Método histórico
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O método histórico consiste no conjunto de técnicas, procedimentos e princípios epistemológicos que orientam a investigação científica do passado humano. Através dele, a narrativa histórica se distingue da crônica ao submeter as fontes a processos sistemáticos de crítica, interpretação e síntese, com o objetivo de produzir conhecimento ordenado e correlacionado sobre os eventos, estruturas e processos históricos. A consolidação do método histórico enquanto campo de reflexão autônomo ocorreu ao longo do século XIX, especialmente no âmbito da escola histórica alemã, embora suas raízes remontem à filologia e à hermenêutica dos séculos anteriores. Ao longo do século XX, o método histórico foi objeto de intensas disputas intelectuais, que envolveram a crítica marxista, a escola dos Annales, os narrativistas como Hayden White e os questionamentos epistemológicos de filósofos como Paul Feyerabend.
Raízes hermenêuticas e filológicas
A constituição de um método para a história está intimamente ligada ao desenvolvimento da hermenêutica, compreendida como a arte e técnica da interpretação correta de textos. Embora seus fundamentos remontem à antiguidade grega e à tradição judaico-cristã de exegese bíblica, foi a partir do renascimento que a hermenêutica se desdobrou em três especialidades: filosófico-filológica, teológica e jurídica, todas com impacto sobre a história.[1]
A relação entre a história e a filologia era estreita desde o início da constituição da disciplina como campo autônomo, processo verificado a partir do final do século XVIII. Os avanços na tradução e interpretação de textos antigos, assim como a publicação de grandes séries documentais na Alemanha e na França, serviram para aperfeiçoar as técnicas de crítica textual que viriam a fundamentar o método histórico.[1]
Friedrich Schleiermacher foi figura central nesse processo ao ampliar o horizonte hermenêutico, definindo seus pressupostos fundamentais e concebendo a compreensão como uma possibilidade concreta de se conhecer todas as dimensões da vida humana.[2]
A escola histórica alemã e o historicismo
Ranke e a fundação do método
A escola histórica alemã, com Leopold von Ranke como figura central, representou um passo decisivo na profissionalização e metodização da história. O historicismo alemão distingue-se por afirmar a especificidade do conhecimento histórico em relação às ciências naturais, a necessidade da história para a compreensão dos fenômenos humanos, e a ideia de que o passado persiste no presente.[3] Para alguns autores, Ranke foi o "refundador da história nos tempos modernos" e o representante clássico do historicismo, que teria fundado na prática a autonomia do pensamento histórico.[4]
A escola histórica problematizou a história universal iluminista, buscando apoio na hermenêutica romântica e na discussão sobre a singularidade do passado. Ela combateu tanto o positivismo - que, segundo Dilthey, mutilava a realidade histórica - quanto as filosofias idealistas da história de matriz hegeliana.[5]
Johann Gustav Droysen e a Historik
Johann Gustav Droysen é considerado um dos principais teorizadores do método histórico no século XIX. Sua principal obra, Historik (Grundriß der Historik), redigida entre 1858 e 1882, apresenta uma reflexão inovadora sobre as diferentes fases da operação historiográfica, divididas em heurística, crítica, interpretação e exposição.[6] Droysen distinguiu Methodik e Systematik, ou seja, teoria da história e crítica documental, recusando-se a entender a história apenas como uma ciência de textos do passado.[6]
Droysen foi ainda o primeiro a perceber a função orientadora da reflexão teórica sobre a história em relação à sua prática. Para ele, o conhecimento histórico deveria "compreender investigando", uma fórmula que sintetizou sua articulação entre hermenêutica e método.[7] Sua contribuição ao método reside, sobretudo, em liberar o conceito de compreensão da indeterminação que havia adquirido em Ranke, situando-o na realidade histórica e não apenas nos textos ou na linguagem.[6]
Wilhelm Dilthey e as ciências do espírito
Wilhelm Dilthey foi responsável por tornar a hermenêutica uma preocupação histórica e por elevar a dimensão histórica do conhecimento ao estatuto de fundamento das ciências do espírito (Geisteswissenschaften). Para Dilthey, a fundamentação do conhecimento histórico deveria ser encontrada nos fatos da consciência, e não em leis universais como propunham os positivistas.[8] O que o historiador faz, segundo ele, é compreender as objetivações de vida, resultado do diálogo entre o historiador em sua vivência presente e os outros homens em seu tempo vivido.[9]
Para Dilthey, "a compreensão e a interpretação constituem o método adequado para as ciências humanas", uma afirmação que sintetiza o papel central da hermenêutica na epistemologia histórica.[10] O conceito de vivência (Erlebnis) representou para ele a base psicológica de sua hermenêutica, complementado pela distinção entre expressão e significado, pois o passado não se conhece por meio de conceitos abstratos, mas através da consciência histórica.[11]
Langlois, Seignobos e a metódica francesa
O manual Introdução aos estudos históricos (1898), de Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos, consolidou os procedimentos da chamada metódica positivista francesa. Os autores abordam, na seção de Crítica Interna, o que denominam de "crítica de interpretação ou hermenêutica", distinguindo o sentido literal — operação linguística orientada pela filologia — do sentido real, que envolve a compreensão da língua da época, o estilo do autor e o contexto de produção do texto.[12]
O procedimento de crítica interna de Langlois e Seignobos fundamenta-se numa "desconfiança metódica" de inspiração cartesiana — o questionamento sistemático da veracidade das informações contidas nas fontes. Essas proposições identificam-se com a hermenêutica psicologizante ou romântica, distanciando-se das abordagens mais filosóficas de Dilthey.[12] Apesar de minimizarem a influência de Droysen, qualificando-o de "pesado e gongórico" , sua obra incorporava pressupostos hermenêuticos fundamentais.[12]
A crítica marxista e o materialismo histórico
A historiografia marxista constituiu uma das mais influentes alternativas ao método historicista e positivista. Partindo das obras de Karl Marx e Friedrich Engels, essa corrente propõe que a história se desenvolve primordialmente por meio das condições materiais de produção e das lutas de classes que delas emergem, e não através de ideias, indivíduos ou contingências. O método marxista, conhecido como materialismo histórico, distingue entre a base econômica - que engloba as forças e relações de produção - e a superestrutura política, jurídica e cultural, concebida como amplamente determinada por aquela base.[13]
Após a Segunda Guerra Mundial, a historiografia marxista ganhou significativa projeção nos meios acadêmicos ocidentais, especialmente na Grã-Bretanha, onde o Grupo de Historiadores do Partido Comunista, formado em 1946, reuniu estudiosos como E. P. Thompson, Christopher Hill e Eric Hobsbawm. Esse grupo orientou a historiografia em direção à "história vista de baixo", priorizando as experiências de trabalhadores e camponeses em detrimento de modelos deterministas. Sua influência estendeu-se à criação da revista Past & Present em 1952, inicialmente impulsionada por historiadores marxistas.[13]
E. P. Thompson, em particular, realizou uma crítica interna ao marxismo estruturalista de Louis Althusser, que, a seu ver, dissolvia a agência humana em estruturas teóricas abstratas. Em A Miséria da Teoria (1978), Thompson defendeu uma história materialista enraizada na experiência concreta de homens e mulheres reais, afirmando que a classe não é uma estrutura, mas algo que "de fato acontece nas relações humanas".[14] Em 1966, Thompson cunhou o termo "história vista de baixo" para descrever sua abordagem à história social, que se tornaria um dos desenvolvimentos mais consequentes da disciplina no século XX.
A virada narrativa
Contexto e premissas
A partir da década de 1970, um conjunto de teóricos - geralmente denominados de narrativistas ou pós-modernos - passou a questionar os fundamentos epistemológicos do método histórico, argumentando que a história é essencialmente uma forma de narrativa literária e não uma ciência capaz de acessar objetivamente o passado. Essa "virada linguística" deslocou o debate historiográfico da investigação das fontes para o problema da representação.[15]
Hayden White e a Meta-história
Hayden White é o autor mais representativo da corrente narrativista. Em Meta-História: A Imaginação Histórica do Século XIX (1973), White propôs que as obras históricas são estruturas verbais em forma de prosa narrativa que funcionam como modelos ou ícones de estruturas e processos do passado.[16] Para White, os historiadores constituem uma crônica de eventos que organizam em uma história coerente antes de processá-la em um enredo que expressa uma ideologia. Assim, a obra histórica implica sempre escolhas de emplotamento (emplotment), argumentação e implicação ideológica.
White identificou quatro tipos fundamentais de emplotamento: romance, comédia, tragédia e sátira, quatro modos de argumentação: formista, organicista, mecanicista e contextualista, e quatro posições ideológicas. Sua tese central era de que nenhum desses modos de emplotamento corresponde mais adequadamente ao que "realmente aconteceu" do que outro: todos são atos poéticos de construção.[16] Nesse sentido, White rejeitou a noção rankiana de uma "ciência da história" e argumentou que os historiadores utilizam todas as técnicas de um romancista ou dramaturgo na composição de suas obras.[17]
A obra de White marcou uma mudança de paradigma: deslocou o debate do campo da investigação e da crítica das fontes para o campo da representação e da escrita da história.[15] Frank Ankersmit, um de seus principais interlocutores, sustentou que a obra de White tornou obsoleta a visão da linguagem como meio neutro na historiografia, inaugurando o que denominou de "virada linguística" da filosofia da história.
As ideias de White geraram controvérsia considerável entre historiadores profissionais. Críticos apontaram que sua tese dissolve a distinção entre fato e ficção, relativizando a possibilidade de um conhecimento histórico fundado em evidências.[18] Outros o identificaram como o "porta-voz mais magistral" de uma historiografia relativista e pós-moderna, na qual a prevalência de uma narrativa sobre outra seria sempre resultado de estratégias retóricas, nunca de evidências e lógica.
Críticas epistemológicas ao método científico
Thomas Kuhn e a estrutura das revoluções científicas
Antes mesmo da virada narrativa na história, Thomas Kuhn havia questionado a visão cumulativa e linear do progresso científico em A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), introduzindo os conceitos de paradigma, ciência normal e revolução científica. Kuhn demonstrou que a mudança científica não ocorre por simples acumulação de evidências, mas por rupturas radicais de visão de mundo, o que abriu caminho para uma abordagem historicamente orientada na filosofia da ciência.[19]
Paul Feyerabend e o anarquismo epistemológico
A crítica mais radical ao método científico, com implicações diretas para o debate historiográfico, foi formulada pelo filósofo austríaco Paul Feyerabend em sua obra Contra o Método: Esboço de uma Teoria Anarquista do Conhecimento (1975). A tese central da obra é que a ciência deve ser uma empresa anárquica, e que qualquer prescrição metodológica rígida constitui um obstáculo ao progresso do conhecimento.[20]
Feyerabend argumentou que, para cada regra metodológica, existe uma contrarregra igualmente justificável, e que o exame histórico da ciência revela que "não existe uma única regra, por mais plausível que seja, que não tenha sido violada em algum momento".[20]
Sua conclusão - resumida na fórmula "tudo vale" (anything goes) - não é uma prescrição positiva, mas o resultado de uma redução ao absurdo: se a história do conhecimento é tomada a sério, nenhum método único pode ser universalmente prescrito.[20]
A ideia de que a ciência pode e deve ser conduzida segundo princípios fixos e universais é, para Feyerabend, "tanto irrealista quanto perniciosa".[20] Ele defendeu o pluralismo metodológico como condição para o avanço do conhecimento, sustentando que a ciência está muito mais próxima do mito do que a filosofia científica ortodoxa está disposta a admitir.[20]
As implicações dessas teses para a historiografia são significativas: se nem as ciências naturais possuem um método único e infalível, a reivindicação de um método histórico objetivo e universalmente válido torna-se ainda mais problemática. O debate entre Feyerabend e a filosofia da ciência convergiu, em certos aspectos, com as críticas narrativistas à objetividade do discurso histórico, embora partam de premissas distintas.[20]
Desdobramentos contemporâneos
A segunda metade do século XX assistiu a uma diversificação das abordagens metodológicas em história. A escola dos Annales, fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre, incorporou elementos da tradição hermenêutica alemã - especialmente o conceito de compreensão (Verstehen) - ao seu programa de uma história total, voltada para as estruturas de longa duração e para as mentalidades coletivas.[3]
O debate sobre o método histórico permanece aberto. A tensão entre a reivindicação de rigor científico, sustentada pela crítica documental, pela análise das fontes e pela exigência de verificabilidade, e o reconhecimento da dimensão narrativa, retórica e subjetiva do discurso histórico constitui o núcleo das discussões contemporâneas em teoria da história. Autores como Jörn Rüsen buscaram integrar as contribuições da metahistória de White com as exigências da pesquisa empírica, propondo uma síntese entre representação e interpretação como desafio ainda não resolvido para a disciplina.[15]
Ver também
- Hermenêutica
- Historicismo
- Materialismo histórico
Referências
- 1 2 Bentivoglio 2007, p. 67-79.
- ↑ Bentivoglio 2007, p. 77.
- 1 2 Bentivoglio 2007, p. 68.
- ↑ Bentivoglio 2007, p. 70.
- ↑ Bentivoglio 2007, p. 71.
- 1 2 3 Bentivoglio 2007, p. 75.
- ↑ Bentivoglio 2007, p. 75-76.
- ↑ Bentivoglio 2007, p. 71-72.
- ↑ Bentivoglio 2007, p. 72.
- ↑ Bentivoglio 2007, p. 72-73.
- ↑ Bentivoglio 2007, p. 73.
- 1 2 3 Bentivoglio 2007, p. 76.
- 1 2 Griffin et al. 2015.
- ↑ Thompson 1978.
- 1 2 3 Rüsen 2020.
- 1 2 White 1973.
- ↑ University of the South Pacific Journal (2023). «Hayden White and the Burden of History». Journal of Pacific Studies
- ↑ University of the South Pacific Journal (2023). «Hayden White and the Burden of History». Journal of Pacific Studies
- ↑ Kuhn 1962.
- 1 2 3 4 5 6 Feyerabend 1975.
Bibliografia
Artigos acadêmicos
- Bentivoglio, Julio (2007). «História e hermenêutica: a compreensão como um fundamento do método histórico – percursos em Droysen, Dilthey, Langlois e Seignobos». Opsis. 7 (9)
- Griffin, Emma (2 de fevereiro de 2015). «Working-Class History». History Today. 65 (2)
- Rüsen, Jörn (2020). «A Turning Point in Theory of History: The Place of Hayden White in the History of Metahistory». History and Theory. 59 (1). doi:10.1111/hith.12147
Livros
- Feyerabend, Paul (1975). Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge. Londres: New Left Books
- Kuhn, Thomas S. (1962). The Structure of Scientific Revolutions. Chicago: University of Chicago Press
- Thompson, E. P. (1978). The Poverty of Theory and Other Essays. Londres: Merlin Press
- White, Hayden (1973). Metahistory: The Historical Imagination in Nineteenth-Century Europe. Baltimore: Johns Hopkins University Press