Tyrteu Rocha Vianna

Tyrteu Rocha Vianna
Nascimento
22 de novembro de 1898

Morte
21 de setembro de 1963

Nacionalidadebrasileiro
Áreaadvocacia
FormaçãoDireito
Movimento(s)Modernismo

Tyrteu Rocha Vianna (São Francisco de Assis, Rio Grande do Sul, 22 de novembro de 1898 - Alegrete, 21 de setembro de 1963) foi um poeta de vanguarda, radioamador, e grande proprietário de terras do Rio Grande do Sul, Brasil. Tem sido considerado pela crítica como um dos mais dotados ou o maior dos modernistas do início do século XX no Rio Grande do Sul.

Biografia

Tyrteu em 1961

Filho de Francisco Pereira Vianna, conhecido como Chico, e de Maria Amélia da Rocha Vianna, chamada Maruca, Tyrteu Rocha Vianna nasceu em 1898 no município de São Francisco de Assis, no Rio Grande do Sul. Seus pais, inicialmente estabelecidos em Taquari, transferiram-se posteriormente para São Francisco de Assis, onde se casaram e fixaram residência.

Seu nome foi escolhido em homenagem ao poeta grego Tirteu, do século VII a.C.

Proveniente de família abastada, Tyrteu viveu em Porto Alegre onde cursou a Faculdade de Direito de Porto Alegre, formando-se em 1922. Durante o período em que viveu na capital gaúcha, é mencionado em relatos como simpatizante do Sport Club Internacional.

Em 1919, aos 21 anos, Tyrteu perdeu o pai, Francisco Pereira Vianna, que havia exercido o cargo de delegado de polícia em 1890. Sua mãe faleceu em 1927 e, com a realização do inventário, Tyrteu herdou parte significativa do patrimônio familiar. Os Rocha Vianna figuraram entre famílias influentes de São Francisco de Assis, atuando como Estancieiros e exercendo liderança política local.

Após a morte de seus pais, Tyrteu importou da Inglaterra dois cães da raça Buldogues, aos quais deu os nomes Chico e Maruca, em homenagem aos pais. Fato curioso é que o mesmo comunicava-se em inglês com os animais, em razão de sua origem.

Além da formação Jurídica, destacou-se como Radioamador. Em 2 de outubro de 1923, fixou residência defronte à praça central de São Francisco de Assis, então denominada Praça 15 de Novembro, atualmente Praça Coronel Manoel Viana, onde instalou um Rádio-transmissor.Em 1925, passou a ser reconhecido como o primeiro radioamador do Rio Grande do Sul. É apontado também como o quinto radioamador do Brasil, tendo construído o próprio equipamento.

Tyrteu foi sócio-fundador da Associação Brasileira de Radioamadores (ABRA), participando da cerimônia de inauguração realizada em 6 de março de 1926, na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. O evento contou com a presença de mais de cinquenta radioamadores de diversos estados brasileiros, entre eles Alberto Couto Fernandes e João Valle, e resultou na fundação da primeira entidade nacional voltada à congregação dos radioamadores brasileiros.

Durante a Revolução de 1930, Tyrteu com seu rádio, seguiu para o Rio de Janeiro junto a Getúlio Vargas no trem da revolução.

As terras da família Vianna, em São Francisco de Assis, eram vizinhas às propriedades de Vargas. No período da Segunda Guerra Mundial, atuou na interceptação e tradução de mensagens em línguas estrangeiras, atividade que, segundo fontes biográficas, lhe teria rendido a confiança do então presidente. Após o conflito, chegou a ser cogitado para o cargo de [[embaixador do Brasil no Japão, proposta que não se concretizou em razão de comportamentos associados ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas durante sua permanência na então capital federal.

Após a conclusão do curso de Direito, retornou a São Francisco de Assis, onde exerceu a Advocacia por curto período. Posteriormente, em 1955, mudou-se para Alegrete, fixando residência na cidade e passando a colaborar com a revista Cadernos do Extremo-Sul. Em julho de 1959, publicou nessa revista o poema “Versos para um tordilho chamado Maomé”, considerado o único texto de sua autoria amplamente conhecido fora do livro Saco de viagem. Mesmo após deixar São Francisco de Assis, visitou a cidade em diversas ocasiões.

Antes de se estabelecer definitivamente em Alegrete, residiu por curto período no Rio de Janeiro, onde estudou pintura. Realizou viagens pela Europa e recebia, por intermédio da Livraria do Globo, publicações editoriais nacionais e estrangeiras. Segundo relatos, Tyrteu viveu por parte das rendas provenientes de propriedades rurais, dedicando-se a atividades como a caça e a pesca, mantendo um modo de vida descrito como solitário e introspectivo. As mesmas fontes mencionam seu forte apego aos cães, aspecto recorrente em descrições de sua rotina.

Embora Tyrteu tivesse diversos filhos adotivos, registros biográficos indicam que não se envolveu em relacionamentos amorosos duradouros nem se casou. Ainda segundo esses relatos, sob efeito de álcool apresentava comportamentos considerados agressivos e provocadores por parentes e amigos, enquanto, em estado sóbrio, era descrito como afável, gentil e desinibido.

Após reveses financeiros, processos judiciais e períodos de prisão, passou a viver em hotéis e enfrentou momentos de mendicância. Posteriormente, veio a residir com um amigo que possuía um bolicho[1], onde recebeu amparo.

Menciona-se também seu apreço por objetos de cristal, por seus cães e por livros, tendo reunido uma biblioteca pessoal e umapinacoteca consideradas seletivas, posteriormente dispersas após seu falecimento. Críticos e memorialistas o descrevem como um leitor voraz e uma figura excêntrica, comparação que levou Itálico Marcon a aproximá-lo da imagem do “louco genial”, em referência ao dramaturgo gaúcho Qorpo Santo.

Em escrituras públicas de testamento lavradas em 1957, no município de Uruguaiana, Tyrteu Rocha Vianna declarou-se Católico apostólico romano.

Algumas fotos de Tyrteu

Vida como poeta

Saco de viagem 1928

Possivelmente o único poeta moderno do extremo sul do Brasil a desenvolver uma poesia de vanguarda nas primeiras décadas do século XX, Tyrteu Rocha Vianna destacou-se no Modernismo sul-rio-grandense por uma produção literária radical e experimental. Seu único livro publicado, Saco de Viagem (1928), apresenta características formais associadas ao Cubismo e ao Futurismo, além de referências evidentes ao modernismo brasileiro em especial à obra de Oswald de Andrade. A coletânea também explora o humor característico do movimento modernista, frequentemente direcionado a fatos da política local e às cidades vizinhas, bem como o uso de Neologismos e recursos linguísticos vinculados à fala regional do gaúcho.

Há poucas informações sistematizadas sobre o trabalho literário de Tyrteu, embora fosse reconhecido publicamente como poeta em sua cidade natal, participando de tertúlias e encontros culturais com amigos. Sua obra futurista e de caráter antropofágico, Saco de Viagem, concluída em 1927, chama a atenção pelo contexto em que foi produzida: uma cidade pequena, de forte perfil rural, localizada no sudoeste do Rio Grande do Sul, em um período marcado pela dificuldade de acesso a informações culturais atualizadas e por conflitos armados, como a Revolução de 1923, que teve São Francisco de Assis como um de seus palcos.

Críticos e memorialistas apontam Tyrteu como um poeta de vanguarda radical, cuja poética se manteve visceralmente ligada aos princípios estéticos inaugurados pela Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Nesse sentido, chegou a ser comparado ao Oswald de Andrade, sendo descrito como um dos modernistas mais ortodoxos e revolucionários da poesia regional, além de crítico implacável dos costumes e das convenções literárias de seu tempo.

O vanguardismo de Tyrteu é frequentemente associado à sua atuação como radioamador pioneiro e ao domínio de línguas estrangeiras, fatores que teriam ampliado seu contato com ideias e movimentos culturais externos. Saco de Viagem foi dedicado ao médico revolucionário Dr. Heitor Guimarães e ao Dr. La Hire Guerra, juiz de direito em Alegrete, que homenageou os mortos nos combates de 1923 ocorridos na praça central de São Francisco de Assis.

A publicação do livro foi financiada com recursos próprios do autor e realizada pela Livraria do Globo, em Porto Alegre, em 1928. Segundo relatos de seu filho adotivo, Oscar Ferreira da Costa, Tyrteu pretendia inicialmente imprimir apenas dez exemplares, destinados a amigos próximos, por considerar que a obra não deveria circular amplamente. Informado de que a impressão exigia uma tiragem mínima de mil exemplares, custeada integralmente por ele, o poeta autorizou a produção dessa quantidade, mas mandou personalizar apenas os dez exemplares desejados, com o nome do destinatário impresso em cada um.

A poética de Saco de Viagem e o reconhecimento póstumo do autor

Saco de viagem, versão crítica de Itálico Marcon de 1993

Os poemas de "Saco de Viagem" exploram regionalismos da fala, neologismos e fusões de palavras, fazendo, às vezes, recordar a poesia daquele que é reconhecido como o maior poeta peruano de todos os tempos, César Vallejo, em seu livro "Trilce" (1922). Um certo humor antropófago comparece neles. A estrutura dos poemas é formada por versos que operam por fragmentação e síntese, usando técnica de montagem semelhante às de Eisenstein no cinema,[2] de Oswald de Andrade em poemas de Pau-Brasil e de Blaise Cendrars, em seus poemas mais curtos, e de Maiakovski, em sua fase inicial. Certamente, usa técnicas cubistas, herdadas via futurismo (veja o texto "A tradição anti-futurista", de Apollinaire). Não utilizou-se de grafismos como os futuristas italianos, o que talvez fosse uma impossibilidade tecnológica na época, e isso talvez explique porque uma parte do livro se chame "Vontade de versos futuristas".

A relação de Tyrteu com o futurismo marinettiano manifesta-se sobretudo no plano formal e conceitual. Embora não tenha adotado os grafismos radicais dos futuristas italianos nem publicado manifestos, sua poesia dialoga com princípios centrais do futurismo, como a ruptura sintática, a justaposição abrupta de imagens e a busca por uma linguagem em estado de tensão permanente.

É considerado, hoje, um dos mais dotados poetas do modernismo no Rio Grande do Sul.[3] e, segundo Itálico Marcon (poeta, crítico literário, ensaísta e um dos maiores bibliófilos do Brasil), o maior modernista do Rio Grande do Sul, tendo sido a obra de Tyrteu apresentada a ele por Érico Veríssimo, entre outras personalidades.[4]

Por outro lado, mesmo aqueles ensaístas que, como Luís Augusto Fischer o consideram meramente um "modernista regionalista" e opinam que o autor não teria alcançado "excelência", o incluem na lista dos melhores poetas gaúchos do modernismo.[5]

A simples leitura dos poemas de "Saco de viagem", disponível na Internet, poderia responder às dúvidas do leitor.[6]

Tyrteu Rocha Vianna tornou-se nome de biblioteca pública na cidade de Manoel Viana, Rio Grande do Sul, no ano de 2008.

Referências

Ligações externas