Quilombo do Jabaquara

O Quilombo do Jabaquara foi um quilombo localizado em Santos e fundado em 1882, por esforço de abolicionistas da elite santista, tendo como líder o ex-escravo e político santista Quintino de Lacerda. Foi um dos maiores quilombos do país, sendo estimado entre duas e 20 mil pessoas compunham esse quilombo, apenas menor em quantidade de pessoas do que o Quilombo dos Palmares.[1][2][3][4]

História do quilombo

Segundo o livro Ventos do Mar (1992),[5] o quilombo é descrito como:

[...] construíram de madeira, de palha, de taipa e de folhas de zinco numerosas barracas e habitações ligeiras de todos os gêneros. Abriram-se caminhos, criou-se um pequeno comércio de varejo e, como por encanto, surgiu da noite para o dia a mais desconchavada e pitoresca das cidades, toda cercada de roças, com o azulado fumaçar dos fornos de carvão vegetal a cobri-la perenemente.

— Maria Lucia Caira Gitahy

Existe uma certa divergência quanto à data da fundação do quilombo, boa parte dos cronistas e historiadores apontam para 1882 mas alguns indicam a data de 1886 como a mais provável já que foi neste período a chegada massiva de escravos fugidos em Santos. No entanto, as informações documentais predominantes corroboram a fundação em 1882.[4][6] Sabe-se que as terras que formaram o quilombo do Jabaquara foram provavelmente cedidas pelo italiano Bejamim Fontana.[6]

À época de fundação do quilombo, Quintino de Lacerda tinha um bom relacionamento com o povo escravo e com a elite santista abolicionista, sendo estes responsáveis por doarem uma parte das terras da formação do quilombo.[1] A formação de quilombos geralmente advinha apenas do esforço direto dos escravos foragidos, porém, no caso do Quilombo do Jabaquara sua criação veio a partir do movimento também de pessoas livres, os quais organizaram uma reunião para sua fundação. Tal reunião contou com a presença de Ricardo Pinto de Oliveira, Geraldo Leite, Xavier da Silveira, Júlio Backeuser, Américo Martins e seu irmão Francisco, Guilherme Souto, José Ignácio da Glória, Santos Pereira, Constantino de Mesquita, Afonso Veridiano, Joaquim Fernandes Pacheco, Teófilo de Arruda Mendes, Luiz de Matos, Antônio Augusto Bastos, entre outros abolicionistas. Neste reunião ficou decidido que o quilombo seria localizado no bairro do Jabaquara e Quintino seria seu líder.[7]

Quintino aceita essa responsabilidade e contou com orientações da abolicionista Dona Francisca Amália de Assis Faria, a qual já abrigava no quintal de sua casa alguns escravos fugidos e incentivava as mulheres a lutarem pelo fim da escravidão.[7]

O quilombo do Jabaquara ficou conhecido entre os escravos como uma espécie de "terra prometida", associando este local a um espaço de identidade étnica e social para esse grupo. Essa questão, associada ao fato de que antes da Lei Áurea ocorreu a criação de decretos-leis que obrigariam o pagamento de indenização a ex-escravos, estimulou a fuga em massa de escravos, a qual era apoiada por abolicionistas e inclusive por indivíduos ligados a grandes fazendeiros.[8] Assim, durante os últimos anos da escravidão a cidade de Santos recebeu uma quantidade significativa de escravos fugidos das fazendas paulistas, que se aproveitavam de uma rede bem concatenada de caifases e de abolicionistas militantes para aportar, não sem grandes dificuldades, no sopé da serra do mar.[6]

O quilombo sofreu durante sua existência uma série de litígios na justiça relacionado à manutenção da posse das terras de forma que estas eram invadidas, sofriam com a grilagem, tinham suas plantações queimadas uma vez que se localiza na terra cedida por Benjamim Fontana. Algumas pessoas não conseguiram continuar ali vivendo, pois sua única sobrevivência era do que plantavam, e assim, não tinham como sobreviver. A Comissão Sanitária da época também expulsou moradores do quilombo, sob a justificativa de insalubridade. Porém, o provável motivo foi a valorização das terras e especulação imobiliária e fundiária da época.[9]

Fisicamente, se localizava onde hoje é o sopé voltado ao bairro Jabaquara e as ruas Dr. Gastão Vidigal, Professor Celso da Cunha Alves e a Av. Dr. Waldemar Leão.[2]

Controvérsias

Existem autores que indicam um comportamento controverso em relação a atuação de Quintino diante dos abolicionistas e dos refugiados no quilombo, de modo a estar de certo forma subordinado aos abolicionistas e apresentar um comportamento autoritário frente aos aquilombados. Evidências de processos judiciais mostram que Quintino possuía a autoridade para fiscalizar os trabalhos nas roças do quilombo, mas também para influenciar os aquilombados a apresentar depoimentos na justiça e até mesmo agredir pessoas que eram uma ameaça aos líderes abolicionistas a quem ele possuía algum grau de subordinação. Dessa forma, a historiadora Maria Helena Machado apresenta que estes abolicionistas se aproveitavam desse grau de subordinação de forma a disputarem as terras e ocuparem áreas de várzeas e morros do Jabaquara.[4][6]

Assim, na visão da historiadora, talvez nem todo o quilombo possuísse total autonomia, de forma que então o quilombo do Jabaquara seja uma "brecha de quilombo" e não um quilombo por completo.[10] Uma visão similar é apresentada pela historiadora Beatriz Nascimento, que indica que o Quilombo do Jabaquara de fato não poderia ser considerado um quilombo já que não foi organizado espontaneamente por ex-escravos, mas por pessoas de fora e inclusive muitos brancos.[11] Beatriz inclusive cita que o Quilombo se configurava mais como uma grande favela, frustrando o ideal de território livre imaginado pelos escravos, no qual eles imaginaria poder se dedicar a suas práticas culturais africanas e reagir militarmente à imposição da escravidão.[8]

Ver também

Referências

  1. a b «Quilombo do Jabaquara – Folha do Pirajuçara». Folha do Pirajuçara. 22 de junho de 2023. Consultado em 20 de agosto de 2025 
  2. a b «Quilombos do Pai Felipe e do Jabaquara se tornam patrimônios culturais e históricos de Santos, SP». G1. 24 de novembro de 2022. Consultado em 20 de agosto de 2025 
  3. «Santos reconhece quilombos do Pai Felipe e do Jabaquara como patrimônios culturais e históricos». Prefeitura de Santos. 23 de novembro de 2022. Consultado em 20 de agosto de 2025 
  4. a b c Cunha, Pedro Figueiredo Alves Da (30 de agosto de 2011). «Capoeiras e valentões na história de São Paulo (1830-1930)». São Paulo. doi:10.11606/d.8.2011.tde-11092012-105013. Consultado em 22 de agosto de 2025 
  5. Gitahy, Maria Lucia Caira (1992). Ventos Do Mar: Trabalhadores Do Porto, Movimento Operario E Cultura Urbana Em Sa. [S.l.]: Editora Unesp. p. 34 
  6. a b c d Rosemberg, André (2004). Processos Sociais e Justiça em Santos, na Década de 1880 – O abolicionismo e o caso do Jabaquara (PDF). Campinas: Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. ANPUH/SP- UNICAMP 
  7. a b Barros, Kaled Ferreira (6 de setembro de 2022). Quilombo do Jabaquara: Santenses, Capoeiras e Abolicionistas. Santos, SP: Magali 
  8. a b Nascimento, Maria Beatriz; Ratts, Alex (2021). Uma história feita por mãos negras: relaçôes raciais, quilombos e movimentos. Rio de Janeiro: Zahar 
  9. Cotting, Isabella Martins [UNIFESP (6 de julho de 2023). «A abolição da escravatura e o território de Santos: quem tem direito à cidade?». Consultado em 22 de agosto de 2025 
  10. Molet, Cláudia (2014). O LITORAL NEGRO DO RIO GRANDE DO SUL, DURANTE O SÉCULO XIX: REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO DE QUILOMBO (PDF). Vitória: I Seminário Internacional "Brasil no século XIX" (UFES) 
  11. Sá, Antônio Fernando (2022). «Por uma história antirracista do Brasil – Resenha de Uma história feita por mãos negras, de Beatriz Nascimento, organizado por Alex Ratts». Crítica Historiográfica. 2 (7). Consultado em 25 de agosto de 2022