Regimes urbanos

Regimes Urbanos (Urban Regimes) é uma teoria da Ciência Política e dos Estudos Urbanos que busca explicar como as cidades são governadas e como as políticas urbanas são produzidas. Desenvolvida principalmente por Clarence N. Stone, cientista político norte-americano, a teoria dos regimes urbanos enfatiza a importância da cooperação entre atores governamentais e não governamentais para a governança eficaz das cidades[1]. Explica a formação de coalizões para mobilizar recursos para capacidade de governança e compara regimes com base em tarefas e necessidades de recursos.

A partir do caso das cidades norte-americanas, o modelo dos Regimes Urbanos entende que o poder está associado à capacidade de realizar projetos e políticas. O poder político depende da capacidade de mobilizar recursos do setor privado e liderar políticas baseadas em coalizões entre atores públicos e privados [2]. Enfatiza o imperativo de se produzir as coalizões para gerar os recursos e as capacidades necessárias para governar, já que elas não estão simplesmente disponíveis e prontas para se pegar por meios eleitorais ou outros.

As coalizões podem impulsionar várias agendas e políticas diferentes, a favor ou contra o crescimento, por exemplo. Essas coalizões não seriam baseadas apenas nos interesses dos atores privados, mas também do eleitorado das elites políticas e das burocracias responsáveis por implementar as políticas públicas.

Origens e Fundamentos

A teoria dos regimes urbanos surgiu como uma crítica ao pluralismo clássico e ao marxismo estruturalista, buscando uma abordagem que reconhecesse a importância tanto da política quanto da economia na formação das políticas urbanas a partir do conceito de regimes. Assim, regimes são um conjunto de arranjos pelos quais são superadas a divisão do trabalho entre, de um lado, as instituições políticas que são controladas por representantes eleitos por disputas livres e competitivas nas eleições e, de outro, os atores e instituições da economia de mercado que controlam majoritariamente, mas não exclusivamente, as decisões de investimento.[3]

O pluralismo clássico assume que o poder é disperso na sociedade e que o governo é um árbitro neutro entre os diferentes grupos de interesse. A teoria dos regimes urbanos argumenta que o poder é concentrado em coalizões de atores que cooperam para alcançar objetivos comuns.

O marxismo estruturalista vê o Estado como um instrumento da classe dominante. A teoria dos regimes urbanos reconhece a importância das forças econômicas, mas argumenta que a política tem um papel autônomo na formação das políticas urbanas.

A teoria dos regimes urbanos possui os seguintes conceitos chave:

Coalizão de Governo (governing coalition): Atores governamentais e não governamentais que cooperam para governar a cidade e produzir políticas urbanas.

Regime: Um conjunto de arranjos pelos quais a divisão de trabalho entre atores governamentais e não governamentais é organizada para alcançar objetivos comuns.

Capacidade de governo (governing capacity): A habilidade de uma coalizão de governo de mobilizar recursos e coordenar ações para alcançar seus objetivos.

Produção social de poder (social production of power): A ideia de que o poder não é apenas uma questão de coerção, mas também de cooperação e mobilização de recursos.

Os três fatores

De acordo com Clarence Stone, as políticas públicas são moldadas por três fatores principais:

Composição da coalizão

Este primeiro elemento diz respeito a quem está incluído na coalizão de governo e quais interesses eles representam. Ele foca na identificação dos atores que compõem a coalizão de governo e nos seus respectivos interesses. A coalizão de governo, no contexto da teoria dos regimes urbanos, não se limita apenas aos atores formais do governo (como prefeitos, vereadores e secretários), mas também inclui atores não governamentais, como empresários, líderes comunitários, organizações não governamentais e outras figuras influentes na cidade.

A inclusão de diferentes atores na coalizão de governo reflete a necessidade de mobilizar recursos diversos para a governança urbana. Cada ator traz consigo seus próprios interesses e objetivos, que podem ser complementares ou conflitantes. Por exemplo, um empresário pode estar interessado em promover o crescimento econômico da cidade, enquanto um líder comunitário pode estar mais preocupado com a justiça social e a qualidade de vida dos moradores.

A composição da coalizão de governo pode variar ao longo do tempo, dependendo das questões em pauta e dos interesses em jogo. Em alguns casos, a coalizão pode ser dominada por atores do setor privado, como empresários e incorporadores imobiliários, enquanto em outros casos pode ser mais diversificada, incluindo representantes de diferentes setores da sociedade.

Para entender a composição da coalizão de governo em uma determinada cidade, é importante identificar os principais atores envolvidos, seus respectivos interesses e como eles interagem entre si.

As relações na coalizão

Este segundo elemento se concentra em como os membros da coalizão interagem e cooperam entre si na dinâmica das relações de governo municipal. A simples presença de diferentes atores na coalizão não garante a governança eficaz da cidade. É preciso que esses atores sejam capazes de interagir e cooperar entre si para alcançar objetivos comuns.

A natureza das relações entre os membros da coalizão pode variar, desde relações de colaboração e confiança mútua até relações de conflito e competição. Em alguns casos, os membros da coalizão podem ter objetivos convergentes e trabalhar juntos de forma harmoniosa. Em outros casos, podem ter objetivos divergentes e precisar negociar e comprometer para chegar a um acordo.

A capacidade da coalizão de governo de superar conflitos e construir consensos é fundamental para a governança eficaz da cidade. A natureza das relações entre os membros da coalizão pode ser influenciada por diversos fatores, como a cultura política da cidade, a história das relações entre os diferentes atores e a liderança do prefeito ou de outras figuras influentes.

Recursos disponibilizados

Este terceiro elemento destaca a importância dos recursos que os membros da coalizão de governo podem mobilizar para a governança urbana. Os recursos podem ser financeiros (como investimentos privados, financiamentos públicos e doações), políticos (como apoio eleitoral, influência sobre as políticas públicas e capacidade de mobilização) e sociais (como legitimidade, conhecimento técnico e apoio da sociedade civil).

A capacidade da coalizão de governo de mobilizar recursos é fundamental para a implementação de políticas públicas e para a realização de projetos urbanos. Sem recursos adequados, a coalizão pode ter dificuldades para alcançar seus objetivos e para atender às necessidades da população. A capacidade da coalizão de governo de combinar e coordenar os diferentes tipos de recursos é fundamental para que políticas e projetos sejam realizados.

Tipos de Regimes Urbanos

Clarence Stone propôs uma tipologia de regimes urbanos com base na natureza das tarefas de governo que eles empreendem:

Regimes de manutenção: Focados na prestação de serviços de rotina e na manutenção do status quo.

Regimes de desenvolvimento: Focados no crescimento econômico e no desenvolvimento urbano.

Regimes progressistas de classe média: Focados em questões como proteção ambiental, preservação histórica e habitação acessível.

Regimes de expansão de oportunidades para a classe baixa: Focados na melhoria das oportunidades educacionais e econômicas para os residentes de baixa renda.

Aplicações da Teoria do Regime Urbano em Contextos Contemporâneos

A teoria do regime urbano continua a ser amplamente aplicada e adaptada à análise política urbana contemporânea, com estudos recentes a abordar os desafios da globalização, da financeirização, da equidade e da governança multiescalar, sobretudo em contextos de cidades dos Estados Unidos e Europa[4][5][6][7].

Os regimes urbanos são cada vez mais moldados pelo capital transnacional e pelo desenvolvimento urbano financeirizado, como observado nos projetos imobiliários de Milão, onde governos locais e agentes financeiros colaboram em uma estrutura mutuamente dependente[4].

O governo pós-austeridade de Madri demonstrou o potencial das colaborações entre a sociedade civil e o público para formar regimes urbanos progressistas focados em inovações sociais, mas esses regimes enfrentam desafios para sustentar prioridades de longo prazo voltadas para a equidade [5].

Em Minneapolis, os regimes urbanos de políticas alimentares e climáticas ilustram como os "blocos de construção" da estrutura de Stone — coalizões, agendas e mobilização de recursos — podem governar iniciativas progressistas[6].

Críticas à Teoria dos Regimes Urbanos

Persistem desafios na extensão da teoria do regime para além dos Estados Unidos, com os críticos observando que a sensibilidade aos contextos locais muitas vezes limita sua utilidade comparativa[7][8][9]. A teoria seria muito moldada pelo contexto institucional norte-americano, que é muito descentralizado, com poucas transferências intergovernamentais e recursos escassos em nível municipal, criando muitos incentivos para a competição entre cidades pela atração de investimentos para renovação urbana[10].

Alguns críticos argumentam que a teoria dos regimes urbanos negligencia o papel do conflito e da competição na política urbana. A existência de uma governança urbana cada vez mais fragmentada torna rara a formação de regimes coesos. O próprio Stone reconhece a necessidade de integrar “atrito e desordem” como principais impulsionadores da mudança de coalizão[11][12].

O Estado, suas instituições e burocracias acabam sendo pouco tematizados, ainda que não houvesse nenhum imperativo teórico para sustentar sua irrelevância[13].

Ver também

Referências

  1. Stone, Clarence N. (março de 1993). «Urban Regimes and the Capacity to Govern: A Political Economy Approach». Journal of Urban Affairs (em inglês) (1): 1–28. ISSN 0735-2166. doi:10.1111/j.1467-9906.1993.tb00300.x. Consultado em 26 de março de 2025 
  2. Stone, Clarence N. (março de 1993). «Urban Regimes and the Capacity to Govern: A Political Economy Approach». Journal of Urban Affairs (em inglês) (1): 1–28. ISSN 0735-2166. doi:10.1111/j.1467-9906.1993.tb00300.x. Consultado em 27 de março de 2025 
  3. Elkin, Stephen L. (março de 1985). «Twentieth Century Urban Regimes». Journal of Urban Affairs (em inglês) (2): 11–28. ISSN 0735-2166. doi:10.1111/j.1467-9906.1985.tb00080.x. Consultado em 26 de março de 2025 
  4. a b Conte, Veronica; Anselmi, Guido (1 de setembro de 2022). «When large-scale regeneration becomes an engine of urban growth: How new power coalitions are shaping Milan's governance». Environment and Planning A (em inglês) (6): 1184–1199. ISSN 0308-518X. doi:10.1177/0308518X221100828. Consultado em 25 de abril de 2025 
  5. a b Medina-García, Clara; de la Fuente, Rosa; Van den Broeck, Pieter (5 de janeiro de 2021). «Exploring the Emergence of Innovative Multi-Actor Collaborations toward a Progressive Urban Regime in Madrid (2015–2019)». Sustainability (em inglês) (1). 415 páginas. ISSN 2071-1050. doi:10.3390/su13010415. Consultado em 25 de abril de 2025 
  6. a b Shey, Jane E; Belis, David (1 de outubro de 2013). «Building a Municipal Food Policy Regime in Minneapolis: Implications for Urban Climate Governance». Environment and Planning C: Government and Policy (em inglês) (5): 893–910. ISSN 0263-774X. doi:10.1068/c11235. Consultado em 25 de abril de 2025 
  7. a b Lambelet, Sébastien (setembro de 2019). «Filling in the Resource Gap of Urban Regime Analysis to Make It Travel in Time and Space». Urban Affairs Review (em inglês) (5): 1402–1432. ISSN 1078-0874. doi:10.1177/1078087417740974. Consultado em 25 de abril de 2025 
  8. Pierre, Jon (1 de novembro de 2014). «Can Urban Regimes Travel in Time and Space? Urban Regime Theory, Urban Governance Theory, and Comparative Urban Politics». Urban Affairs Review (em inglês) (6): 864–889. ISSN 1078-0874. doi:10.1177/1078087413518175. Consultado em 25 de abril de 2025 
  9. Stoker, G; Mossberger, K (1 de junho de 1994). «Urban Regime Theory in Comparative Perspective». Environment and Planning C: Government and Policy (em inglês) (2): 195–212. ISSN 0263-774X. doi:10.1068/c120195. Consultado em 25 de abril de 2025 
  10. MINARELLI, G. N. Propriedade e desigualdade: IPTU e acesso à habitação em São Paulo (1995-2020). Tese de doutorado—São Paulo, Brasil: Universidade de São Paulo, 4 fevereiro 2025.
  11. Rast, Joel (1 de janeiro de 2015). «Urban Regime Theory and the Problem of Change». Urban Affairs Review (em inglês) (1): 138–149. ISSN 1078-0874. doi:10.1177/1078087414559056. Consultado em 25 de abril de 2025 
  12. Stone, Clarence N. (1 de janeiro de 2015). «Reflections on Regime Politics: From Governing Coalition to Urban Political Order». Urban Affairs Review (em inglês) (1): 101–137. ISSN 1078-0874. doi:10.1177/1078087414558948. Consultado em 25 de abril de 2025 
  13. Marques, Eduardo (julho de 2016). «De volta aos capitais para melhor entender as políticas urbanas». Novos Estudos - CEBRAP (02): 14–33. doi:10.25091/S0101-3300201600020002. Consultado em 26 de março de 2025