Primavera Bolkan

Primavera Bolkan (?, ? - Curitiba, 11 de março de 1992) foi uma travesti negra e pobre que se destacou no cenário dos Carnavais de Curitiba, na década de 1970. Ela usava os espaços carnavalescos dos jornais curitibanos, onde eram divulgados os desfiles do Baile dos Enxutos, para apresentar suas reivindicações.[1] Era apresentada como "prima de Florinda Bolkan".[2]

Biografia

Seu nome combina a estação do ano em que as flores desabrocham e o sobrenome de Florinda Bolkan, ícone brasileiro dos cinemas na época.[1]

O Diário da Tarde de 05 de março de 1973 a descreve como "(travesti de São Paulo) - figura magra, sem alguns dentes, vestida de azul cintilante, gesticulava com absoluta desenvoltura". Quando uma amiga contou do Concurso de Fantasias no Baile dos Enxutos, realizado na Sociedade Beneficente e Protetora dos Operários, Primavera decidiu participar. Da cidade de Curitiba não gostou que as pessoas ficavam puxando sua peruca.[1][3]

Ela também esteve no editorial policial do Diário da Tarde de 18 de novembro de 1980, pois havia sido assaltada e agredida no dia 25 de outubro por um estudante que a chamara para um programa em seu carro. Ele dissera que cancelara o programa quando descobriu se tratar de uma travesti e a empurrara para fora do carro. Primavera teria sido agradida por homens que vinham em outro carro atrás do dele, logo que saiu do carro.[1][4]

Segundo Primavera, ele a chamou para entrar no carro e, quando pararam em um local mais discreto, ele perguntou se fariam um programa e ela comentou ser travesti. Primavera conta que ele queria fazer o mais caro, mas não queria pagar nada, no que ele passou a desferir socos que causaram hematomas graves nela.[1]

Depois, Primavera é citada no Diário do Paraná, em 25 de fevereiro de 1982, junto a uma fotografia das travestis em suas fantasias: “(...) também muito aplaudido foi Primavera Bolkan, com a fantasia ‘Você tem dado em Casa?’” E, no carnaval de 1985, Primavera foi destaque no Correio de Notícias, pois recebera segundo lugar na categoria fantasia do Baile dos Enxutos, com sua fantasia "Muda Brasil", que fazia referência à redemocratização do país.[1][2]

No carnaval de 1986, o Correio de Notícias veiculou entrevista com Primavera, onde ela reclama do resultado do concurso e depois tece comentários sobre o modo como a sociedade trata os travestis:[1][5]

Para a Tribuna do Paraná, no mesmo Carnaval, ela disse:

"Ninguém dá emprego pra gente, e temos que viver como marginais, fugindo da polícia". Ela pediu que fosse instalada uma casa de shows de travestis, para abrir o mercado de trabalho em Curitiba, e se queixou da "crise econômica" que, com a Aids e a inflação, está de amargar a vida dos gays.[1]

Em 06 de maio de 1983, Primavera fez parte de matéria veiculada no Diário da Tarde sobre a prisão de 14 travestis que realizavam trottoir na Praça João Cândido. Ela protestavam contra a prisão, afirmando ter salvo conduto para utilizarem o local como ponto de prostituição.[1]

Jazigo coletivo

Primavera foi enterrada em um jazigo coletivo, que Márcia Regina doou para o sepultamento das travestis de Curitiba. A lápide de Primavera Bolkan informava seu sepultamento no dia 11 de março de 1992, uma semana após o carnaval.[1]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k GESSICA ALINE SILVA. À REVELIA DE CURITIBA: AS TRAVESTIS NA CIDADE “MODELO” (1970-1980). 2023. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Marechal Cândido Rondon, 2023.
  2. a b Correio de Notícias. Curitiba. 20 de fevereiro de I985.
  3. «Diario da Tarde (PR) - 1899 a 1983 - DocReader Web». memoria.bn.gov.br. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  4. «Diario da Tarde (PR) - 1899 a 1983 - DocReader Web». memoria.bn.gov.br. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  5. «Correio de Notícias (PR) - 1980 a 1989 - DocReader Web». memoria.bn.gov.br. Consultado em 17 de janeiro de 2026