Preconceito linguístico
Preconceito linguístico ou glotofobia é o julgamento depreciativo contra determinadas variedades linguísticas. Segundo a linguista Marta Scherre, o preconceito é um julgamento depreciativo e humilhante que atinge principalmente variedades linguísticas ligadas a grupos de menor prestígio social, como pessoas de baixa escolaridade, de regiões periféricas ou rurais, ou de determinados grupos étnico-raciais.[1]
O preconceito linguístico é definido como um julgamento àqueles indivíduos que não falam ou escrevem de acordo com a norma padrão da língua portuguesa. Essa forma de discriminação está associada ao preconceito social, uma vez que transforma a língua em instrumento de exclusão, fazendo com que determinadas classes sociais e regiões específicas tenham seu modo de falar considerado inferior por não se adequar à gramática. Essa forma de marginalização da sociedade, faz com que as pessoas que sofrem esse preconceito se sintam inferiorizadas e não considera as variações linguísticas.
O termo preconceito linguístico começou a ser utilizado a partir dos estudos da sociolinguística das décadas de 1960 e 1970, que mostraram que as variações da língua refletem diferenças sociais e não como erros. No Brasil, essa abordagem questiona a ideia de língua certa, apontando seu uso como forma de exclusão social e defendendo o respeito às diferentes formas de falar.[2]
Como a discriminação se apresenta
Quando ouvimos alguém falar, nosso cérebro usa certos traços da fala como sotaques, pronúncias ou gírias, para fazer um julgamento social imediato.[3] Esse julgamento se baseia no status que a sociedade atribui a esse modo de falar, e não se a frase está gramaticalmente correta. A pessoa é julgada pelo que a fala representa, e não pelo que ela é.
Na contemporaneidade, esse conhecimento está sendo usado até mesmo para treinar a Inteligência Artificial (IA). Pesquisadores estudam como adicionar imperfeições na fala dos chatbots para fazê-los parecerem mais humanos, mostrando que o preconceito é uma parte intrínseca da interação social.[4]
Causas do Preconceito Linguístico
O preconceito linguístico surge da falta de compreensão e da desvalorização das diferentes formas de falar no Brasil. Muitas pessoas ainda têm a ideia de que apenas a norma culta é a correta, gerando discriminação contra quem fala de outro modo. De acordo com os linguistas Marcos Bagno e Dinah Callou, isso acontece por conta do ensino tradicional, que durante bastante tempo tratou a língua como algo único e fixo, ignorando as variações linguísticas.
A língua está em constante mudança e reflete a diversidade social e cultural do país, pois falar diferente não é errar, é apenas expressar essa variedade natural da comunicação humana.[5]
Exemplos e Manifestações:
Preconceito Linguístico nas Escolas
O preconceito linguístico nas escolas se apresentam, principalmente, por meio de práticas pedagógicas que valorizam exclusivamente a gramática normativa e a ideia de uma língua padrão. Expressões como “você está falando errado” ou “precisa aprender a norma culta” contribuem para a desvalorização das variedades linguísticas trazidas pelos estudantes, afetando sua autoestima e seu desempenho escolar.[6]
O Preconceito Linguístico nas Mídias e Redes Sociais
O português não padrão costuma ser ridicularizado e usuários que escrevem ou falam fora da norma culta são alvos de piadas, ofensas e estigmatização.
Essas atitudes revelam uma visão elitista da linguagem, na qual apenas a forma “certa” e escolarizada é valorizada, enquanto outras variedades são vistas como “erradas” ou “inferiores”. Esse preconceito é, na verdade, reflexo de um preconceito social e regional mais amplo, frequentemente associado à xenofobia — como nos ataques virtuais contra nordestinos, que são retratados como “ignorantes” ou “analfabetos”.
Alguns exemplos de preconceito linguístico que ocorreram nas redes sociais:
- Ataques à jornalista sergipana Renata Alves, por causa do sotaque.
- Um médico que zombou da fala de um paciente nas redes.
Nenhuma forma de falar português é errada, todas as variedades linguísticas são legítimas e expressam a riqueza cultural do Brasil. É preciso combater a ideia de que existe uma única forma “correta” de falar, promovendo o respeito à diversidade linguística e à inclusão digital.[7]
Consequências Sociais e Educacionais
O preconceito linguístico tem como consequências, a acentuação dos demais preconceitos a ele relacionados, como o preconceito cultural, o racismo e a homofobia. Ao ser constrangido, devido ao fato de sua fala não estar de acordo com a norma culta da língua, o falante pode apresentar características como medo e inferioridade.
No ambiente escolar ocorre como uma forma de discriminação que afeta a autoestima e a dignidade dos estudantes, especialmente daqueles que utilizam variedades populares da língua. Ao desvalorizar essas formas de falar, a escola contribui para processos de exclusão social e para o enfraquecimento do vínculo entre professores e alunos. Essa prática afeta o processo de aprendizagem e pode gerar desmotivação entre os alunos que pertencem às classes populares, provocando a evasão escolar. O reconhecimento da pluralidade linguística é essencial para uma educação mais inclusiva e para a promoção do respeito à diversidade e aos direitos humanos.[8]
Combate e Superação do Preconceito Linguístico
O combate ao preconceito linguístico exige reconhecer que todas as formas de falar o português são legítimas expressões culturais e identitárias. A superação desse preconceito passa por uma educação linguística que ensine o valor da diversidade linguística e promova o respeito às variações regionais, sociais e culturais.[2]
Nas escolas, é fundamental incluir debates sobre variação linguística, formação crítica dos alunos e valorização das falas locais. Na mídia, é necessário representar a diversidade da língua brasileira sem ridicularização ou estigmas. Já as políticas públicas devem incentivar campanhas educativas e apoiar projetos que disseminem o conhecimento linguístico, fortalecendo o papel dos linguistas na promoção da inclusão e da cidadania linguística.[9][10]
Ver também
- Norma culta
- Variação linguística
- Dialeto
- Sociolinguística
- Linguicídio
- Hipótese de Sapir-Whorf
- Etnocentrismo
Referências
- ↑ FREITAG, R. M. K. Linguistic prejudice for humanizing machine. Cadernos de Linguística, Campinas, SP, Brasil, v. 2, n. 4, p. e495, 2021. DOI: 10.25189/2675-4916.2021.v2.n4.id495. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/495. Acesso em: 15 dec. 2025.
- ↑ a b BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. 49ª. ed. São Paulo: Loyola, 2007. 186 p. ISBN: 85-15-01889-6. Disponível em: < https://escrevivencia.wordpress.com/2014/03/06/preconceito-linguistico/ > Acesso em: 02 Jan. 2017.
- ↑ Sanmartín Rei, Goretti (17 de maio de 2004). «Recensión: Marcos Bagno, A Língua de Eulália. Novela Sociolingüística / Marcos Bagno, Preconceito lingüístico. O que é, como se faz». Revista Galega de Filoloxía: 201–206. ISSN 2444-9121. doi:10.17979/rgf.2004.5.0.5341. Consultado em 16 de novembro de 2025.
- ↑ Freitag, Raquel Meister Ko. (15 de dezembro de 2021). «Preconceito linguístico para humanizar as máquinas». Cadernos de Linguística (4): e495. ISSN 2675-4916. doi:10.25189/2675-4916.2021.v2.n4.id495. Consultado em 16 de novembro de 2025.
- ↑ VIEIRA, A.; NETO, P. ANÁLISE SISTEMÁTICA DO PRECONCEITO LINGUÍSTICO NA SOCIEDADE BRASILEIRA SYSTEMATIC ANALYSIS OF LINGUISTIC PREJUDICE IN BRAZILIAN SOCIETY. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://excellenceeduc.com/revista_cientifica_excellence-V_14_abril_2022_artigo_06.pdf>. Acesso em: 15 dez. 2025.
- ↑ SILVA, L.; SILVA, L. Preconceito linguístico e xenofobia em relação ao uso não padrão da língua portuguesa nas mídias sociais. Revista Gatilho, v. 27, 2024.
- ↑ Silva, Luana; Silva, Lucimara (31 de dezembro de 2024). «Preconceito linguístico e xenofobia em relação ao uso não padrão da língua portuguesa nas mídias sociais». Revista Gatilho. ISSN 1808-9461. Consultado em 11 de novembro de 2025.
- ↑ Oliveira, Antonio Flávio Ferreira de; Souza, Bianca Lívia Silva de; Santos, Karla Lidiane dos; Santos, Maria José Pontes dos (21 de abril de 2021). «Violência escolar, variação linguística e Direitos Humanos: a responsabilidade institucional e a efetivação do princípio fundamental da dignidade do aluno como pessoa humana». Olhares: Revista do Departamento de Educação da Unifesp (1): 38–55. ISSN 2317-7853. doi:10.34024/olhares.2021.v9.11456. Consultado em 15 de dezembro de 2025
- ↑ Sanmartín Rei, Goretti (17 de maio de 2004). «Recensión: Marcos Bagno, A Língua de Eulália. Novela Sociolingüística / Marcos Bagno, Preconceito lingüístico. O que é, como se faz». Revista Galega de Filoloxía: 201–206. ISSN 2444-9121. doi:10.17979/rgf.2004.5.0.5341. Consultado em 11 de novembro de 2025
- ↑ Mollica, Maria Cecília (21 de junho de 2021). «Entrevista com Stella Maris Bortoni-Ricardo para a Revista Linguíʃtica». Revista Linguíʃtica (2): 8–11. ISSN 2238-975X. doi:10.31513/linguistica.2021.v17n2a53149. Consultado em 11 de novembro de 2025
Bibliografia
- BAGNO, Marcos (2001). Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola. ISBN 8515018896
- CAMERON, Deborah (1995). Verbal Hygiene (em inglês). Londres/Nova Iorque: Routledge. ISBN 041510355X
- POSSENTI, Sírio (1997). Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado de Letras. p. 96. ISBN 8585725249
- Nildo Viana (18 de abril de 2004). «Educação e Preconceito Lingüístico». Porto. A Página da Educação,. 13 (133): 42
- FREITAG, Raquel Meister Ko. Preconceito linguístico para humanizar máquina. Cadernos de Linguística, v. 2, n. 4, p. 1-13, 2021. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/495.
Ligações externas
- Entrevista com o linguista José Luiz Fiorin, linguista e professor da USP, sobre variação linguística e preconceito linguístico.
- Gramática e Política[ligação inativa], por Sírio Possenti, linguista e professor na UNICAMP. Novos Estudos Cebrap, ed. n° 7, novembro de 1983.
- Preconceito linguístico, por Sírio Possenti. Revista Ciência Hoje, 23 de dezembro de 2011.
- Nada na língua é por acaso por Marcos Bagno. Artigo originalmente publicado na revista Presença Pedagógica em setembro de 2006.
- Preconceito Lingüístico e não lingüístico, por Fábio Della Paschoa Rodrigues.
- (pt) Você conhece a discriminação linguística?, video