Vissungo
Vissungo é o nome que se dá a determinados cantos entoadas por escravizados africanos nas minas de ouro e diamante, no interior de Minas Gerais. Sob a perspectiva da etnomusicologia tradicional, poderiam ser categorizados como “cantos de trabalho”, mas esta seria uma categorização incompleta. Os cantos eram entoados tanto durante o trabalho quanto em outras situações do dia-a-dia, como festejos e funerais. Além disso, como os trabalhos eram realizados em condições desumanas e sob coerção brutal, é improvável que o termo "canto de trabalho" reflita a perspectiva dos que cantavam[1] (Carvalho, 2006 apud Freitas e Queiroz, 2015). O termo "vissungo" deriva do umbundu “ovissungo”, que significa “canto”.
Origem
As fontes que resistiram ao tempo na tradição oral provêm de cidades do interior de Minas Gerais; principalmente, Diamantina, São João da Chapada, e Serro. A maior parte destes escravizados era de origem Bantu (em especial da região da atual República Popular de Angola), tendo sido capturados na região da África Subsaariana ao longo do século XVIII. Embora os vissungos tenham sido trazidos no século XVIII, sobreviveram exclusivamente na tradição oral até o início do século XX. O primeiro pesquisador a registrar tais cantigas foi Aires da Mata Machado Filho, em 1928, coletando-as junto a mestres de vissungos em Diamantina[1] (Carvalho, 2006 apud Freitas e Queiroz, 2015). O trabalho “O negro e o garimpo em Minas Gerais” só foi publicado em entre 1939 e 1940, em capítulos pela Revista do Arquivo Municipal de São Paulo[2] (Filho, 1939).
Na ocasião, Aires da Mata Machado Filho publicou 65 canções com melodia, letra e “fundamentos” (traduções), além de um glossário com termos na “língua banguela”, ou “língua de Benguela”. Segundo o próprio pesquisador, as canções foram coletadas a partir de conversas com mestres cantadores da região de São João da Chapada, em Diamantina (Filho, 1939)[2] . Machado Filho também identificou um dialeto de origem bantu diferente dos encontrados em outras regiões do país[2] (Filho, 1939, p.7). O tema só foi retomado por pesquisadores novamente no início do século XXI, com o trabalho de Lúcia Nascimento (A África no Serro-Frio: Vissungos: uma prática social em extinção, 2003)[3] (Nascimento, 2022). É notável também a contribuição das pesquisadoras Neide Freitas e Sônia Queiroz, que já publicaram três edições do livro “Vissungos: Cantos dos afrodescendentes em Minas Gerais”, reunindo coletâneas de artigos sobre o tema, além de partituras. Entretanto, as próprias pesquisadoras ressaltam na 3ª edição que ainda são poucas as pesquisas acadêmicas dedicadas aos vissungos[1] (Freitas e Queiroz, 2015).
Estilo
Os cantos podem tanto ter caráter responsorial (ou seja, entoado em forma de pergunta-e-resposta), quanto serem entoados sem acompanhamento de outras vozes. Os cantos solo são chamados de boiados; os acompanhados, de dobrados[2] (Filho, 1939, p.57). Os versos podem misturar palavras de origem portuguesa com outras de origem bantu, além de vocabulário vindo de outras nações, como Nagô e Cabo Verde; há canções sem qualquer palavra em português (Freitas e Queiroz, 2015)[1]. Segundo o mestre de vissungo Antônio Crispim Veríssimo (1943-2008), a tradição dos vissungos possui profundas raízes ritualísticas, muitas das quais já se perderam[1] (Freitas e Queiroz, 2015).
Embora outros trabalhos tenham sucedido o de Aires da Mata Machado Filho, as fontes de informação permaneceram as mesmas: os mestres de vissungos ainda vivos no antigo Ciclo do Ouro. Cabe aqui fazer a distinção entre diferentes tipos de vissungos (incluindo o que foi citado acima) como o próprio Antônio Veríssimo explica na mesma entrevista.
“Agora, hoje, hoje esse povo num sabe comé que faz esses rituais. Tinha que tê um rituá. Isso só fazia, murtano, pedino quarqué coisa. Hoje em dia o povo num qué sabê de nada mais, não (sic).” (Freitas e Queiroz, 2015, p.15)
O “vissungo de multa” é uma tradição do garimpo, onde cantar pedindo fazia parte de um ritual. Quem pedia não fazia exigências e aceitava qualquer oferta de bom grado[1] (Freitas e Queiroz, p.19). Havia também vissungos para diferentes momentos de um funeral, desde o velório à caminhada ao cemitério passando pela casa dos inimigos do falecido até o enterro em si[1] (Freitas e Queiroz, 2015).
História
As primeiras comunidades de negros escravizados surgiram no eixo Diamantina, São João da Chapada, e Serro (em especial, no distrito de Milho Verde) no início do século XVIII, estendendo-se até 1818[1] (Gnerre apud Freitas e Queiroz, 2015, p.58). Nem todos os escravizados eram de origem bantu; há também registros de cativos oriundos de nações como Cabo Verde, Mina e Nagô. No entanto, cerca de 70% da comunidade local de negros africanos tinham origem bantu[1] (Gnerre apud Freitas e Queiroz, 2015, p.58). Segundo Machado Filho, como se tratavam de “comunidades isoladas” do resto do país, mantiveram sua língua materna por mais tempo, além de desenvolver de forma única, em sincretismo com a língua de outras nações, além do português[2] (Filho, 1939).
Os vissungos eram cantados durante atividades comunitárias do dia-a-dia. Não apenas ajudavam a suportar a brutalidade dos trabalhos forçados, como também eram cantados em festejos e funerais. Acima de tudo, eram cantados como forma de resistência e preservação da própria cultura. No entanto, após a Lei Áurea (1888), os trabalhos forçados coletivos foram gradualmente saindo das minas e parte das canções foi se perdendo. Os poucos mestres cantadores ainda vivos recordam apenas três tipos de vissungos: de trabalho, multa, ou enterro[4] (Gusson, 2009).
Compositores e Intérpretes
Devido à sua origem na tradição oral, não há como apontar quem seriam os compositores destes vissungos. Vieram da África junto com os escravizados, passando por transformações e sincretismos no Brasil. Segundo Machado Filho, o próprio dialeto bantu que aparece nos vissungos sofreu transformações[2]. No entanto, nenhum dos mestres de vissungos entrevistados por acadêmicos reivindicou qualquer tipo de autoria. Ao contrário, colocam-se como porta-vozes de seus antepassados, mantendo viva uma tradição de tempos imemoriais. Assim como os trabalhos acadêmicos, a discografia dedicada aos vissungos é pequena, porém valiosa. Em 1982, Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela, gravaram o álbum “O Canto dos Escravos” contendo 14 vissungos, ou “cantos”. Em 2025, Negoativo lançou o álbum “Arco Ancestral e os Vissungos das Gerais” e o grupo Vozes Vissungueiras lançou o álbum Andambi.
Discografia
- Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela: O Canto dos Escravos (1982)
- Zé Márcio: Violas e Vissungos (2016)
- Felipe Mancini: Vissungos – Dos Cantos para as Cordas (2025)
- Vozes Vissungueiras: Andambi (2025)
- Noegoativo: Arco Ancestral e os Vissungos das Gerais (2025)
Referências
- Filho, Aires da Mata Machado. O negro e o garimpo em Minas Gerais. Ano V. ed. São Paulo: Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, v. LX, 1939.
- Freitas, Neide.; Queiroz, Sonia. Vissungos: cantos afrodescendentes em Minas Gerais. 3ª edição (revisada e ampliada). ed. FALE/UFMG, Belo Horizonte, 2015.
- Nascimento, Lúcia Valéria do. A África no Serro Frio - Vissungos de Milho Verde e São João da Chapada. Belo Horizonte: Dissertação (Mestrado em Linguística), 2003.
- Vissungo - Fragmentos da tradição oral. Produção: Cassio Brasil. Direção: Cassio Gusson. [S.l.]: CurtaDoc. 2009.
Ver também
Vissungo - Fragmentos da tradição oral. CurtaDoc, 2009.
XV Reunião de Antropologia do Mercosul
34ª Reunião Brasileira de Antropologia
Ligações externas
- ↑ a b c d e f g h i Vissungos: cantos afrodescendentes em Minas Gerais. [S.l.]: Fale - Ufmg. 19 de janeiro de 2015
- ↑ a b c d e f Machado Filho, Aires Da Mata (29 de agosto de 2007). O Negro E O Garimpo Em Minas Gerais. Col: Coleção Reconquista Do Brasil - 2ª Série. [S.l.]: Itatiaia
- ↑ Nascimento, Lúcia (11 de abril de 2022). A África no Serro Frio: Vissungos. São Paulo, SP: Editora Dialética
- ↑ Gusson, Cassio (2009). «Vissungo - Fragmentos da tradição oral». CurtaDoc. Consultado em 26 de novembro de 2025