Amefricanidade

Amefricanidade é um conceito político-cultural afrocentrado proposto pela intelectual, ativista e professora brasileira Lélia Gonzalez. O termo designa uma perspectiva de identidade e de análise que une os afrodescendentes das Américas e valoriza as raízes africanas e indígenas que estruturam a formação cultural do continente, especialmente na América Latina.[1]
O conceito foi formulado no contexto dos debates sobre diáspora africana e do reconhecimento da violência histórica contra povos africanos e indígenas no continente americano. Seu propósito central é ressaltar a centralidade dessas populações na constituição das sociedades americanas e denunciar os mecanismos de ocultamento e negação dessas raízes, especialmente aqueles ligados à ideologia do branqueamento e ao racismo.[2][3]
Origem do conceito
A categoria Améfrica Ladina emerge como um ato de interpretação e diferenciação diante da percepção de exclusão do Brasil nos debates e congressos acadêmicos que se autodefiniam como “latino-americanos”. A formulação do conceito decorre, em grande medida, das discussões apresentadas pelo psicanalista Magno Machado Dias (MD Magno) em seu seminário de 1980, nas quais se explicita a necessidade de repensar o pertencimento do Brasil a uma América Latina cujo eixo de referência repousava predominantemente na tradição hispânica e francófona.[4]
A escolha do termo Améfrica ou América-Africana responde diretamente à experiência de marginalização linguística vivida por Magno MD e Betty Milan na preparação para o Congresso Latino-Americano de Caracas, no qual o uso do português foi relegado a uma posição secundária, exigindo-se tradução simultânea aos participantes brasileiros. Essa situação funcionou como um ponto de inflexão interpretativo, levando Magno a concluir que o Brasil não se inscrevia plenamente na América Latina, sobretudo do ponto de vista do percurso do significante. A partir dessa constatação, Milan propôs a invenção da expressão “América-Africana”, designação que, ao mesmo tempo, solucionava a questão da inadequação terminológica e abria um novo horizonte de investigação teórica.[4]
A noção de Améfrica acompanha a hipótese de que a sintomática cultural brasileira se estrutura sobre um húmus africano, isto é, sobre uma base histórico-discursiva marcada pela dialética senhor-escravo, em que o elemento africano, socialmente subordinado, teria, apesar disso, vencido “a batalha discursiva”, impondo-se como matriz profunda das identificações culturais. Esse deslocamento se condensa de modo provocativo na formulação de Magno segundo a qual “o Pai é Negro”, indicando que o significante fundamental (S1) da identidade brasileira pode ser precisamente aquele que, historicamente, permaneceu dissimulado, tal como sugerido pela figura de Macunaíma, “que nasceu preto”, antes de embranquecer. Améfrica, desse modo, revela-se como nome da fundação simbólica do Brasil e, potencialmente, de boa parte do continente, enfatizando o afrocentramento em oposição à referência exclusivamente europeia inscrita na noção tradicional de América Latina.[4]
A dimensão Ladina do conceito surge no encerramento do mesmo seminário e se vincula às discussões sobre o feminino na cultura “amefricana”. Magno sugere que a cultura brasileira talvez não seja estruturada pela figura do malandro, mas pela “mulher do malandro”, cuja astúcia, resistência cotidiana e capacidade de subversão silenciosa operam como forças organizadoras da vida popular. O caráter “ladino” designa, portanto, uma ética e uma estética marcadas pela esperteza, pela habilidade estratégica e pela resistência sub-reptícia, presentes tanto na experiência histórica do escravizado quanto na figura feminina subalternizada. O neologismo “ladinamefricana” sintetiza a necessidade de examinar a letr” do sintoma cultural brasileiro para além de leituras hegemônicas ou eurocentradas.[4]
Fundamentação
A noção de Amefricanidade aparece de forma sistemática nos escritos de Gonzalez e é discutida em obras como Por um feminismo afro-latino-americano (2020).[5] Gonzalez articula a categoria com o conceito de Pretuguês, uma leitura crítica da língua portuguesa na diáspora africana, ressaltando as dinâmicas de resistência, recriação e afirmação cultural presentes nas comunidades afrodescendentes.
Ao lado da valorização dessas raízes, a Amefricanidade denuncia o que Gonzalez, apoiando-se em Sigmund Freud, chama de "denegação" da ladinoamefricanidade: um processo psíquico e político em que a sociedade nega aquilo que, inconscientemente, reconhece, produzindo efeitos como o racismo estrutural e a repressão das culturas negras e indígenas.[2][3]
Améfrica Ladina
Para desestabilizar a ideia tradicional de "latinidade", entendida como exclusivamente europeia e branca, Gonzalez consolida o termo Améfrica Ladina.[3][5] A mudança de latina para ladina é, segundo a autora, simbólica e política, remetendo ao termo histórico designado aos africanos alfabetizados e socializados nos códigos coloniais, em oposição aos chamados "boçais".[5]
Nessa perspectiva, todos os brasileiros e latino-americanos seriam ladino-amefricanos, trazendo em sua constituição cultural elementos africanos e indígenas frequentemente invisibilizados pela historiografia dominante.[5]
Características e alcance
A Amefricanidade é descrita como:
- um processo histórico de adaptação, resistência e criação cultural;[3]
- uma categoria afrocentrada, com referências a matrizes como iorubá, banto, Ewe-Fon e Akan;[3]
- um instrumento de resistência às estruturas coloniais e imperiais;[2][5]
- expressão de luta presente nas estratégias de organização social de quilombos, cimarrones, cumbes e palenques;[3]
- uma chave analítica que ultrapassa fronteiras territoriais e linguísticas e critica a apropriação estadunidense do termo "América";[3]
- conceito que dialoga com Pan-africanismo, Negritude e Afrocentricidade.[3]
Recepção e impacto
O conceito tornou-se um marco no pensamento decolonial, feminista negro e nas ciências sociais latino-americanas. Gonzalez, ao articular raça, gênero, psicanálise e marxismo, antecipou discussões contemporâneas sobre interseccionalidade.[2][5]
A Amefricanidade também tem sido discutida como ferramenta crítica para as Relações Internacionais e para os estudos sobre a diáspora africana, contribuindo para projetos teórico-metodológicos de descolonização do campo.[3]
Referências
- ↑ Ana Gretel Echazú Böschemeier; Mónica Inés Cejas (9 de novembro de 2021). «A Categoria Político-Cultural de Amefricanidade: Lélia González». Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas (1). ISSN 1984-1639. Consultado em 15 de maio de 2025
- ↑ a b c d Silva, Ana Paula Procopio da (27 de março de 2021). «Resistências negras e amefricanidade: diálogos entre Clóvis Moura e Lélia Gonzalez para o debate antirracista das relações de classe na América latina». Revista Fim do Mundo (4): 42–59. ISSN 2675-3871. doi:10.36311/2675-3871.2021.v2n4.p42-59. Consultado em 3 de novembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i Nascimento, Danielle Gonçalves Passos do (17 de dezembro de 2021). «Mas, afinal, os conceitos importam? o conceito político-cultural amefricanidade de Lélia Gonzalez e as Teorias das Relações Internacionais». Consultado em 3 de novembro de 2025
- ↑ a b c d Magno, MD (1981). AMÉFRICA LADINA: INTRODUÇÃO A UMA ABERTURA (PDF). Rio de Janeiro: Colégio Freudiano do Rio de Janeiro
- ↑ a b c d e f Santos, Antonio Nacílio Sousa dos; Felippe, José Neto de Oliveira; Souza, Luciandro Tassio Ribeiro de; Bezerra, Marcus Antonio Cunha; Sousa, Terezinha Sirley Ribeiro; Dezem, Lucas Teixeira; Saraiva, Ana Cristina Gonçalves Teixeira; Souza, Felipe Rodrigues de; Assis, Tamara Saraiva de (19 de novembro de 2024). «PRETUGUÊS E AMEFRICANIDADE: A construção do corpo-território e da língua nas manifestações culturais afro-latino-americanas segundo Lélia Gonzalez». Caderno Pedagógico (12): e10807. ISSN 1983-0882. doi:10.54033/cadpedv21n12-168. Consultado em 3 de novembro de 2025
Bibliografia
- GONZALEZ, L. Por um feminismo afro-latino-americano. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2020.
- GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: RIOS, Flávia, LIMA, Márcia (Org). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 1ª ed., 2020a, p. 127-138.
- MAGNO, M. D. Améfrica Ladina: introdução a uma abertura. Rio, Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, 1981.
- SANTOS, A. N. S. dos. et. al. PRETUGUÊS E AMEFRICANIDADE: A construção do corpo-território e da língua nas manifestações culturais afro-latino-americanas segundo Lélia Gonzalez. Caderno Pedagógico, v. 21, n. 12, p. 168, 2024.
- SILVA, Ana Paula Procopio da. Resistências negras e amefricanidade: diálogos entre Clóvis Moura e Lélia Gonzalez para o debate antirracista das relações de classe na América Latina. Revista Fim do Mundo, n. 4, p. 42-59, 2021.