Posse (linguística)
Posse, em linguística, se refere a uma relação estabelecida entre duas entidades, o possuidor e o possuído, que se manifesta através de diversas expressões nas línguas. Nesse contexto, o termo posse é muito mais abrangente do que o conceito jurídico de propriedade material, englobando relações semânticas variadas que vão desde a posse de propriedade (o carro da professora), passando por relações de parentesco (o tio da Marina), relações parte-todo (o motor do carro), até relações altamente abstratas (a oportunidade do jogador; a tristeza do poeta).
Essa diversidade semântica frequentemente afeta a estrutura gramatical. Muitas línguas distinguem com marcas formais, por exemplo, a posse inalienável (como partes do corpo e relações de parentesco) da posse alienável (que pode ser adquirida ou transferida, como objetos materiais). A despeito da variação semântica e formal, a posse é um domínio universal, e espera-se que toda língua tenha expressões convencionalizadas para ela.
A relação possessiva é assimétrica, o que é evidenciado por sentenças semanticamente distintas ou mesmo sem sentido quando sua expressão é invertida (compare: João tem um carro e O carro tem o João; a pata do gato e o gato da pata). Quanto à forma, há dois tipos fundamentais de estruturas possessivas: a chamada posse atributiva, que estabelece a relação possessiva dentro de um sintagma nominal, como em o celular do aluno, seu irmão e a mão do João (também chamada de posse adnominal ou posse nominal), e a posse predicativa, que estabelece a relação possessiva através de um verbo, dentro de uma cláusula, como em Ele tem uma moto e Lívia tem uma irmã mais velha (também chamada de posse verbal ou posse de cláusula).
Classificação semântica
As construções possessivas podem variar conforme o significado do possuidor, do possuído ou da relação possessiva em si. A classificação semântica da posse busca organizar a vasta gama de relações que podem ser expressas por tais estruturas. Embora muitas línguas utilizem a mesma estrutura gramatical para expressar situações distintas (como meu carro, minha irmã e minha dor), os linguistas identificam diferentes domínios de significado e classificações que variam de um núcleo central a usos metafóricos ou abstratos, podendo envolver múltiplas construções.
Posse prototípica
Linguistas como Alexandra Aikhenvald, ao tratar da posse atributiva, identificam três tipos de posse como centrais quanto ao aspecto do significado: a posse de propriedade, de relações parte-todo (como partes do corpo) e relações de parentesco. Estas últimas podem ser consanguíneas (meu pai; a mãe do João) ou de afinidade (minha esposa; meu cônjuge).[1] Em línguas como o português, o inglês e muitas línguas da família indo-europeia, a mesma construção possessiva é empregada para os três casos.
Ronald Langacker menciona os mesmos três tipos de posse sob o rótulo de posse prototípica.[2] O linguista, criador da Gramática Cognitiva, adota uma abordagem funcional-cognitiva para explicar por que justamente esses três tipos de posse são centrais. Tanto no caso da posse de relação parte-todo quanto na de parentesco, o fator relacional é inerente. Uma parte só pode ser concebida e caracterizada como tal se for em relação a um todo; uma crina, por exemplo, só se qualifica como tal em relação a um cavalo. De forma similar, numa relação de parentesco, como na expressão o avô da Maria, não assumimos que avô seja um avô de forma intrínseca, mas sim em referência a um indivíduo em particular (a Maria, no exemplo). Por fim, a posse de propriedade envolve a forma como percebemos o mundo e as relações à nossa volta. Uma pessoa tipicamente pode ser dona de uma série de objetos, sobre os quais exerce controle, e os quais pode acessar quando desejado. Conceber uma pessoa em particular como referente é uma forma fácil de acessar mentalmente os objetos sobre os quais ela exerce controle e que são, portanto, associados a ela. Fazer o movimento contrário, partindo do objeto para identificar o possuidor, seria cognitivamente mais custoso, já que, tipicamente, um objeto como uma caneta não evoca automaticamente um dono específico. Isso explica a assimetria da relação possessiva, em que o possuidor serve como ponto de referência, enquanto os objetos da posse funcionam como referentes-alvo. Assim, por serem aspectos fundamentais da experiência cotidiana, cognitivamente básicos e apreendidos como gestalts, essas noções que envolvem a posse prototípica são identificadas como arquétipos conceituais.
Posse alienável e inalienável
Uma distinção fundamental nos estudos tipológicos sobre posse, diretamente relacionada com a posse prototípica, é a da posse alienável e inalienável. A posse alienável se refere a relações em que o objeto possuído não tem um vínculo inerente com o possuidor, podendo ser adquirido, transferido, vendido ou descartado (o que tipicamente corresponde à posse de propriedade material). A relação de posse, neste caso, precisa ser estabelecida. A posse inalienável, por sua vez, tem uma relação intrínseca ao possuidor. Tipicamente, abrange relações de parentesco (a avó do menino) e relações parte-todo (seu braço).
A distinção do que é alienável e inalienável pode variar de língua para língua devido a fatores culturais. Na língua tariana, da família aruaque, todos os termos de relações de parentesco e partes do corpo são possuídos de forma inalienável, com exceção do termo correspondente a 'cabelo'. Na língua mussau-emira, da Papua Nova Guiné, termos que são intimamente associados ao possuidor, como os termos para 'faca', 'casa' e 'canoa', também são considerados inalienáveis. Já na língua nilótica langu, falada em Uganda, apenas termos de relações de parentesco consanguíneas são considerados inalienáveis, enquanto termos de relações de afinidade ('esposa') são tratados como alienáveis.[1]
Muitas línguas fazem a distinção da posse alienável e inalienável como parte de sua gramática, tipicamente usando diferentes afixos para cada categoria. Por exemplo, em mikazuki (uma língua muscogeana da Flórida), ac-akni (inalienável) significa 'meu corpo', mas am-akni (alienável) significa 'minha carne'. O português não tem nenhuma maneira de fazer tais distinções em nível morfológico (para um falante de português, a distinção fica clara apenas pela tradução lexical diferente ('corpo' vs. 'carne'), mas em mikazuki a raiz é a mesma (-akni), sendo a diferença marcada exclusivamente pelos prefixos de posse).[3]
Em línguas polinésias, como o havaiano e o maori, a escolha do pronome possessivo depende da relação entre o possuidor e o possuído, dividindo-se tipicamente em classe A, classe O e neutro. Os pronomes possessivos da classe O são usados se o relacionamento possessivo não puder ser iniciado ou terminado pelo possuidor.[4] Alguns idiomas possuem mais do que duas classes possessivas. Na Papua Nova Guiné, por exemplo, a língua anêm tem pelo menos 20, e a língua amele, 32.[5]
Na literatura linguística, a oposição entre posse inalienável e alienável é frequentemente tratada sob os termos posse inerente e não inerente. Para autores como Leon Stassen e Alexandra Aikhenvald, esses termos funcionam, na tipologia geral, como sinônimos: posse inerente, obrigatória ou inseparável corresponde à inalienável; enquanto posse não inerente, opcional ou transferível corresponde à alienável. No entanto, a distinção terminológica se torna necessária na descrição de certas línguas que possuem sistemas gramaticais mais complexos, onde as duas categorias não se sobrepõem perfeitamente. A língua yabem da Papua Nova Guiné, por exemplo, distingue a posse alienável da posse inalienável quando o possuidor é humano, mas distingue a posse inerente da não inerente quando o possuidor não é humano. Os substantivos possuídos inerentemente são marcados com o prefixo ŋa-, como em (ka) ŋalaka '(da árvore) ramo', (lôm) ŋatau '(da casa dos homens) dono' e (talec) ŋalat '(do pintinho) galinha'. Adjetivos que são derivados de substantivos (como atributos inerentes de outras entidades) também são marcados, como em ŋadani 'espesso, denso' (de dani 'matagal') ou ŋalemoŋ 'enlameado, macio' (de lemoŋ 'lama').
Restrições à posse
Muitas línguas distinguem entre coisas passíveis e não passíveis de serem possuídas. Na língua massai, coisas que podem ser possuídas incluem animais de fazenda, ferramentas, casas, membros da família e dinheiro, mas animais selvagens, características da paisagem e fenômenos meteorológicos são exemplos do que não pode ser possuído.[1] Em wauja, uma língua aruaque da região do Xingu, no Brasil, itens que não podem ser possuídos incluem kamá 'sol', a'napi 'arco-íris', kaa'lũtɨ 'estrela' e alguns artefatos, como e'pi 'machado' (embora este último item possa ser usado em construções possessivas, requer o uso de uma raiz supletiva diferente: nɨ'-gãwa 'meu machado').[1] Em idiomas que fazem tal distinção, tentar empregar um termo classificado como não passível de posse numa construção possessiva resulta em uma sentença incorreta, não apenas do ponto de vista semântico, mas também gramatical.
Posse atributiva
A posse atributiva é aquela que ocorre dentro de um mesmo sintagma nominal, relacionando dois nomes entre si. Ela pode ser marcada de várias maneiras, como a justaposição simples de substantivos, o uso do caso possessivo, caso possuído (que recai sobre o objeto da posse), caso genitivo, estado construto (como em árabe e na língua kumak),[6] ou o uso de adposições,sufixos possessivos e adjetivos possessivos. Em português, emprega-se a preposição 'de', como em o carro do João ou pronomes possessivos, como em minha TV. Já em inglês, utilizam-se o clítico possessivo 's; a preposição of; e os determinantes possessivos my, your, his, her, etc.
Posse predicativa
A posse predicativa se refere às estruturas de posse articuladas por um verbo, em nível de cláusula. Em português, por exemplo, a predicação possessiva canônica envolve o emprego do verbo ter, como em o professor tem um carro vermelho. Assim como a posse atributiva, a posse predicativa pode envolver diversas estratégias do ponto de vista de sua estrutura, como o emprego de um verbo transitivo direto (caso do português e do inglês com os verbos ter e have, respectivamente) ou uma cláusula existencial (caso do russo).
Orientação (posse H e posse B)
Uma distinção recorrente na literatura sobre posse predicativa é da posse do tipo H (have possessive) e posse do tipo B (belong possessive). Tipicamente, uma predicação de posse do tipo H é uma afirmação sobre o possuidor, envolvendo um verbo possessivo, o possuidor como sujeito e o possuído como objeto (João tem um carro). A posse do tipo B, por sua vez, é uma afirmação sobre o possuído, que funciona então como sujeito, e o possuidor é marcado através de um caso ou preposição (O carro é do João ou O carro pertence a João). Além disso, nas construções do tipo B, o sujeito possuído é tipicamente definido, enquanto o possuidor pode ser indefinido. Nas construções do tipo H, o possuidor é geralmente definido, e o possuído pode ser indefinido.[7] Os autores divergem quanto aos traços definidores de cada um dos tipos, pois há línguas que fazem a posse do tipo H (ou seja, uma afirmação sobre o possuidor), mas este é oblíquo e o possuído é o sujeito sintático da cláusula. Podemos dizer que a diferenciação é, antes de tudo, pragmática.
Estratégias de posse predicativa
Existem diversas estratégias para expressar a posse predicativa nas línguas. Nesse sentido, linguistas buscam sistematizar tal variação a partir de uma perspectiva tipológica. Stassen, focando apenas na posse alienável do tipo H, em sentenças positivas, com objeto da posse sem modificadores ou quantificadores, identifica quatro estratégias de posse predicativa: a posse locativa, a posse 'com' (with-possessive, também chamada de posse comitativa), a posse de tópico e a posse 'ter'.[8] As três primeiras estratégias podem ser agrupadas num mesmo conjunto, pois envolvem verbos intransitivos e assumem a forma básica de sentenças locativas ou existenciais. A quarta estratégia (adotada de forma canônica no português, com o verbo 'ter'), por sua vez, envolve um verbo transitivo, o possuidor como sujeito e o possuído como objeto direto. Nas definições abaixo, X marca o possuidor e Y marca o possuído.
Posse locativa
A construção de posse locativa é uma das formas mais atestadas nas línguas do mundo atualmente. Ela contém um predicado locativo/existencial com o significado geral de 'ser'. O possuído ocupa a posição de sujeito sintático, e o possuidor é construído de forma oblíqua, podendo receber marca de casos (se a língua em questão envolver tais marcações) ou adposições. Literalmente, sentenças de posse locativa soam como Em/para X, é/existe Y. Algumas línguas que fazem uso de tal estratégia são o latim clássico, o grego antigo, o russo, o finlandês, o japonês, o canarês, o birmanês, o shipibo-conibo, etc.[8] O exemplo do russo abaixo ilustra a estratégia de posse locativa:
RUSSO
U Ivana byl sinii avtomobil’
em Ivan-GEN ser.PST.M.SG azul carro
'Ivan tinha um carro azul'
Posse 'com'
A construção de posse 'com' envolve um predicado locativo/existencial que frequentemente pode ser realizado de forma nula. O possuidor é o sujeito sintático, e o possuído é construído de forma oblíqua (frequentemente um caso ou adposição correspondente à preposição 'com' do português). As sentenças de posse 'com' soam literalmente como X é/existe com Y. Algumas línguas que adotam tal estratégia são o hamtai, o amele, o hauçá, o mundang, o xona, etc.[8] O exemplo da língua amele abaixo ilustra a estratégia da posse 'com':
AMELE
Ija sigin ca
1SG faca com
'Eu tenho uma faca'
Posse de tópico
A construção de posse de tópico envolve um predicado locativo/existencial, e, assim como a posse locativa, constrói o possuído como sujeito gramatical. No entanto, difere da locativa na forma como articula o possuidor, que é construído como o tópico da sentença. Tal estratégia soaria em português como Quanto a X, Y é/existe. A sentença na posição de tópico também pode soar como Em relação a X; Falando de X; ou No que diz respeito a X. Essa estratégia é empregada em línguas como o mandarim, o tailandês, o quemer, o navajo, o tsutuil, o fula, o turkana, etc.[8] O exemplo do tailandês abaixo ilustra a estratégia da posse de tópico:
THAILANDÊS
Phom mii rod
1SG existir carro
'Eu tenho um carro'
Posse 'ter'
A construção de posse 'ter' é a estratégia adotada em português, em inglês e em grande parte das línguas indo-europeias ocidentais. Ela envolve um verbo transitivo. O possuidor é construído como sujeito, enquanto o possuído é o objeto direto da sentença. Frequentemente, verbos com essa característica são derivados de verbos que envolvem controle físico ou manuseio, como pegar, segurar e carregar. O verbo ter, por exemplo, é derivado de tĕnēre, em latim, cujo significado era 'segurar' ou 'reter'.[1] Ao longo do tempo, tais verbos sofrem o efeito da gramaticalização, perdendo seu sentido lexical e assumindo apenas o sentido de posse. A perda sintática também pode ocorrer, e muitos verbos desse tipo deixam de exibir as características típicas de um verbo transitivo, não podendo, por exemplo, assumir a forma passiva. Línguas que adotam tal estratégia, além dos já mencionados português e inglês, são o norueguês, o servo-croata, o grego moderno, o basco, o dacota, o tariano, o uolofe, o !kung, etc.[8] O exemplo do uolofe abaixo ilustra a estratégia da posse 'ter':
UOLOFE
Am naa kër
Ter 1SG casa
'Eu tenho uma casa'
Referências
- ↑ a b c d e AIKHENVALD, Alexandra Yurievna; DIXON, Robert Malcolm Ward (2013). Possession and Ownership. A Cross-Linguistic Typology. Oxford: Oxford University Press. p. 3
- ↑ LANGACKER, Ronald Wayne (2009). Investigations in Cognitive Grammar. Berlim: Mouton De Gruyter. p. 83
- ↑ MITHUN, Marianne (1999). The Languages of Native North America. [S.l.]: Cambridge University Press. p. 465. ISBN 0-521-29875-X
- ↑ HARAWIRA, K. T. (1994). Teach Yourself Māori. [S.l.: s.n.] ISBN 0-7900-0325-2
- ↑ «Chapter Possessive Classification». The World Atlas of Language Structures (WALS)
- ↑ BRIL, Isabelle (2012). «Ownership, part-whole and other possessive-associative relations in Nêlêmwa (New Caledonia)». Consultado em 5 de dezembro de 2025
- ↑ HEINE, Bernd (1997). Possession. Cognitive Sources, Forces, and Grammaticalization. Cambridge: Cambridge University Press. pp. 29–33
- ↑ a b c d e STASSEN, Leon (2009). Predicative Possession. Oxford: Oxford University Press. pp. 38–69