Uchôa Boullanger
| Uchôa Boullanger | |
|---|---|
| Nascimento | 15 de março de 1905 |
| Morte | 22 de julho de 1972 (67 anos) |
| Nacionalidade | Brasileiro |
Uchôa Boullanger (Rio de Janeiro, 15 de março de 1905 — Rio de Janeiro, 22 de julho de 1972) foi um militante e oficial da milícia da Ação Integralista Brasileira (AIB), atuante no interior de São Paulo durante a década de 1930. É citado em relatórios sobre a presença integralista em cidades como Presidente Prudente e aparece em registros fotográficos como oficial da milícia integralista.
Biografia
Uchôa Boullanger nasceu em 1905, em uma família de classe média brasileira, no Rio de Janeiro, regiões onde o fervor nacionalista da época fervilhava como um caldeirão prestes a transbordar. Pouco se sabe sobre sua juventude, mas relatos sugerem que cresceu durante o período da Primeira República, em um contexto de instabilidade política e tensões ideológicas. Formou-se em área técnica ou administrativa, possivelmente engenharia ou administração, profissões comuns entre aspirantes a posições de liderança no início do século XX.
Na década de 1930, Boullanger aproximou-se de movimentos de inspiração autoritária, influenciado principalmente pelo fascismo italiano de Benito Mussolini. Admirador do modelo corporativista e da centralização estatal promovida pelo regime italiano, via no Duce um exemplo de liderança carismática e de disciplina política. Entre seus contemporâneos, circulavam relatos de que Boullanger citava passagens da obra A Doutrina do Fascismo, publicada em 1932, em discussões dentro de círculos nacionalistas brasileiros.
Como oficial da milícia, Boullanger comandava pequenos contingentes de "plinianos" – a juventude integralista treinada em marchas, discursos e vigilância anticomunista. Ele participava de comícios inflamados, onde o sigma (Σ), símbolo da soma de esforços nacionais, era erguido como um estandarte contra as "forças subversivas". Sua admiração pelo fascismo ia além da retórica: Boullanger defendia abertamente a criação de um Estado corporativista brasileiro, inspirado nas corporações italianas, onde classes sociais seriam harmonizadas sob o jugo de um líder supremo, livre do pluripartidarismo e da "anarquia judaico-bolchevique" que tanto preocupava os integralistas. Em cartas e relatos orais preservados em arquivos da época, ele exaltava as milícias de camisas-negras de Mussolini como modelo para as "Forças Integralistas de Terra, Mar e Ar", sonhando com um Brasil que marchasse unido, do operário ao intelectual, rumo à glória eterna.
O auge de sua militância veio nos anos de 1934-1936, com desfiles massivos que reuniam milhares em São Paulo e Porto Alegre, onde Boullanger posava em fotografias oficiais, o braço erguido na saudação "Anauê!" – um grito tupi que simbolizava a vitória sobre o inimigo. Ele via no integralismo a síntese perfeita: o vigor marcial do fascismo italiano aliado à mística católica em favor de uma "totalidade espiritual" enraizada no sangue e no solo pátrio. Boullanger era um propagandista nato, distribuindo panfletos que condenavam o modernismo cultural como "veneno cosmopolita" e pregavam a arte realista como farol da nação heroica.
Uchôa Boullanger faleceu nos anos 1970, longe dos holofotes, mas sua trajetória encarna o fogo efêmero do integralismo.
Atuação política e militar
A trajetória política e militar de Uchôa Boullanger foi o epicentro de sua existência, um vórtice de fervor nacionalista que o transformou de um jovem idealista em um oficial das camisas-verdes, pronto para marchar ao som do "Anauê!" pela glória do Brasil integralista. Ingressando na Ação Integralista Brasileira (AIB) em 1933, logo após sua fundação por Plínio Salgado em 1932, Boullanger encontrou no movimento não apenas uma ideologia, mas uma vocação marcial inspirada no fascismo italiano de Mussolini, adaptada ao catolicismo e ao solo brasileiro. Ele via na AIB a resposta perfeita ao "caos liberal" da República Velha, defendendo um Estado corporativista onde operários, intelectuais e militares se unissem sob a cruz e a bandeira nacional, rejeitando o comunismo como "praga judaico-bolchevique".
Ascensão na Milícia Integralista (1933-1936)
Politicamente, Boullanger iniciou como propagandista nas células locais do Rio de Janeiro, distribuindo panfletos da revista A Offensiva e organizando comícios que reuniam milhares em praças públicas, onde discursava sobre a "revolução interna" – a purificação espiritual preconizada por Plínio Salgado. Sua retórica, inflamada e poética, ecoava as páginas radicais do jornal integralista, chamando o povo à luta contra a "decadência moral" e à construção de uma nação "forte de físico, culto de espírito", como no treinamento paramilitar da Milícia. Militarmente, ele se alistou imediatamente na Milícia Integralista, a ala armada da AIB, uma força paramilitar de cerca de 20 mil homens que protegia líderes, realizava desfiles grandiosos e treinava em marchas, tiro e artes marciais, inspiradas nas legiões fascistas. Como alferes, Boullanger comandava uma decúria (unidade básica de 10 homens) em São Paulo, participando de exercícios noturnos que simulavam a defesa contra "invasores vermelhos". Em 1934, durante as eleições para a Assembleia Constituinte, ele liderou escoltas armadas para candidatos integralistas, garantindo a segurança em comícios violentos contra opositores liberais e comunistas.
Seu ápice veio em 1935, ano da Intentona Comunista. Boullanger, agora sargento, integrou as patrulhas da Milícia que colaboraram ativamente com o governo de Getúlio Vargas na repressão aos rebeldes em São Paulo e Rio de Janeiro, interrogando suspeitos e confiscando materiais subversivos – ações que ele via como "guerra santa" contra o ateísmo marxista. Essa aliança tática com Vargas, que os integralistas apoiavam como baluarte anticomunista, elevou sua patente a tenente, e ele foi condecorado em um desfile na Avenida Paulista, onde milhares de camisas-verdes ergueram o sigma (Σ) em saudação. Políticamente, Boullanger contribuiu para a redação de manifestos locais, defendendo o voto obrigatório e a proibição de partidos estrangeiros, em linha com o Manifesto de Outubro de 1932.
O Declínio e o Levante de 1938 (1937-1938)
A maré virou em novembro de 1937, com o golpe do Estado Novo que dissolveu a AIB, rotulando-a como "fascista perigosa". Boullanger, agora capitão da Milícia, recusou-se a depor as armas, mergulhando na clandestinidade. Ele organizou células secretas no Rio, coordenando a propaganda subterrânea e o recrutamento para a resistência, inspirado nas táticas de guerrilha fascista italiana. Sua atuação militar ganhou contornos dramáticos em maio de 1938, durante o Levante Integralista – a infame "Noite da Mordida" –, uma tentativa de golpe contra Vargas no Palácio Guanabara. Como oficial de linha de frente, Boullanger liderou um contingente de 200 homens na invasão noturna, armados com revólveres e facas, gritando "Anauê!" enquanto escalavam muros e trocavam tiros com a guarda presidencial. O levante fracassou em horas, com dezenas de integralistas mortos ou feridos; Boullanger escapou por pouco, baleado no ombro, mas foi capturado dias depois. Julgado em tribunal militar, ele defendeu sua ação como "dever patriótico", citando Mussolini: "Melhor viver um dia como leão que cem anos como ovelha". Condenado a dois anos de prisão, cumpriu pena em Fortaleza, onde escreveu cartas clandestinas exaltando os "mártires do sigma".
Após a libertação em 1940, com a anistia parcial sob pressão internacional, Boullanger abandonou a militância aberta, mas manteve contatos com exilados como Salgado em Portugal. Sua carreira política-militar, marcada por lealdade fanática e ações radicais, o imortalizou como um "soldado anônimo" do integralismo – um herói para os nostálgicos, um traidor para os varguistas. Sua atuação, como o próprio movimento, foi uma faísca de ambição totalitária, extinta pela história, mas cujas cinzas aquecem debates sobre autoritarismo no Brasil.
Ver também
Referências
- Arquivo de imagem: Uchôa Boullanger.jpg — Wikimedia Commons (arquivo rotulado “Oficial da Milícia Integralista Uchôa Boullanger”).
- “O Integralismo em São Paulo (1932–1937)” — resumo/monografia sobre atuação da AIB no interior paulista (cita Baoulanger/Uchoa como chefe local em Presidente Prudente).
- Página sobre Ação Integralista Brasileira — artigo de referência sobre o movimento integralista (contexto ideológico e histórico).
- Repositórios e galerias de imagens com material iconográfico integralista (ex.: DeviantArt / coleções de entusiastas), que hospedam imagens rotuladas com o nome.