Taitas

Os taitas ou Banu Tai (em árabe: طيء; romaniz.: Ṭayyiʾ; musnade: 𐩷𐩺) são uma tribo árabe grande e antiga, entre cujos descendentes atuais estão as tribos dos saqueritas e dos xamaritas. O nisba (adjetivo patronímico) dos taitas é Atai (em árabe: ٱلطَّائِي; romaniz.: aṭ-Ṭāʾī). No século II, migraram para as cadeias montanhosas do norte da Arábia, os montes Xamar e Salma, que então passaram a ser conhecidas conjuntamente como montes Tai, e mais tarde os montes Xamar. Esta última permanece até hoje como a pátria tradicional da tribo. Posteriormente, estabeleceram relações com o Império Sassânida e o Império Bizantino. Embora tradicionalmente aliados ao Reino Lácmida, que atuou como cliente dos sassânidas, os taitas os suplantaram como governantes de Hira na década de 610. No final do século VI, a Guerra do Façade dividiu os taitas: membros de seu ramo aljadilaíta converteram-se ao cristianismo e migraram para a Síria, onde se aliaram aos gassânidas, enquanto o ramo algautita permaneceu no Monte Tai. Um chefe e poeta dos algautitas, Hatim Atai, é amplamente conhecido entre os árabes até hoje.

Adi ibne Hatim e outro chefe dos taitas, Zaide Alcair, converteram-se ao Islã juntamente com grande parte de sua tribo em 629–630, tornando-se companheiros do profeta Maomé. Os taitas participaram de várias campanhas militares muçulmanas após a morte de Maomé, incluindo as Guerras Rida e a conquista muçulmana da Pérsia. Os aljadilaítas no norte da Síria permaneceram cristãos até a conquista muçulmana do Levante em 638. Os taitas dividiram-se durante a Primeira Fitna, com aqueles baseados na Arábia e no Iraque apoiando Ali como califa e aqueles na Síria apoiando Moáuia. Estes últimos e seus parentes omíadas acabaram triunfando, e membros dos taitas participaram da conquista omíada de Sinde no início do século VIII. Ainda assim, um ramo dos taitas sob Cataba ibne Xabibe Atai esteve entre os líderes da Revolução Abássida que derrubou os omíadas em meados do século VIII. Os taitas prosperaram sob o Califado Abássida, produzindo oficiais militares e poetas renomados como Buturi e Abu Tamame.

Por volta de meados do século IX, a autoridade abássida havia se erodido e os taitas tornaram-se dominantes no deserto do sul da Síria e no Monte Tai. Sob os jarráidas, estabeleceram-se na Palestina sob domínio fatímida. Como governantes praticamente independentes da região entre Ramla e Monte Tai, controlavam as rotas-chave entre o Egito, a Síria, a Arábia e o Iraque. Oscilaram entre os fatímidas e os bizantinos, e depois entre os seljúcidas e os cruzados, até o final dos séculos XII e início do XIII, quando os vários sub-ramos dos taitas — principalmente os alfládidas — permaneceram como a última tribo árabe politicamente influente na região que se estendia do Négede ao norte até a Alta Mesopotâmia.

Genealogia

O progenitor dos taitas, segundo os primeiros genealogistas árabes, foi Juluma ibne Udade, que era conhecido como "Tai".[1] A teoria presente em algumas tradições árabes, citada pelo historiador muçulmano do século IX Atabari, sustenta que o lacabe (sobrenome) de Juluma, Tai (Ṭayyiʾ), derivava da palavra ṭawā, que em árabe significa "rebocar". Ele recebeu esse nome porque, segundo se dizia, foi "o primeiro a rebocar as paredes de um poço", de acordo com Atabari. A ascendência de Juluma era traçada até Calane ibne Saba ibne Iarube, bisneto de Catane, o ancestral comum semilendário das tribos árabes do sul da Arábia. Juluma era descendente direto de Calane por meio de seu pai Zaide ibne Iasjube,[2] que por sua vez era descendente direto de Aribe ibne Zade ibne Calane.[3]

Ramos

Os dois ramos principais dos taitas eram os algautitas (al-Ghawth) e aljadilaítas (Al Jadilah). O primeiro recebeu esse nome por causa de Algaute, um filho de Juluma.[3] A descendência imediata do filho de Algaute, Anre, incluía Tual, Assuadane (comumente conhecido como Nabane), Hani, Baulane e Salamane. A descendência de Tual (tualitas ou Banu Tual) e de Assuadane (nabanitas ou Banu Nabate) tornou-se sub-ramos proeminentes dos taitas no norte da Arábia, enquanto a descendência de Hani (hanitas ou Banu Hani) tornou-se um importante sub-ramo na Mesopotâmia meridional.[4] Segundo os genealogistas árabes tradicionais, os tualitas eram os ancestrais dos rabíadas da Síria e, por sua vez, dos emires alfládidas.[5]

O epônimo dos aljadilaítas era uma mulher dos taitas chamada Jadila, cujos filhos Hur e Jundube se tornaram os progenitores dos huritas (Banu Hur) e jundubitas (Banu Jundube), respectivamente. Este último produziu o numeroso sub-ramo atalibitas (Banu Atalibe ou Talaba), que por sua vez produziu os lamitas, que se tornaram um sub-ramo proeminente dos aljadilaítas no norte da Arábia.[3] Os jarmitas (ou jurumitas) também podem ter sido um ramo dos atalibitas.[6]

Segundo o historiador e sociólogo árabe do século XIV, ibne Caldune, os taitas estavam entre as tribos catanitas que viviam nas colinas e planícies da Síria e da Mesopotâmia e que se casavam com não árabes. Ibne Caldune acrescentou que os homens das tribos taitas “não davam atenção alguma à preservação da (pureza da) linhagem de suas famílias e grupos”. Assim, era difícil para os genealogistas determinar com precisão a linhagem dos muitos sub-ramos dos taitas.[7]

Referências

  1. Bräu 1936, p. 624.
  2. Landau-Tasseron 1998, p. 85–86.
  3. a b c ibne Abde Rabi 2011, p. 294.
  4. ibne Abde Rabi 2011, p. 295.
  5. Popper 1955, p. 4.
  6. Cohen & Lewis 1978, p. 134.
  7. ibne Caldune 1967, p. 99–100.

Bibliografia

  • Bräu, H. H. (1936). «Ṭaiy». In: Houtsma, M. Th. Encyclopaedia of Islam 1ª ed. Leida: Brill. ISBN 9789004082656 
  • Cohen, Amnon; Lewis, Bernard (1978). Population and Revenue in the Towns of Palestine in the Sixteenth Century. Princeton: Princeton University Press. ISBN 9781400867790 
  • ibne Abde Rabi (2011). Boullata, Emeritus Issa J., ed. The Unique Necklace, Volume III. Reading: Garnet Publishing Limited & Southern Court. ISBN 9781859642405 
  • ibne Caldune, Abderramão ibne Maomé (1967). Dawood, N. J., ed. The Muqaddimah: An Introduction to History. Traduzido por Rosenthal, Franz. Princeton: Princeton University Press. ISBN 9780691017549 
  • Landau-Tasseron, Ella (1998). The History of al-Ṭabarī, Volume XXXIX: Biographies of the Prophet's Companions and their Successors: al-Ṭabarī's Supplement to his History. SUNY Series in Near Eastern Studies. Albânia, Nova Iorque: Imprensa da Universidade de Nova Iorque. ISBN 978-0-7914-2819-1 
  • Landau-Tasseron, Ella (1984). «The Participation of Tayyi in the Ridda». Jerusalem Studies in Arabic and Islam. 5 
  • Popper, William (1955). Egypt and Syria Under the Circassian Sultans, 1382–1468 A.D.: Systematic Notes to Ibn Taghrî Birdî's Chronicles of Egypt, Volumes 15–17. Berkeley, Califórnia: University of California Press