Trepadeira-de-bico-vermelho

Trepadeira-de-bico-vermelho
Machos com uma faixa preta acima e atrás dos olhos, em Sabá, Malásia
Machos com uma faixa preta acima e atrás dos olhos, em Sabá, Malásia
Estado de conservação
Espécie pouco preocupante
Pouco preocupante (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Passeriformes
Família: Sittidae
Gênero: Sitta
Espécie: S. frontalis
Nome binomial
Sitta frontalis
Swainson, 1820

A trepadeira-de-bico-vermelho (Sitta frontalis)[1] é uma pequena ave da ordem Passeriformes da família das trepadeiras, encontrada no sul da Ásia, desde o Nepal, Índia, Sri Lanka e Bangladesh até o sul da China e Indonésia. Como outras trepadeiras, alimenta-se de insetos na casca das árvores, forrageando em troncos e galhos. Suas garras fortes permitem descer troncos ou mover-se pela parte inferior de galhos horizontais. Habita florestas com boa cobertura arbórea e frequentemente é vista em bandos mistos de forrageamento, junto a outras espécies. Machos adultos podem ser identificados por uma faixa preta que passa por trás e acima dos olhos. Possuem um chamado rápido e repetitivo. Nidificam em cavidades ou buracos em árvores, muitas vezes criados por pica-paus ou barbichas.

Descrição

A trepadeira-de-bico-vermelho apresenta a forma típica das trepadeiras, com cauda curta, bico e patas robustos. Mede cerca de 12,5 cm de comprimento. É azul-violeta na parte superior, com bochechas lavanda, partes inferiores bege, olhos amarelos e garganta esbranquiçada. A íris é nitidamente pálida e amarela. O bico é vermelho, e há uma mancha preta na testa e nos loros, bem desenvolvida em adultos e menos evidente em aves jovens. Jovens possuem bico escuro e pontas escuras nas penas da parte inferior da cauda.[2] Machos adultos são distinguíveis pela faixa superciliar preta que passa acima do olho e se estende pela cabeça até a nuca.[3][4]

Fêmeas não possuem a faixa superciliar e têm uma coloração mais quente nas partes inferiores. Jovens são versões mais opacas dos adultos, sem a faixa preta frontal. As populações variam em tonalidade, tamanho e na distribuição do branco na garganta.[4]

Taxonomia e sistemática

Ilustração de Swainson, 1820

A trepadeira-de-bico-vermelho é próxima da trepadeira-de-bico-amarelo, trepadeira-azurita e trepadeira-filipina. Alguns autores sugeriram colocá-las em um gênero separado, Oenositta (proposto por Hans Edmund Wolters [en] em 1979),[5] o que seria inadequado, pois o clado, embora distinto morfologicamente, está aninhado dentro de outras espécies de Sitta.[6] O grupo inclui várias formas com uma história taxonômica complexa; por exemplo, oenochlamys já foi tratada como subespécie de frontalis.[7] A espécie foi descrita validamente por Swainson, que também criou o gênero Dendrophila para ela. No entanto, Brian Hodgson [en] já havia usado Dendrophila para uma espécie de perdiz. Swainson usou o nome dado por Horsfield, que denominou a ave como Orthorynchus frontalis, mas Horsfield publicou apenas em 1821, dando prioridade a Swainson.[8][9][10]

Cerca de cinco populações são amplamente reconhecidas como subespécies, mas algumas podem ser tratadas como espécies filogenéticas:[11]

  • S. f. frontalis Swainson, 1820 – a forma nominal ocorre nas florestas montanhosas do sul da Índia, incluindo os Gates Ocidentais, Gates Orientais, florestas centrais da Índia e no Sri Lanka. A população do Himalaia também é incluída, embora o nome corallina Hodgson, 1836 possa ser mais apropriado para essa população, com indivíduos ligeiramente menores (contrariando a regra de Bergmann). O nome simplex, proposto por Walter Koelz [en] em 1939 para aves do sul de Bombaim, é considerado sinônimo. A população do Himalaia se estende de Uttarakhand até Bangladesh, Tailândia, Myanmar, istmo de Kra e possivelmente Hong Kong, onde pode ser uma espécie introduzida. O nome chienfengensis foi proposto por Tso-hsin Cheng [en], 1964, para as aves de Ainão, China.[7]
  • S. f. saturatior E. J. O. Hartert, 1902 – distribuída na Península da Malásia ao sul do istmo de Kra, incluindo Penão, Singapura, o arquipélago de Lingga e Sumatra.
  • S. f. corallipes (Sharpe, 1888) – encontrada em Bornéu, estendendo-se até a ilha Maratua.
  • S. f. palawana E. J. O. Hartert, 1905 – Palawan e Balabac, nas Filipinas ocidentais.
  • S. f. velata Temminck, 1821 – Java.[12]

O uso de ectoparasitas como Brueelia para esclarecer a filogenia da espécie é pouco confiável, pois a trepadeira compartilha a mesma espécie de Brueelia com papa-moscas (Rhipidura e Ficedula), possivelmente porque esses parasitas são foréticos, transferindo-se entre hospedeiros por meio de moscas-varejeiras.[13]

Habitat e ecologia

Uma fêmea de S. f. frontalis com uma presa (distrito de Kodagu [en])

A trepadeira-de-bico-vermelho é uma ave residente em todos os tipos de florestas, de decíduas a perenes. Nos Sundarbans, é encontrada em florestas de mangue Sonneratia [en].[14] Também vive em florestas secundárias e utiliza árvores de sombra em plantações de café no sul da Índia.[4]

Como outras trepadeiras, possui garras fortemente curvadas[15] que permitem descer troncos verticalmente, ao contrário de espécies como pica-paus, que só sobem. Move-se de forma brusca para cima, para baixo ou ao redor de galhos e troncos. É uma alimentadora ativa de insetos e aranhas, coletados na casca de troncos e galhos, e pode ser encontrada em bandos mistos com outras aves da ordem Passeriformes.[16][17] No Sri Lanka, os insetos que ela perturba são às vezes capturados pelo drongo-de-raquetes-grande [en].[18]

É uma ave barulhenta, frequentemente localizada por seu chamado repetitivo “sit-sit-sit”.[4]

Adultos passam por uma muda completa pós-nupcial que começa no final de junho no norte da Índia.[19]

Parasitas Plasmodium, incluindo Haemoproteus, foram detectados em seu sangue.[20][21][22] Ácaros do gênero Neodectes também são encontrados na espécie.[23]

Reprodução

Os ninhos são construídos em buracos ou fendas de árvores, forrados com musgo, pelos, penas ou grama. A temporada de reprodução no norte da Índia ocorre no verão, de abril a junho, e no sul da Índia e no Sri Lanka, de janeiro a maio. Diferentemente de outras trepadeiras, diz-se que não usam lama para estreitar a entrada do ninho.[24] São depositados de três a seis ovos, brancos com pintas vermelhas.[4] A fêmea passa mais tempo incubando, mas ambos os pais se revezam na alimentação dos filhotes.[25]

Na cultura

Por ser uma pequena ave florestal, apenas algumas tribos que habitam florestas conhecem a espécie. O povo Lotha Naga [en] caça muitas aves para alimentação, mas a trepadeira-de-bico-vermelho é geralmente evitada devido à crença de que matá-la traria infortúnio ao caçador. Acredita-se que, por forragearem em bandos, os membros do grupo permanecem por perto se um é morto, e, segundo os Lotha, eles esperariam para serem mortos, e o caçador logo veria pessoas ao seu redor morrerem em rápida sucessão.[26] O povo Soliga [en] a chama de maratotta ou "saltadora de árvores".[27]

Referências

  1. a b BirdLife International. (2024). «Sitta frontalis». Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. 2024: e.T22711216A263902563. Consultado em 29 de dezembro de 2024 
  2. Rasmussen, P.C.; Anderton, J.C. (2005). Birds of South Asia. The Ripley Guide. Volume 2. [S.l.]: Smithsonian Institution & Lynx Edicions. pp. 538–540 
  3. Whistler, Hugh (1949). Popular Handbook of Indian Birds 4 ed. London: Gurney and Jackson. pp. 30–31 
  4. a b c d e Ali, Salim; Ripley, S. Dillon (1998). Handbook of the Birds of India and Pakistan. Volume 9. Robins to Wagtails. 2 ed. Delhi: Oxford University Press. pp. 229–230 
  5. Mlíkovský, J. (2012). «Note on the dating of Wolters's "Vogelarten der Erde. Eine systematische Liste mit Verbreitungsangaben sowie deutschen und englischen Namen"». Zoological Bibliography. 2: 118–122 
  6. Pasquet, Eric; Barker, F. Keith; Martens, Jochen; Tillier, Annie; Cruaud, Corinne; Cibois, Alice (2014). «Evolution within the nuthatches (Sittidae: Aves, Passeriformes): Molecular phylogeny, biogeography, and ecological perspectives». Journal of Ornithology. 155 (3): 755–765. Bibcode:2014JOrni.155..755P. doi:10.1007/s10336-014-1063-7 
  7. a b Paynter, R.A. Jr., ed. (1967). Check-list of birds of the world. 12. Cambridge, Mass.: Museum of Comparative Zoology. pp. 142–143 
  8. Swainson, W. (1820). Zoological illustrations. Volume I. [S.l.]: Printed by R. and A. Taylor for Baldwin, Cradock, and Joy; and W. Wood 
  9. Robinson, H.C.; Kloss, C.B. (1924). «The birds of South-West and Peninsular Siam». Journal of the Natural History Society of Siam. 5 (3): 219–397 
  10. Whistler, Hugh (1941). «The Avifaunal Survey of Ceylon conducted jointly by the British and Colombo Museums». Spolia Zeylanica. 23 (3–4): 119–321 
  11. Dickinson, E.C. (2006). «Systematic notes on Asian birds. 62. A preliminary review of the Sittidae.». Zool. Med. Leiden. 80 (14): 225–240 
  12. Quaisser, C.; R.W.R.J. Dekker (2006). «Systematic notes on Asian birds. 67. Taxonomic identity and lectotype designation of Sitta velata Temminck, 1821.». Zool. Med. Leiden. 80 (19): 311–314 
  13. Johnson, Kevin P.; Adams, R. J.; Clayton, Dale H. (2002). «The phylogeny of the louse genus Brueelia does not reflect host phylogeny». Biological Journal of the Linnean Society. 77 (2): 233–247. doi:10.1046/j.1095-8312.2002.00107.x 
  14. Law, S. C. (1948). «On the occurrence of Sitta frontalis Swains. & Sitta castanea Less. in Khulna Sundarbans.». J. Bombay Nat. Hist. Soc. 47: 733–734 
  15. Pike, A. V. L.; Maitland, D. P. (2004). «Scaling of bird claws». Journal of Zoology (em inglês). 262 (1): 73–81. ISSN 0952-8369. doi:10.1017/s0952836903004382 
  16. Kwok, Hon-Kai (2009). «Foraging ecology of insectivorous birds in a mixed forest of Hong Kong». Acta Ecologica Sinica. 29 (6): 341–346. Bibcode:2009AcEcS..29..341K. ISSN 1872-2032. doi:10.1016/j.chnaes.2009.09.014 
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  18. Satishchandra, S.H.K.; Kudavidanage, E.P.; Kotagama, S.W.; Goodale, E. (2007). «The benefits of joining mixed-species flocks for Greater Racket-tailed Drongos Dicrurus paradiseus» (PDF). Forktail. 23: 145–148 
  19. Vaurie, Charles (1950). «Notes on some Asiatic nuthatches and creepers» (PDF). American Museum Novitates (1472) 
  20. McClure, H.E.; Poonswad, P.; Greiner, E.C.; Laird, M. (1978). Haematozoa in the birds of eastern and southern Asia. St.John's, Newfoundland, Canada: University of Newfoundland Press 
  21. Silva-Iturriza, Adriana; Ketmaier, Valerio; Tiedemann, Ralph (2012). «Prevalence of avian haemosporidian parasites and their host fidelity in the central Philippine islands». Parasitology International. 61 (4): 650–657. ISSN 1383-5769. PMID 22819957. doi:10.1016/j.parint.2012.07.003 
  22. Chen, Tien-Huang; Aure, Wilfredo E.; Cruz, Estrella Irlandez; Malbas, Fedelino F.; Teng, Hwa-Jen; Lu, Liang-Chen; Kim, Kyeong Soon; Tsuda, Yoshio; Shu, Pei-Yun (27 de novembro de 2015). «Avian Plasmodium infection in field-collected mosquitoes during 2012-2013 in Tarlac, Philippines». Journal of Vector Ecology (em inglês). 40 (2): 386–392. ISSN 1081-1710. PMID 26611975. doi:10.1111/jvec.12178Acessível livremente 
  23. Byers, K.A.; H.C. Proctor (2014). «Like a glove: do the dimensions of male adanal suckers and tritonymphalfemale docking papillae correlate in the Proctophyllodidae (Astigmata: Analgoidea)?». Acarologia. 54 (1): 3–14. doi:10.1051/acarologia/20142110Acessível livremente 
  24. Oates, E.W. (1889). The Fauna of British India, including Ceylon and Burma. Birds. Volume I. London: Taylor and Francis. pp. 307–308 
  25. Phillips, W.W.A. (1939). «Nest and Eggs of Ceylon Birds.». Ceylon Journal of Science. 21 (2): 113–137 
  26. Mills, J.P. (1922). The Lhota Nagas. London: Macmillan and Co. p. 75 
  27. Agnihotri, Samira; Si, Aung (2012). «Solega Ethno-Ornithology». Journal of Ethnobiology. 32 (2): 185–211. doi:10.2993/0278-0771-32.2.185 

Ligações externas