Trompe-l'oeil

"Huyendo de la crítica" (Fugindo da crítica), de Pere Borrell del Caso (1875)

Trompe-l'oeil (Pronúncia francesa; literalmente, "engana o olho"; do francês trompe, "engana" + l', "o" + oeil, "olho") é uma técnica artística que, com truques de perspectiva, cria uma ilusão ótica que faz com que formas de duas dimensões aparentem possuir três dimensões. Provém de uma expressão em língua francesa que significa "engana o olho" e é usada principalmente em pintura ou arquitetura.[1]

Em inglês, também pode ser escrita sem o hífen e a ligadura, como trompe l'oeil.[2]

História

A expressão tem origem no artista Louis-Léopold Boilly, que a utilizou como título de uma pintura exibida no Salão de Paris de 1800.[3] Embora o termo só tenha ganhado difusão no início do século XIX, a técnica ilusionista associada ao trompe-l'œil remonta a períodos muito mais antigos.[4]

Uma versão de uma antiga história grega, frequentemente contada, trata de uma disputa entre dois pintores renomados. Zeuxis (nascido por volta de 464 a.C.) produziu uma pintura de natureza-morta tão convincente que pássaros desceram para bicar as uvas pintadas. Um rival, Parrásio, pediu que Zeuxis julgasse uma de suas pinturas, que estava atrás de um par de cortinas esfarrapadas em seu ateliê. Parrásio pediu que Zeuxis puxasse as cortinas; porém, quando Zeuxis tentou fazê-lo, não conseguiu, pois as cortinas faziam parte da própria pintura de Parrásio; o que fez dele o vencedor.[5]

Quadratura

As pinturas em trompe-l'œil tornaram-se muito populares na pintura flamenga e, posteriormente, na pintura holandesa do século XVII, a partir do desenvolvimento da pintura de natureza-morta. O pintor flamengo Cornelis Norbertus Gysbrechts criou uma pintura chantourné que mostra um cavalete sustentando uma pintura. Chantourné significa literalmente “recortado” e refere-se a uma representação em trompe-l'œil concebida para se afastar da parede.[6] O pintor holandês Samuel Dirksz van Hoogstraten foi um mestre do trompe-l'œil e teorizou sobre o papel da arte como imitação vívida da natureza em seu livro de 1678, Introdução à Academia da Pintura, ou o Mundo Visível (Inleyding tot de hooge schoole der schilderkonst: anders de zichtbaere werelt, Roterdã, 1678).[7][8]

Uma forma fantasiosa de trompe-l'œil arquitetônico, o quodlibet, apresenta pinturas de itens como facas de papel, cartas de baralho, fitas e tesouras representados de maneira realista, como se tivessem sido deixados ali por acaso.[9]

O trompe-l'œil também pode ser encontrado pintado sobre mesas e outros móveis, nos quais, por exemplo, um baralho pode parecer estar pousado sobre a superfície. Um exemplo particularmente impressionante pode ser visto na Chatsworth House, em Derbyshire, onde uma das portas internas parece ter um violino e um arco suspensos, em um trompe-l'œil pintado por volta de 1723 por Jan van der Vaart.[10]

No século XX, a partir da década de 1960, o americano Richard Haas e muitos outros pintaram grandes murais em trompe-l'œil nas laterais de edifícios urbanos. Desde o início da década de 1980, quando o artista alemão Rainer Maria Latzke passou a combinar a arte clássica do afresco com conteúdos contemporâneos, o trompe-l'œil tornou-se cada vez mais popular em murais de interiores. O pintor espanhol Salvador Dalí utilizou a técnica em diversas de suas obras.[11]

Em outras formas de arte

O trompe-l'œil é empregado na famosa cena “Running up the wall”, de Donald O’Connor, no filme Singin’ in the Rain (1952). Durante o final do número “Make ’em Laugh”, ele primeiro corre por uma parede real. Em seguida, corre em direção ao que parece ser um corredor, mas, quando também corre por esse “corredor”, percebemos que se trata de um grande mural em trompe-l'œil. Mais recentemente, Roy Andersson fez uso de técnicas semelhantes em seus longas-metragens.[12]

Elsa Schiaparelli fez uso frequente do trompe-l'œil em seus designs, talvez de forma mais célebre no Bowknot Sweater, que alguns consideram o primeiro uso do trompe-l'œil na moda. O Tears Dress, criado em colaboração com Salvador Dalí, apresenta tanto lágrimas em aplique no véu quanto lágrimas em trompe-l'œil no próprio vestido.[13]

No bairro Near North Side, em Chicago, Richard Haas utilizou um antigo hotel-apartamento de 1929, convertido em edifício residencial em 1981, para criar murais em trompe-l'œil em homenagem à arquitetura da Escola de Chicago. Um dos lados do edifício apresenta o Chicago Board of Trade Building, concebido como um reflexo do prédio localizado a cerca de duas milhas ao sul.[14][15]

O Palazzo Salis, em Tirano, na Itália, utilizou ao longo dos séculos e em diversas partes do palácio o trompe-l'œil no lugar de alvenaria real mais cara, bem como de portas, escadarias, varandas e drapeados, a fim de criar uma ilusão de suntuosidade e opulência.[16]

O videoclipe da banda OK Go para a música “The Writing’s on the Wall” utiliza diversas ilusões de trompe-l'œil juntamente com outras ilusões ópticas, registradas em um único plano-sequência.[16] Ilusões de trompe-l'œil também têm sido usadas como mecânicas de jogo em videogames como The Witness e Superliminal.[17]

O cineasta e animador japonês Isao Takahata considerava importante alcançar uma sensação de trompe-l'œil em seu trabalho, afirmando que um mundo animado deveria parecer como se “existisse ali mesmo”, para que “as pessoas acreditem em um mundo de fantasia e em personagens que ninguém viu na realidade”.[18]

Atrações turísticas que empregam arte ilusória em grande escala, permitindo que visitantes se fotografem em cenas fantásticas, foram inauguradas em vários países asiáticos, como o Trickeye Museum e o Hong Kong 3D Museum.[19] Recentemente, um Trick Art Museum foi inaugurado na Europa e utiliza abordagens mais fotográficas.[20]

Artistas

Renascimento

Século XIX e Modernos

Contemporâneos

  • Ellen Altfest
  • Martin Battersby
  • Julian Beever
  • Daniela Benedini
  • Henri Bol
  • Henri Cadiou
  • Dan Colen
  • Piero Fornasetti
  • Ronald Francis
  • Joanne Gair
  • Frederic Gracia
  • Richard Haas
  • Jonty Hurwitz
  • Lorena Kloosterboer
  • Rainer Maria Latzke
  • Attila Meszlenyi
  • István Orosz
  • Os Gêmeos
  • Jacques Poirier
  • Susan Powers
  • John Pugh
  • Pierre-Marie Rudelle
  • Graham Rust
  • Gavin Turk
  • Anthony Waichulis
  • Kurt Wenner
  • Raymond A. Whyte
  • Tavar Zawacki

Ver também

Referências

  1. Tymieniecka, Anna-Teresa (2006). Human Creation Between Reality and Illusion. Berlim: Springer Science & Business Media. p. 259. ISBN 1402035780 
  2. «National Gallery of Art - Deceptions and Illusions: Five Centuries of Trompe l'Oeil Painting 1 of 12». www.nga.gov. Consultado em 12 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 8 de novembro de 2004 
  3. Taws, Richard (9 May 2019). "At the National Gallery". London Review of Books 40 (9): 26–27.
  4. "Illusionism". Grove Art Online. (2003).
  5. "Parrhasius". Oxford Reference. Retrieved 2022-08-26.
  6. «The Arrow in the Eye: Illusion, Delusion, Collusion, and Perceptual Paradox (page 3)». www.webexhibits.org. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  7. Merriam, Susan (2012). Seventeenth-century Flemish Garland Paintings: Still Life, Vision, and the Devotional Image. Surrey, England: Ashgate Publishing. ISBN 978-1-4094-0305-0. OCLC 720899635.
  8. Weststeijn, Thijs (2008). The Visible World: Samuel van Hoogstraten's Art Theory and the Legitimation of Painting in the Dutch Golden Age (em inglês). [S.l.]: Amsterdam University Press. ISBN 978-90-8964-027-7. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  9. James Stevens Curl (9 de março de 2006). A Dictionary of Architecture and Landscape Architecture (Oxford Paperback Reference). Internet Archive. [S.l.]: Oxford University Press, USA. ISBN 978-0-19-280630-7. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  10. «Violin and bow hanging on a door by Vaardt, Jan van der at Chatsworth House». art.chatsworth.org (em inglês). Consultado em 12 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 21 de fevereiro de 2014 
  11. LaFountain, Marc J.; Lafountain, Marc J. (1 de janeiro de 1997). Dali and Postmodernism: This Is Not an Essence (em inglês). [S.l.]: SUNY Press. ISBN 978-0-7914-3325-6. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  12. Bateman, Conor (11 de junho de 2015). «A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence – An Interview with Cinematographer István Borbás». 4:3 (em inglês). Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  13. «Spike Art Magazine Search». Spike. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  14. «The City as Artifact». www.encyclopedia.chicagohistory.org. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  15. «Mural, Homage to the Chicago School, by Richard Haas, 1980». www.encyclopedia.chicagohistory.org. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  16. «Rooms». Palazzo Salis (em inglês). 7 de setembro de 2017. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  17. Plait, Phil (17 de junho de 2014). «The Writing's on the Wall». Slate (em inglês). ISSN 1091-2339. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  18. Shih, Albert (10 de dezembro de 2019). «Perception is Reality: Superliminal Coming to PS4». PlayStation.Blog (em inglês). Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  19. «The Straits Times - Breaking news, Singapore news, Asia and world news & multimedia». The Straits Times (em inglês). Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  20. «El museo donde tú eres parte de la obra». Diario ABC (em espanhol). 15 de dezembro de 2021. Consultado em 12 de janeiro de 2026 

Bibliografia

  • Illusion in art, M.L. d'Otrange Mastai, Abaris Books, New York
  • Images of deception, Célestine Dars, Phaidon
  • L'œil ébloui, Georges Perec et Cuchi White
  • Le XIXe siècle des panoramas, Bernard Comment, Adam Biro

Ligações externas