Perda auditiva em crianças

A perda auditiva em crianças é uma condição que afeta a habilidade de ouvir sons de forma parcial ou total e pode impactar significativamente o desenvolvimento da comunicação, da linguagem, do aprendizado e das habilidades sociais.[1] Estima-se que cerca de 34 milhões de crianças em todo o mundo convivam com algum grau de deficiência auditiva, sendo que a maioria reside em países de baixa e média renda.[2] Alterações auditivas também podem coexistir com outras condições sensoriais ou cognitivas, como dificuldades visuais e falhas no processamento auditivo, trazendo desafios maiores no desenvolvimento global das crianças com perda auditiva. A detecção precoce e a intervenção adequada são fundamentais para minimizar os efeitos da perda auditiva na infância, permitindo um desenvolvimento adequado e a integração social.[3] A realização dos programas de triagem auditiva neonatal podem assegurar a detecção precoce, o diagnóstico e a reabilitação, com o objetivo de minimizar os efeitos da deficiência auditiva sobre o indivíduo.[4][5]

Classificação

A perda auditiva em crianças pode ser classificada de diferentes maneiras, considerando a localização da lesão, a intensidade e o momento de surgimento:

Localização

  • Condutiva: Afeta o orelha externa ou média, frequentemente causada por infecções (como otite média), obstruções ou malformações congênitas.
  • Sensorioneural: Envolve danos às células ciliadas da cóclea, presente na orelha interna, ou ao nervo auditivo. Geralmente irreversível, pode ter origem genética, congênita ou adquirida.
  • Mista: Combina componentes condutivos e sensorioneurais, com comprometimento na cóclea e na orelha externa ou média.
  • Central: Resulta de alterações no processamento auditivo central, embora as vias periféricas estejam preservadas. Crianças em idade escolar que apresentam esse tipo de alteração tendem a ter uma alta dificuldade no aprendizado.[carece de fontes?]

Intensidade

  • Mínima: Perda de 16-25dB, dificultando a audição em ambientes ruidosos. Mais dificilmente perceptível.
  • Leve: Perda de 26 a 40 dB, dificultando ouvir sons suaves.
  • Moderada: Perda de 41 a 70 dB, comprometendo conversas em tom normal.
  • Severa: Perda de 71 a 90 dB, limitando a audição de fala em tons elevados.
  • Profunda: Perda acima de 91 dB, com dificuldade em ouvir sons muito altos.[6]

Momento de surgimento

  • Congênita: Presente desde o nascimento, frequentemente associada a fatores genéticos, infecções congênitas ou complicações perinatais.
  • Adquirida: Desenvolve-se após o nascimento, devido a infecções, traumas, exposição a ruídos elevados ou medicamentos ototóxicos.[carece de fontes?]

Causas da perda auditiva em crianças

As causas podem ser divididas em congênitas e adquiridas:

Causas congênitas

  • Genéticas: Aproximadamente 50% dos casos de perda auditiva congênita têm origem genética, sendo que as mutações no gene *GJB2* são as mais comuns.
  • Infecções congênitas: Infecções como citomegalovírus (CMV), rubéola, sífilis, toxoplasmose e herpes são causas frequentes.
  • Complicações perinatais: Prematuridade, hipóxia neonatal, hiperbilirrubinemia grave e baixo peso ao nascer aumentam o risco de perda auditiva.

Causas adquiridas

  • Infecções: Otite média crônica, meningite, sarampo e caxumba são causas comuns de perda auditiva adquirida.
  • Trauma: Lesões na cabeça ou no ouvido interno podem causar danos irreversíveis.
  • Exposição a ruídos: Uso frequente de fones de ouvido em volumes elevados é uma preocupação crescente.
  • Ototoxicidade: Medicamentos como aminoglicosídeos e quimioterápicos podem causar danos ao ouvido interno.[carece de fontes?]

Impactos no desenvolvimento infantil

A perda auditiva na infância, especialmente quando não tratada, pode afetar diversas áreas do desenvolvimento:

  1. Linguagem e comunicação: Crianças com perda auditiva têm maior dificuldade para adquirir linguagem oral, o que pode levar a atrasos na fala e dificuldades de articulação.
  2. Desempenho escolar: A dificuldade em acompanhar aulas e compreender instruções pode resultar em baixo desempenho acadêmico.
  3. Aspectos psicológicos e sociais: A perda auditiva pode levar ao isolamento social, baixa autoestima e dificuldades em estabelecer interações interpessoais.[carece de fontes?]

Diagnóstico

A identificação precoce da perda auditiva é essencial para minimizar os impactos negativos. O diagnóstico é realizado em etapas:

  1. Triagem Auditiva Neonatal (TAN):[7] Realizada nas primeiras semanas de vida, identifica alterações auditivas por meio de Emissões Otoacústicas (EOA)[8] ou Potenciais Evocados Auditivos de Tronco Encefálico (PEATE).
  2. Audiometria infantil: Avalia a audição de crianças maiores, utilizando métodos de reforço visual ou jogos auditivos.
  3. Imagens complementares: Tomografia computadorizada e ressonância magnética podem ser indicadas para investigar malformações.
  4. Testes genéticos: Úteis para identificar mutações associadas à perda auditiva hereditária.

Intervenções e tratamentos

O tratamento depende da causa, tipo e gravidade da perda auditiva. As opções incluem:

  • Aparelhos auditivos: Indicados para amplificar sons em casos de perda auditiva leve a severa.
  • Implantes cocleares: Utilizados em casos de perda auditiva severa a profunda bilateral.
  • Terapias fonoaudiológicas: Focadas no desenvolvimento da linguagem e na reabilitação auditiva.
  • Cirurgias: Correção de malformações ou drenagem de otite média crônica.
  • Educação e comunicação alternativa: Uso de linguagem de sinais e tecnologias assistivas.[carece de fontes?]

Prevenção

A prevenção da perda auditiva em crianças inclui:

  • Imunização materna e infantil: Vacinas contra rubéola, caxumba e meningite reduzem o risco de infecções associadas à perda auditiva.
  • Cuidados pré-natais e neonatais: Identificação e manejo precoce de infecções e condições de risco.
  • Evitar exposição a ruídos: Educação sobre os riscos do uso prolongado de fones de ouvido em volumes elevados.
  • Uso racional de medicamentos ototóxicos: Monitoramento em casos de necessidade clínica.[carece de fontes?]

Impactos globais e políticas públicas

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 60% dos casos de perda auditiva na infância sejam evitáveis.[2] Investimentos em triagem auditiva neonatal universal, campanhas de vacinação e acesso a tecnologias assistivas são estratégias globais prioritárias.[9] Programas de triagem auditiva neonatal desempenham papel essencial nesse processo, pois possibilitam a identificação de alterações auditivas logo nos primeiros dias de vida. Crianças com diagnóstico da perda e acompanhamento precoce apresentam melhores resultados no desenvolvimento da linguagem, da cognição e das habilidades socioemocionais. A triagem, no entanto, não substitui o acompanhamento contínuo, especialmente em crianças que apresentam indicadores de risco para perda auditiva.

No Brasil, a Lei nº 12.303/2010, que regulamenta a Triagem Auditiva Neonatal, e os programas do Ministério da Saúde voltados para a saúde auditiva têm contribuído para a detecção e intervenção precoce.[8]

Referências

  1. Lieu, Judith E. C.; Kenna, Margaret; Anne, Samantha; Davidson, Lisa (1 de dezembro de 2020). «Hearing Loss in Children: A Review». JAMA (em inglês) (21). 2195 páginas. ISSN 0098-7484. doi:10.1001/jama.2020.17647. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  2. a b «World report on hearing». World Health Organization 
  3. «Establishing a secure connection ...». www.scielo.br. doi:10.1590/s1516-18462007000100014. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  4. «Establishing a secure connection ...». www.scielo.br. doi:10.1590/s1516-18462007000100014. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  5. Lieu, Judith E. C.; Kenna, Margaret; Anne, Samantha; Davidson, Lisa (1 de dezembro de 2020). «Hearing Loss in Children: A Review». JAMA (em inglês) (21). 2195 páginas. ISSN 0098-7484. doi:10.1001/jama.2020.17647. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  6. «Types of Hearing Loss». Wyoming EHDI (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  7. «Diretrizes de atenção da Triagem Auditiva Neonatal» (PDF). Ministério da Saúde. 2012 
  8. a b «LEI Nº 12.303, DE 2 DE AGOSTO DE 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de realização do exame denominado Emissões Otoacústicas Evocadas.». Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos 
  9. Kojima, Y.; Sakurada, T. (janeiro de 1976). «Increase in alkaline phosphatase activity in the liver of mice bearing Ehrlich ascites tumor». Cancer Research (1): 23–27. ISSN 0008-5472. PMID 2381. Consultado em 19 de novembro de 2024