Elão

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Elão
2 700 — 539 a.C. 
Região
Capital Susa
Países atuais Irã

Línguas oficiais elamita

Período histórico
• 2 700  Fundação
• 539 a.C.  Dissolução

Elão ou Elam ([ˈləm]; elamita linear:hatamti; elamita cuneiforme: 𒁹𒄬𒆷𒁶𒋾 ḫalatamti; sumério: 𒉏𒈠 elam; acadiano: 𒉏𒈠𒆠 elamtu ; em hebraico: עֵילָם ʿēlām; persa antigo: hūja)[1][2] foi uma civilização antiga centrada no extremo oeste e sudoeste do atual Irã, estendendo-se desde as terras baixas do que hoje é o Cuzistão e a província de Ilão, bem como uma pequena parte do sul do Iraque. O nome moderno Elão deriva da transliteração suméria elam(a), junto com o elamtu acadiano posterior e o elamita haltamti. Os Estados elamitas estavam entre as principais forças políticas do Antigo Oriente Próximo.[3] Na literatura clássica , Elão também é conhecido como Susiana (em grego clássico: Σουσιανή, Sousiānḗ), nome derivado de sua capital Susã.[4]

Elão fez parte da urbanização inicial do Oriente Próximo durante o período Calcolítico (Idade do Cobre). O surgimento de registros escritos por volta de 3000 a.C. também é paralelo à história suméria, onde registros ligeiramente anteriores foram encontrados.[5][6] No período elamita antigo (Idade do Bronze Média), Elão consistia em reinos no planalto iraniano, centrados em Ansã, e a partir de meados do segundo milênio a.C., foi centrado em Susã, nas terras baixas do Cuzistão. Sua cultura desempenhou um papel crucial durante a dinastia persa aquemênida que sucedeu Elão, quando a língua elamita permaneceu entre as de uso oficial. O elamita é geralmente considerado uma língua isolada, sem relação com nenhuma outra língua. De acordo com correspondências geográficas e arqueológicas, alguns historiadores argumentam que os elamitas constituem uma grande parte dos ancestrais dos modernos luros cuja língua, o iuri, se separou do persa médio.[7]

Etimologia

A inscrição de Behistun permitiu grandes avanços na decifração da escrita cuneiforme e na redescoberta da língua elamita.

O endônimo da língua elamita para Elão como país parece ter sido hatamti ( em elamita linear),[8][9] ou haltamti (elamita cuneiforme: 𒁹𒄬𒆷𒁶𒋾 halatamti).[10] Os exônimos incluíam os nomes sumérios NIM.MAki 𒉏𒈠𒆠 e ELAM, o acádio elamû (masculino/neutro) e elamītu (feminino) significava "residente de Susiana, elamita".[11]

História

Antecedentes

Embora o termo "Elão" apenas surja na documentação escrita a partir do século III a.C., as descobertas arqueológicas realizadas em diversos sítios do sudoeste do Irão para o final do período proto-histórico (do início do século IV ao início do século III a.C.) demonstraram que é possível situar nessa época o aparecimento dos primeiros Estados na região. A influência da vizinha Mesopotâmia desempenhou um papel relevante nesses desenvolvimentos, embora a sua natureza e intensidade exatas — variáveis ao longo dos séculos — ainda não tenham sido plenamente determinadas. No estado atual dos conhecimentos, permanece impossível afirmar se essas primeiras experiências estatais envolveram efetivamente populações elamitas, mesmo quando se utiliza a designação de fase «proto-elamita». Ainda assim, numerosos investigadores sublinharam as semelhanças entre este período e o do Elão histórico.

As origens do Estado no sudoeste iraniano

O século IV a.C. constitui um período marcado por profundas transformações sociais, identificáveis em várias regiões do sudoeste do Irão, em particular na Susiana. Observa-se um processo de crescente complexificação social paralelo ao registado na Baixa Mesopotâmia durante os mesmos séculos — correspondentes ao período de Uruk —, embora de maneira menos acentuada.

A primeira fase de ocupação de Susa, designada «Susa I» (c. 4000–3700 a.C.), caracteriza-se pelo aparecimento de uma arquitetura monumental, nomeadamente uma «alta plataforma» situada na acrópole do sítio[12]. Algumas impressões de selos deste período representam uma figura que P. Amiet qualificou como «proto-real»[13].

O período seguinte, «Susa II» (c. 3700–3300 a.C.)[14], assiste à crescente abertura da Susiana à influência urukiana da Baixa Mesopotâmia. Esta manifesta-se na adoção do selo cilíndrico e de sistemas de contabilidade (bulas com fichas), culminando no aparecimento das primeiras tabuletas com sinais de escrita de origem mesopotâmica, essencialmente de natureza contabilística[15]. Está-se, assim, perante uma sociedade dotada de estruturas económicas e políticas progressivamente mais complexas, que exigem instrumentos administrativos mais elaborados. Fenómenos semelhantes são observados noutro importante sítio regional, Chogha Mish. Durante este período, o povoamento da Susiana torna-se mais denso[16], enquanto se desenvolvem a estatuária e a metalurgia do cobre. A glíptica desta fase é marcada pela figura designada por P. Amiet como «rei-sacerdote», interpretada como a representação de uma personagem de estatuto régio. Pode considerar-se que, nesta etapa, a Susiana se encontra dominada por uma entidade estatal. Subsiste, contudo, a questão da natureza da influência mesopotâmica: se se tratou de um processo de emulação cultural gradual ou de uma dominação política direta, como a que se observa no milénio seguinte[17].

Mais a leste, nas regiões montanhosas do Fars, as transformações são substancialmente menos marcadas e a influência mesopotâmica revela-se limitada ou mesmo inexistente. Ainda assim, identificam-se mudanças em Tell-i Bakun, onde foram encontradas evidências de metalurgia do cobre e impressões de selos que indicam a existência de formas incipientes de controlo e gestão, geralmente interpretadas como um embrião de administração local[18].

O período proto-elamita

Tabuleta em escrita proto-elamita proveniente de Susa, Museu do Louvre.

O declínio da civilização de Uruk no Médio Oriente, nos últimos séculos do século IV a.C., caracteriza-se pelo surgimento de várias culturas regionais que se desenvolveram, em parte, a partir do seu legado. No sudoeste iraniano, este processo corresponde à emergência da chamada cultura «proto-elamita», denominação atribuída por J.-V. Scheil à escrita deste período[19]. Esta designação baseia-se no facto de o período ser frequentemente interpretado como apresentando já numerosos traços associados ao Elão histórico. Contudo, a documentação disponível não permite determinar se é legítimo falar, nesta fase, de Elão ou de elamitas. A escrita proto-elamita, construída a partir da herança do sistema urukiano, mas recorrendo a sinais distintos, foi apenas parcialmente decifrada[20]. Encontra-se exclusivamente atestada em tabuletas de carácter administrativo e contabilístico, sendo desconhecida a língua dos seus utilizadores.

O período proto-elamita, datado aproximadamente entre 3100 e 2900 a.C., é arqueologicamente atestado em vários sítios do Irão, nomeadamente nos níveis 16 a 10 de Susa (período Susa III)[21], no Banesh médio de Tell-e Malyan (Anshan), no nível IV de Tepe Sialk e no nível IV C de Tepe Yahya[22]. Estes sítios apresentam contextos arqueológicos muito próximos, sugerindo que integravam, neste período, um conjunto cultural relativamente homogéneo.

Outro fenómeno relevante desta fase é a expansão de determinados marcadores da cultura proto-elamita em direção ao Planalto Iraniano, nomeadamente das tabuletas com escrita proto-elamita, encontradas até Shahr-i Sokhteh, no Sistão[20]. Tal expansão poderá refletir atividades comerciais levadas a cabo por grupos proto-elamitas. Esta cultura é geralmente considerada como originária das regiões montanhosas de Anshan, atendendo ao crescimento do sítio de Tell-e Malyan neste período e ao facto de a cultura material dominante parecer ter aí a sua origem[23]. As regiões vizinhas, em particular a planície de Susa — onde as prospeções arqueológicas indicam um declínio do povoamento —, teriam ficado sob a influência ou mesmo sob a dominação dos grupos montanheses de Anshan. Esta interpretação foi, contudo, questionada por D. Potts, segundo o qual Susa permaneceu uma cidade poderosa e próspera durante este período, sendo inclusivamente o local onde a escrita proto-elamita terá sido desenvolvida[24]

Geografia

Linha do tempo de Elam.

Em termos geográficos, Susiana representa basicamente a província iraniana do Cuzistão, ao redor do rio Karun. Nos tempos antigos, vários nomes eram usados para descrever esta área. O antigo geógrafo Ptolomeu foi o primeiro a chamar a área de Susiana, referindo-se à região ao redor de Susa. Outro geógrafo antigo, Estrabão, via Elão e Susiana como duas regiões geográficas diferentes. Ele se referiu a Elão ("terra dos elimaei") principalmente como a área montanhosa do Cuzistão.[25]

Desentendimentos sobre a localização também existem nas fontes históricas judaicas, diz Daniel T. Potts. Algumas fontes antigas fazem uma distinção entre Elão, como a área montanhosa do Cuzistão, e Susiana, como a área baixa. No entanto, em outras fontes antigas, 'Elão' e 'Susiana' parecem equivalentes.[25] Potts discorda ao sugerir que o termo "Elão" foi construído principalmente pelos mesopotâmicos para descrever a área em termos gerais, sem se referir especificamente aos habitantes das terras baixas ou das terras altas.[26]

Religião

Em termos religiosos, os Elamitas praticavam politeísmo e a religião matriarcal. Uma das mais importantes figuras do panteão foi a deusa Kiririsha, um nome com cognatos encontrados em outros sistemas de crença de povos desta região. "O fato de que a precedência foi dada a uma deusa, a qual estava acima dos demais deuses do panteão elamitas, indica que os devotos elamitas seguiam o matriarcado nesta religião... No terceiro milênio, estas deusas exibiam um indiscutível poder à frente do panteão elamita".[27] Segundo o The Cambrigde ancient history: "a predominância de uma deusa é provavelmente um reflexo da prática do matriarcado que sempre caracterizou a civilização elamita em maior ou menor grau".[28] O Elão é a primeira cultura desenvolvida do Irã e, ao lado da Suméria, é considerada a mais desenvolvida sociedade da história antiga.[27]

Ver também

Referências

  1. «Elam (GN)». Oracc: The Open Richly Annotated Cuneiform Corpus 
  2. «Elamtu [ELAM] (GN)». Oracc: The Open Richly Annotated Cuneiform Corpus 
  3. Elam: surveys of political history and archaeology, Elizabeth Carter and Matthew W. Stolper, University of California Press, 1984, p. 3
  4. Skolnik, Fred; Berenbaum, Michael (2007). Encyclopaedia Judaica, Volume 6. [S.l.: s.n.] ISBN 978-0028659343 
  5. Hock, Hans Heinrich (2009). Language History, Language Change, and Language Relationship: An Introduction to Historical and Comparative Linguistics 2nd ed. [S.l.]: Mouton de Gruyter. ISBN 978-3110214291 
  6. Gnanadesikan, Amalia (2008). The Writing Revolution: Cuneiform to the Internet. [S.l.]: Blackwell. ISBN 978-1444304688 
  7. Edwards, I.E.S.; Gadd, C.J.; Hammond, G.L. (1971). The Cambridge Ancient History 2nd ed. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 9780521077910 
  8. Desset (2020a).
  9. Desset (2020b).
  10. «Iranian plateau gave birth to writing: French archaeologist». MSN 
  11. Jeremy Black; Andrew George; Nicholas Postgate, eds. (1999). A Concise Dictionary of Akkadian. [S.l.]: Harrassowitz Verlag. ISBN 3-447-04225-7 
  12. Suse, 2002, col. 403–409
  13. P. Amiet, « Glyptique susienne archaïque », Revue d'assyriologie et d'archéologie orientale 51, 1957, p. 127
  14. Suse, 2002, col. 409–413
  15. A. Le Brun e F. Vallat, « Les débuts de l’écriture à Suse », Cahiers de la DAFI 8, 1978, p. 11–59
  16. (em inglês) G. Johnson e H. Wright, « Regional Perspectives on Southwest Iranian State Development », Paléorient 11/2, 1985, p. 25–30
  17. Suse, 2002, col. 412–413
  18. Potts, 1999, p. 50–52 e 70–72
  19. Potts, 1999, p. 71 e 74
  20. a b (em inglês) R. K. Englund, « iii. Proto-elamite », Encyclopædia Iranica Online, 1998 (disponível em http://www.iranicaonline.org/)
  21. Suse, 2002, col. 413–417
  22. (em inglês) E. Carter, « ii. The archaeology of Elam », Encyclopædia Iranica Online, 1998 (disponível em http://www.iranicaonline.org/)
  23. Por exemplo: (em inglês) J. R. Alden, « Trade and politics in Proto-Elamite Iran », Current Anthropology 23, 1982, p. 613–640; P. Amiet, « Sur l'histoire Élamite », Iranica Antiqua 27, 1992, p. 81
  24. Potts, 1999, p. 81–83
  25. a b D. T. Potts, The Archaeology of Elam: Formation and Transformation of an Ancient Iranian State. Cambridge World Archaeology. Cambridge University Press, 2015 ISBN 1107094690 p11
  26. The Archaeology of Elam (excerpt) Arquivado em 20 outubro 2016 no Wayback Machine assets.cambridge.org/
  27. a b African presence in early Asia, p.26, 27
  28. [1] The cambridge ancient history, p. 400

Ligações externas

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