François Hartog

François Hartog
Nascimento17 de julho de 1946 (79 anos)
Albertville
CidadaniaFrança
Alma mater
  • Escola Normal Superior de Paris
  • Lycée Pasteur (Neuilly-sur-Seine)
  • Universidade de Franche-Comté
Ocupaçãohistoriador, professor universitário
Distinções
  • Cavaleiro da Legião de Honra
  • Prêmio Broquette-Gonin (1981)
  • Grande Prêmio Gobert (2021)
Empregador(a)escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais
Orientador(a)(es/s)Pierre Lévêque

François Hartog (1946) é um historiador francês[1] especializado em Historiografia grega, Historiografia romana e Historiografia Moderna. Professor da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESS), na França, estudou na Escola Normal Superior de Paris.[2] É considerado um dos principais historiadores franceses contemporâneos dedicados à historiografia, à história intelectual da Grécia Antiga e à reflexão sobre as formas modernas de relação com o tempo histórico.

Autor de uma série de livros publicados na França e traduzidos ao redor do mundo, Hartog tem promovido uma série de reflexões acerca da noção de regime de historicidade contribuído também para as análises em outras áreas da historiografia como a História Contemporânea e a História do Tempo Presente,[3] em especial pela sua noção de presentismo enquanto um regime de historicidade.[4] Hartog entende o regime de historicidade como uma ferramenta heurística para compreensão das relações desenvolvidas pelas sociedades ocidentais com as dimensões temporais passado, presente e futuro.[5]

Biografia

Formação e carreira

Antigo aluno do liceu Pasteur e da École normale supérieure (turma de 1968)[6], François Hartog é agrégé de história (1971)[7] e doutor de Estado em História (1979)[7].

Ensinou História da Grécia Antiga nas universidades de Estrasburgo e Metz, antes de assumir, em 1987, a cátedra de historiografia antiga e moderna na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (École des hautes études en sciences sociales, EHESS)[8].

Hartog é membro do Centro Louis Gernet de Pesquisas Comparadas sobre as Sociedades Antigas, membro associado do Centro de Pesquisa Histórica (CRH), fellow do Colégio Científico de Berlim (1993–1994) e membro eleito da Academia Europaea desde 2015[9]. Em 1997, figurou entre os sessenta membros fundadores da Associação dos Historiadores[10].

Discípulo de Jean-Pierre Vernant e leitor atento de Reinhart Koselleck, Hartog desenvolve uma obra que articula história intelectual da Grécia antiga, reflexão historiográfica (com estudos sobre Fustel de Coulanges e sobre a escrita da história entre os gregos) e teoria das formas históricas de temporalização[11].

Contribuição à escrita da história

François Hartog é amplamente reconhecido por ter formulado e difundido o conceito de regime de historicidade, que define como

as formas de articulação entre as três categorias do passado, do presente e do futuro, considerando-as como categorias em si, e não pelo conteúdo que se lhes atribui, mas pela maneira como suas articulações variam conforme os lugares e as épocas

[12].

O regime de historicidade contemporâneo é caracterizado pelo presentismo, uma experiência do tempo marcada pela centralidade do presente, na qual a memória (as marcas deixadas no presente por passados sucessivos) tende a sobrepor-se à história (a reconstrução crítica e distanciada desses passados).[13][14]

Hartog investigou a relação entre passado, presente e futuro em momentos de crise histórica. Assim como Hannah Arendt, Michel Foucault e Reinhart Koselleck, ele sustenta que não há separação absoluta entre passado e presente, pois toda história é, de fato, “história contemporânea”.[15]

Reunindo um amplo repertório de fontes, Hartog expõe essa análise em Regimes of Historicity: Presentism and Experiences of Time, utilizando obras como a Odisseia para ilustrar a formação da consciência histórica.[16]

Ele identifica três regimes principais de historicidade: o regime **exemplar**, baseado em vidas e modelos do passado; o regime **moderno**, surgido a partir da Revolução Francesa; e o regime **presentista**, no qual o presente se torna o principal referencial para a interpretação histórica.[17]

O conceito de “regimes de historicidade” pode ser entendido como a forma pela qual uma sociedade lida com seu passado ou como os “modos de consciência” das comunidades humanas.[18] Hartog descreve o presentismo como um regime em que o presente domina, rejeitando a concepção linear e causal do tempo típica do regime moderno.[19][20]

O conceito de regimes de historicidade tornou-se uma importante ferramenta heurística para pesquisas sobre experiências temporais,[21] e também evidencia o esforço coletivo de historiadores em construir categorias conceituais voltadas à compreensão da consciência histórica.[22]

Entre as críticas, aponta-se que o conceito pode gerar um “atraso permanente”, decorrente das discrepâncias entre diferentes narrativas e relações temporais, além de induzir periodizações que suprimem a diversidade de concepções de tempo.[23][24]

Hartog também reflete sobre o papel do historiador, as tensões entre memória e narrativa histórica, e as transformações epistemológicas das ciências humanas e sociais, consolidando sua obra como uma das principais reflexões contemporâneas sobre a escrita da história.[25][26]

Principais obras publicadas

Na França

  • 1980: Le Miroir d'Hérodote. Essai sur la représentation de l'autre
  • 1988: Le xixe siècle et l'histoire. Le cas Fustel de Coulanges
  • 1996: Mémoire d'Ulysse : récits sur la frontière en Grèce ancienne
  • 1998: Pierre Vidal-Naquet un historien dans la cité (juntamente a Alain Schnapp e Pauline Schmitt-Pantel)
  • 2001: Les Usages politiques du passé (juntamente a Jacques Revel)
  • 2003: Régimes d'historicité. Présentisme et expériences du temps
  • 2005: Anciens, modernes, sauvages
  • 2005: Évidence de l'histoire. Ce que voient les historiens
  • 2007: Vidal-Naquet, historien en personne
  • 2013: Croire en l'histoire
  • 2015: Partir pour la Grèce
  • 2017: La nation, la religion, l'avenir : Sur les traces d'Ernest Renan
  • 2020: Chronos: o Ocidente às voltas com o tempo, Paris, Gallimard.
  • 2021: Confrontações com a história, Paris, Gallimard.
  • 2022: À rencontre de Chronos (1970–2022), Paris, CNRS Éditions.
  • 2024: Départager l’humanité, Paris, Gallimard.

Hartog também dirigiu edições críticas de:

  • Plutarco, Vidas paralelas, Gallimard, coleção Quarto, 2001.
  • Políbio, História, Gallimard, coleção Quarto, 2003.

No Brasil

  • 1999: O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro
  • 2001: A história de Homero a Santo Agostinho.
  • 2003: Os antigos, o passado e o presente (Coletânea organizada por José Otávio Guimarães)
  • 2003: O século XIX e a história: o caso Fustel de Coulanges
  • 2004: Memória de Ulisses: narrativas sobre a fronteira na Grécia antiga
  • 2011: Evidência da história: o que os historiadores veem
  • 2013: Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo
  • 2017: Crer em História

Distinções

Ordens e condecorações

  • Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra (2012)[27].
  • Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito (2001)[28].
  • Cavaleiro das Palmas Acadêmicas (2001)[29].

Prêmios

  • Grande Prêmio Gobert da Académie française (2021)[30].
  • Prêmio François-Millepierres (2006)[30].
  • Prêmio Broquette-Gonin (1981)[30].

Referências

  1. «François Hartog». babelio.com (em francês) 
  2. Romero 2015, p. 1.
  3. Nicolazi2010.
  4. Hartog 2013, pp. 14-15.
  5. Hartog 2013, p. 11; 37.
  6. «L'annuaire | a-Ulm». www.archicubes.ens.fr. Consultado em 28 de maio de 2024 
  7. a b «François Hartog». gehm.ehess.fr (em francês). Consultado em 3 de novembro de 2024 
  8. «Une traversée des conjonctures intellectuelles, 1970-2015. Entretien avec François Hartog». openedition.org (em francês). 2016 
  9. «François Hartog». ae-info.org (em francês) 
  10. «François Hartog». savoirs.ens.fr (em francês) 
  11. «François Hartog». ehess.fr (em francês) 
  12. Claire Richard (2012). Politiques de la littérature, politiques du lien (em francês). [S.l.]: Archives contemporaines. p. 67 
  13. «Sommes-nous bloqués dans le "présentisme"?». radiofrance.fr (em francês). 14 setembro 2022 
  14. «"Il n'y a plus que du présent, et ce présent n'en finit pas"». lemonde.fr (em francês). 16 fevereiro 2022 
  15. Brozgal, Lia; Kippur, Sara (2016). Being Contemporary: French Literature, Culture and Politics Today. Liverpool: Oxford University Press. pp. 23–24. ISBN 978-1-78138-263-9 
  16. Hartog, François (fevereiro de 2015). Regimes of Historicity: Presentism and Experiences of Time. [S.l.]: Columbia University Press. ISBN 978-0-231-53876-3 
  17. Hutton, Patrick H. "François Hartog, Regimes of Historicity: Presentism and Experiences of Time". The Journal of Modern History, vol. 88, n.º 3, setembro de 2016, pp. 633–634.
  18. István, Király V. (2015). Death and History. [S.l.]: Lambert Academic Publishing. 22 páginas. ISBN 978-3-659-80237-9 
  19. Hoffmann, Stefan-Ludwig (abril de 2016). «François Hartog. Regimes of Historicity: Presentism and Experiences of Time». The American Historical Review. 121 (2): 535–536. doi:10.1093/ahr/121.2.535 
  20. Tamm, Marek (2015). Afterlife of Events: Perspectives on Mnemohistory (em inglês). Berlim: Springer. ISBN 978-1-137-47018-8 
  21. Tamm, Marek; Olivier, Laurent (2019). Rethinking Historical Time: New Approaches to Presentism. Londres: Bloomsbury Publishing. 23 páginas. ISBN 978-1-350-06508-6 
  22. Detienne, Marcel (2008). Comparing the Incomparable. Stanford, CA: Stanford University Press. 43 páginas. ISBN 978-0-8047-5749-2 
  23. Dossin, Catherine; Joyeux-Prunel, Béatrice; Kaufmann, Thomas DaCosta (2015). Circulations in the Global History of Art. Surrey, Reino Unido: Ashgate Publishing. 114 páginas. ISBN 978-1-4724-5456-0 
  24. Lianeri, Alexandra (2011). The Western Time of Ancient History: Historiographical Encounters with the Greek and Roman Pasts. Cambridge, Reino Unido: Cambridge University Press. 12 páginas. ISBN 978-0-521-88313-9 
  25. «François Hartog : "Le présent est devenu envahissant"». lejdd.fr (em francês). 18 fevereiro 2013 
  26. «François Hartog, "historien à temps plein"». radiofrance.fr (em francês). 14 setembro 2022 
  27. «Décret du 31 décembre 2012 portant promotion et nomination». legifrance.gouv.fr (em francês). 31 dezembro 2012 
  28. «Décret du 14 novembre 2001 portant promotion et nomination». legifrance.gouv.fr (em francês). 14 novembro 2001 
  29. «François Hartog. Courte Biographie» (PDF). mfj.gr.jp (em francês) 
  30. a b c «François Hartog». academie-francaise.fr (em francês) 

Bibliografia

Ver também

  • Regime de historicidade

Ligações externas