantém-se válido quando a velocidade de ambos os corpos em colisão é muito inferior à velocidade da luz (~300.000 quilómetros por segundo).
Dedução relativística usando funções hiperbólicas
Utilizando o chamado parâmetro de velocidade (habitualmente designado por rapidez),
obtemos
A energia e o momento relativísticos são expressos da seguinte forma:
As equações da soma da energia e do momento das massas em colisão e (as velocidades correspondem aos parâmetros de velocidade ), após divisão pela potência adequada de , são as seguintes:
e a equação dependente, a soma das equações acima:
subtraindo os quadrados de ambos os lados das equações do "momento" das da "energia" e utilizando a identidade após a simplificação obtemos:
para massas não nulas, recorrendo à identidade trigonométrica hiperbólica obtemos:
como a função é par, obtemos duas soluções: a partir da última equação, levando a uma solução não trivial, resolvemos em ordem a e substituímos na equação dependente, obtendo e depois resultando em:
Esta é uma solução para o problema, mas expressa pelos parâmetros de velocidade. A substituição de retorno para obter a solução para as velocidades é:
Substituindo as soluções anteriores e trocando: e após uma longa transformação, com a substituição: obtemos:
Bidimensional
Para o caso de dois corpos em colisão sem rotação (não giratórios) em duas dimensões, o movimento dos corpos é determinado pelas três leis de conservação: do momento linear, da energia cinética e do momento angular. A velocidade global de cada corpo deve ser dividida em duas velocidades perpendiculares: uma tangente às superfícies normais comuns dos corpos em colisão no ponto de contato, e a outra ao longo da linha de colisão.
Uma vez que a colisão apenas transmite força ao longo da linha de colisão, as velocidades que são tangentes ao ponto de colisão não mudam. As velocidades ao longo da linha de colisão podem, então, ser utilizadas nas mesmas equações que numa colisão unidimensional. As velocidades finais podem depois ser calculadas a partir das duas novas componentes de velocidade e dependerão do ponto de colisão. Estudos de colisões bidimensionais são conduzidos para muitos corpos no âmbito de um gás bidimensional.

Num referencial do centro de momento, a qualquer instante, as velocidades dos dois corpos têm sentidos opostos, com magnitudes inversamente proporcionais às massas. Numa colisão elástica, estas magnitudes não se alteram. As direções podem mudar dependendo das formas dos corpos e do ponto de impacto.
Por exemplo, no caso de esferas, o ângulo depende da distância entre as trajetórias (paralelas) dos centros dos dois corpos. Qualquer mudança de direção diferente de zero é possível: se esta distância for zero, as velocidades são invertidas na colisão; se for próxima da soma dos raios das esferas, os dois corpos são apenas ligeiramente defletidos.
Assumindo que a segunda partícula está em repouso antes da colisão, os ângulos de deflexão das duas partículas, e , estão relacionados com o ângulo de deflexão no sistema do centro de massa por[7] As magnitudes das velocidades das partículas após a colisão são:
Colisão bidimensional com dois objetos em movimento
As componentes x e y finais das velocidades da primeira bola podem ser calculadas como:[8] onde v1 e v2 são as grandezas escalares das duas velocidades originais dos objetos, m1 e m2 são as suas massas, θ1 e θ2 são os seus ângulos de movimento, isto é, (o que significa que mover-se diretamente para baixo e para a direita corresponde a um ângulo de −45° ou 315°), e a letra grega minúscula phi (φ) é o ângulo de contato. (Para obter as velocidades x e y da segunda bola, é necessário trocar todos os subscritos '1' por subscritos '2'.)
Esta equação deriva do fato de que a interação entre os dois corpos é facilmente calculada ao longo do ângulo de contato, o que significa que as velocidades dos objetos podem ser calculadas numa dimensão rotacionando os eixos x e y para ficarem paralelos ao ângulo de contato dos objetos, e depois rotacionando-os de volta para a orientação original para obter as verdadeiras componentes x e y das velocidades.[9][10][11][12][13][14]
Numa representação livre de ângulos, as velocidades alteradas são calculadas utilizando os centros x1 e x2 no momento do contato como
-
(1)
onde os parênteses angulares indicam o produto interno (ou produto escalar) de dois vetores.
Outras grandezas conservadas
No caso particular de partículas com massas iguais, pode ser verificado por cálculo direto a partir do resultado acima que o produto escalar das velocidades antes e depois da colisão é o mesmo, isto é, Embora este produto não seja um invariante aditivo da mesma forma que o momento linear e a energia cinética o são para colisões elásticas, parece que a preservação desta quantidade pode, no entanto, ser usada para deduzir leis de conservação de ordem superior.[15]
Dedução da solução bidimensional
O impulso durante a colisão para cada partícula é:
-
(2)
A Conservação do Momento Linear implica que .
Como a força durante a colisão é perpendicular às superfícies de ambas as partículas no ponto de contato, o impulso ocorre ao longo da linha paralela a , o vetor relativo entre os centros das partículas no momento da colisão:
- para algum a ser determinado e
Então, a partir de (2):
-
(3)
A partir das equações acima, de acordo com a conservação da energia cinética:
o que simplifica para
- com
(Dica: e utilize as propriedades de linearidade e simetria do produto interno.)
As duas soluções desta equação são e , em que corresponde ao caso trivial de não haver colisão. Substituindo o valor não trivial de em (3), obtemos o resultado pretendido (1).
Visto que todas as equações se encontram na forma vetorial, esta dedução é igualmente válida para três dimensões com esferas.
Referências
- 1 2 Halliday, D. & Resnick, R. (1991). Fundamentos de Física. 2. [S.l.]: Livros Técnicos e Científicos
- ↑ Mathavan, S. (2010). A theoretical analysis of billard ball dynamics under cushion impacts. [S.l.]: Journal of Mechanical Engineering Science. p. 1863 - 1873
- ↑ Haron, A. Coefficient of restitution of sports balls: A normal drop test in 'lOP Conference Series: Materials Science and Engineering. 36 1 ed. [S.l.: s.n.]
- 1 2 3 Serway & Jewett 2014, p. 257
- 1 2 Serway & Jewett 2014, p. 258
- ↑ Serway & Jewett 2014, pp. 258–259
- ↑ Landau & Lifshitz 1976, p. 46
- ↑ Craver, William E. (13 de agosto de 2013). «Elastic Collisions». Consultado em 4 de março de 2023
- ↑ Parkinson, Stephen (1869) "An Elementary Treatise on Mechanics" (4.ª ed.) p. 197. Londres. MacMillan
- ↑ Love, A. E. H. (1897) "Principles of Dynamics" p. 262. Cambridge. Cambridge University Press
- ↑ Routh, Edward J. (1898) "A Treatise on Dynamics of a Particle" p. 39. Cambridge. Cambridge University Press
- ↑ Glazebrook, Richard T. (1911) "Dynamics" (2.ª ed.) p. 217. Cambridge. Cambridge University Press
- ↑ Osgood, William F. (1949) "Mechanics" p. 272. Londres. MacMillan
- ↑ Stephenson, Reginald J. (1952) "Mechanics and Properties of Matter" p. 40. Nova Iorque. Wiley
- ↑ Chliamovitch, G.; Malaspinas, O.; Chopard, B. (2017). «Kinetic theory beyond the Stosszahlansatz». Entropy. 19 (8): 381. Bibcode:2017Entrp..19..381C. doi:10.3390/e19080381

