Pretuguês

Pretuguês, pretoguês ou língua de preto é o termo tradicionalmente usado, geralmente de forma pejorativa, para referir a forma peculiar como negros e afrodescendentes moradores e provenientes do antigo Império Português transformam, interpretam e falam a língua portuguesa,[1] estando na origem das variantes africanas do português.

A partir da década de 1970, a ativista e professora brasileira Lélia Gonzalez denominou "pretuguês" um conceito linguístico e cultural da sua autoria que explora teoricamente em suas obras, que designaria a marca da africanização do português falado no Brasil, um fenômeno que reflete as profundas contribuições culturais africanas para a identidade brasileira.[2]

Origem e significado

O termo já é referido em 1524 pelo mulato Fernando della Frágoa de Amor, que encena um equívoco dueto bilingue, espanhol/«pretuguês», com uma aristocrata.[1]

Em Angola, refere-se especificamente à denominação pejorativa dada pelos colonizadores portugueses à linguagem ou linguajar híbrido português/quimbundo utilizada pela população angolana,[3] a qual acabaria por originar o actual português angolano.[4]

Em Moçambique, tal como em Angola, os desvios à norma europeia da língua portuguesa e as línguas bantas foram considerados com desdém como «pretoguês».[5]

Lélia Gonzalez

A partir da década de 1970, Lélia Gonzalez começou a usar o termo Pretuguês para nomear a maneira particular pela qual a língua portuguesa é apropriada e transformada pelas populações afrodescendentes, criando um espaço de expressão e resistência cultural.[2]

O conceito foi desenvolvido para servir como referencial, juntamente com a Amefricanidade,[6][7] na compreensão das dinâmicas de resistência e reafirmação da cultura afrodescendente na América Latina. A pesquisa da autora sobre o conceito busca examinar como a cultura afrodescendente constrói identidades e ressignifica a língua no Brasil e em outros países latino-americanos.[2]

O nome Pretuguês faz alusão ao contexto colonial, em que o colonizador chamava os africanos escravizados no Brasil de "pretos" (e os nascidos no Brasil de "crioulos").[2]

Características linguísticas

O Pretuguês se constitui pela africanização da língua portuguesa, sendo modificado pelos ritmos e tons das línguas africanas trazidas ao Brasil por populações negras escravizadas.[2]

As influências das línguas africanas são notáveis no:

  • Caráter tonal e rítmico: o Pretuguês incorpora o caráter tonal e rítmico das línguas africanas trazidas para o Novo Mundo, o que influenciou a musicalidade da fala em português no Brasil.[2]
  • Ausência de consoantes: essa africanização pode ser observada na ausência ou na transformação de certas consoantes, como o "L" ou o "R".[2]

Gonzalez (2020) aponta que essa influência linguística é um aspecto, muitas vezes, pouco explorado na análise da formação histórico-cultural do continente como um todo.[2]

Pretuguês como resistência cultural

O Pretuguês é essencial para compreender de que modo os afrodescendentes na América Latina reconstruíram suas identidades, promovendo a ressignificação da língua e do território em resistência ao colonialismo.[2]

A transformação linguística é vista como uma recriação ativa e transformadora, sendo um ato de subversão que integra elementos africanos nas línguas de domínio, em oposição à imposição cultural dos colonizadores. Lélia Gonzalez defendia que o Pretuguês é um testemunho vivo da resistência cultural e da capacidade de adaptação e criação das populações negras.[2]

O conceito promove o fortalecimento da memória e da resistência afrodescendente, além de reforçar o papel central da cultura afrodescendente na formação da identidade latino-americana.[2]

Extensão geográfica e negligência

Lélia Gonzalez observou que o Pretuguês brasileiro possui raízes comuns com outras "afro-variações" linguísticas presentes nas Américas. Ela notou certas similaridades nos falares e manifestações culturais negras em outros países do continente americano. A mesma africanização ocorreu em outras línguas coloniais, como o espanhol, o inglês e o francês, falados na região caribenha, América Central e América do Sul.[2]

Apesar de sua relevância, a influência do Pretuguês e as manifestações culturais e artísticas (como a música, a dança e os sistemas de crença) relacionadas a ele, são frequentemente obscurecidas pelo viés ideológico do branqueamento. Essas contribuições são muitas vezes recalcadas por classificações eurocêntricas como "cultura popular" ou "folclore nacional", que minimizam a importância da contribuição negra.[2]

Referências

  1. a b Barbieri, Mario (2007). «Alle origini della língua de preto : il Breve da Mourisca Ratorta di Fernão da Silveira (Cancioneiro geral di Garcia de Resende, f.xxiii r°)». Plurilinguismo letterario. [S.l.]: Rubbettino 
  2. a b c d e f g h i j k l m Santos, Antonio Nacílio Sousa dos; Felippe, José Neto de Oliveira; Souza, Luciandro Tassio Ribeiro de; Bezerra, Marcus Antonio Cunha; Sousa, Terezinha Sirley Ribeiro; Dezem, Lucas Teixeira; Saraiva, Ana Cristina Gonçalves Teixeira; Souza, Felipe Rodrigues de; Assis, Tamara Saraiva de (19 de novembro de 2024). «PRETUGUÊS E AMEFRICANIDADE: A construção do corpo-território e da língua nas manifestações culturais afro-latino-americanas segundo Lélia Gonzalez». Caderno Pedagógico (12): e10807. ISSN 1983-0882. doi:10.54033/cadpedv21n12-168. Consultado em 3 de novembro de 2025 
  3. MACÊDO, T. O ’pretoguês’ e a literatura de José Luandino Vieira. ALFA: Revista de Linguística, São Paulo, v. 36, 2001. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3917. Acesso em: 17 dez. 2025
  4. Nzau, D. G. N., Venâncio, J. C., & Sardinha, M. da G. d'Almeida. (2022). Em torno da consagração de uma variante angolana do português: subsídios para uma reflexão. Limite. Revista De Estudios Portugueses Y De La lusofonía, 7, 159-180. https://revista-limite.unex.es/index.php/limite/article/view/1489
  5. Timbane 2014, p. 5.
  6. Silva, Ana Paula Procopio da (27 de março de 2021). «Resistências negras e amefricanidade: diálogos entre Clóvis Moura e Lélia Gonzalez para o debate antirracista das relações de classe na América latina». Revista Fim do Mundo (4): 42–59. ISSN 2675-3871. doi:10.36311/2675-3871.2021.v2n4.p42-59. Consultado em 3 de novembro de 2025 
  7. Nascimento, Danielle Gonçalves Passos do (17 de dezembro de 2021). «Mas, afinal, os conceitos importam? o conceito político-cultural amefricanidade de Lélia Gonzalez e as Teorias das Relações Internacionais». Consultado em 3 de novembro de 2025 

Bibliografia

Ver também