Pallywood

 Nota: Para indústria econômica, veja Cinema da Palestina.

Pallywood (um amálgama de "Palestina" e "Hollywood") é uma campanha de desinformação usada para acusar falsamente os palestinos de forjarem sofrimento e mortes de civis durante o conflito com Israel.[1][2][3] O termo entrou em circulação após o assassinato de Muhammad al-Durrah em 2000 durante a Segunda Intifada, envolvendo questionamentos sobre a veracidade de evidências fotográficas.[4] Comentaristas israelenses têm usado o termo para rejeitar vídeos que mostram violência israelense ou para negar o sofrimento palestino.[2] Durante a guerra Israel-Hamas, o termo foi usado para desvalorizar o sofrimento palestino, como a alegação de que bebês palestinos mortos são bonecos falsos,[5][6][7] e foi descrito por alguns autores como uma teoria da conspiração.[7][6][8] O termo tem sido usado como uma ferramenta de propaganda e desinformação por funcionários do governo israelense.[1]

Origem

O termo foi cunhado e divulgado em parte por Richard Landes, como resultado de um documentário online produzido por ele em 2005, intitulado Pallywood: According to Palestinian Sources, no qual alega casos específicos de manipulação midiática.[9][10] A jornalista Ruthie Blum descreve "Pallywood" como um termo cunhado por Landes para se referir a "produções encenadas pelos palestinos, diante de (e frequentemente com a cooperação de) equipes de filmagem ocidentais, com o propósito de promover propaganda anti-Israel, disfarçando-a de notícia". O próprio Landes descreve Pallywood como ""um termo que cunhei... para descrever material encenado disfarçado de notícia".

Em Pallywood: According to Palestinian Sources,[11] Landes foca especialmente no assassinato amplamente divulgado de Muhammad al-Durrah, um menino palestino de 12 anos morto por tiros (amplamente relatados como sendo de origem israelense) na Faixa de Gaza em 30 de setembro de 2000 no início da Segunda Intifada.[7] Sua morte foi filmada por um cinegrafista freelancer palestino e exibida no canal de televisão France 2. Landes questiona a autenticidade das imagens e contesta se al-Durrah foi realmente morto, argumentando que todo o incidente foi encenado pelos palestinos.[10] Landes e defensores pró-Israel argumentam que o governo israelense não é suficientemente firme ao rebater as versões palestinas dos acontecimentos no conflito israelo-palestiniano.[4]

Além do assassinato de al-Durrah, Landes cita a explosão na praia de Gaza [en] e a suposta exploração, por parte do Hamas, da escassez de eletricidade durante o conflito entre Israel e Gaza de 2007–2008 como exemplos de Pallywood.[12]

Uso subsequente

David Frum alegou que fotos tiradas durante a guerra de Gaza de 2014, que mostravam dois irmãos chorando e com camisetas ensanguentadas após carregarem o corpo do pai morto, haviam sido forjadas. As fotos, que foram publicadas pela Reuters, The New York Times e Associated Press, foram alvo de críticas por parte de um blogueiro pró-Israel.[13] Frum voltou atrás na sua acusação e pediu desculpas ao fotógrafo do New York Times, Sergey Ponomarev, após uma extensa desmistificação por Michael Shaw, mas justificou o seu "ceticismo", citando outras alegações relacionadas ao “Pallywood”.[14]

Após a assassinato de dois adolescentes palestinos em Beitunia [en], Michael Oren e um porta-voz do exército israelense argumentaram que o vídeo de uma câmera de segurança havia sido manipulado e que os adolescentes apenas fingiram ter sido atingidos — uma visão alinhada ao conceito de Pallywood, mas que foi contrariada tanto pelas próprias gravações quanto pela investigação oficial, que descobriu má conduta por parte de um agente da Polícia de Fronteira, o qual foi levado a julgamento por suas ações.[15][16][17]

Anat Berko, pesquisadora do think tank conservador israelense Instituto Internacional de Investigação sobre o Terrorismo, e Edna Erez, chefe do departamento de justiça criminal da Universidade de Illinois em Chicago, afirmaram que "o fenômeno da fabricação de registros sobre o conflito tem sido chamado de 'Pallywood' (Hollywood da Autoridade Palestina).[18] O Mackenzie Institute [en], um think tank conservador canadense voltado para defesa e segurança,[19] argumentou que, dado "um longo histórico de encenações diante das câmeras... o cínico apelido 'Pallywood', dado por jornalistas que já foram enganados pelos serviços de notícias da [Autoridade Palestina], torna-se compreensível."[20]

Guerra Israel-Hamas

Durante a guerra Israel-Hamas, teorias da conspiração envolvendo influenciadores online zombando das vítimas e alegando que os palestinos estariam usando " atores de crise" se tornaram virais nas redes sociais, frequentemente fazendo uso do termo "Pallywood".[7][21] A conta oficial de Israel no Twitter de colocarem pessoas vivas em sacos mortuários, antes de deletar a publicação, enquanto o AIPAC promoveu conteúdo semelhante.[7] Muitos dos vídeos mais virais usados para “provar” a existência de atores de crise foram desmentidos.[7][22] O uso do termo frequentemente resulta em discurso de ódio contra muçulmanos e tornou-se especialmente popular após o anúncio de Israel de que aumentaria os bombardeios aéreos sobre Gaza.[7]

Em novembro de 2023, o diplomata israelense Ofir Gendelman divulgou um trecho de um curta-metragem libanês, alegando que se tratava de uma prova de que os palestinos estavam falsificando vídeos, e classificando-o como um exemplo de “Pallywood”.[23][24]

Criticismo

Ruthie Blum afirma que as alegações de Richard Landes, consideradas bastante severas, levaram a que ele fosse rotulado como um teórico da conspiração de direita em certos círculos.[25] Críticos argumentam que a linguagem de Landes, que aparentemente favorece Israel, apresenta características comumente associadas a teorias da conspiração.[8]

Em 2014, Larry Derfner descreveu Pallywood na +972 Magazine como como “um insulto étnico particularmente repulsivo”.[26] Em 2018, Eyal Weizman, cujo trabalho com a Forensic Architecture foi chamado de “Pallywood” em Israel, respondeu que "a última linha de defesa desses canalhas é chamar de ‘notícia falsa’. No momento em que recorrem a esse argumento é porque já perderam todos os outros."[27] Em um artigo publicado pela Mondoweiss, Jonathan Cook argumentou que "Pallywood" era uma desculpa conveniente usada por israelenses para descartar evidências filmadas de brutalidade cometida por seus soldados.[28]

Ver também

Referências

  1. a b «'Pallywood propaganda': Pro-Israeli accounts online accuse Palestinians of staging their suffering». France 24 (em inglês). 21 de novembro de 2023. Consultado em 5 de setembro de 2024. Arquivado do original em 24 de novembro de 2023 
  2. a b Carpenter, M.J. (2018). Palestinian Popular Struggle: Unarmed and Participatory. Col: Routledge Studies on the Arab-Israeli Conflict. [S.l.]: Taylor & Francis. ISBN 978-1-351-00882-2. Consultado em 27 de abril de 2023. Cópia arquivada em 13 de maio de 2023 
  3. Schleifer, Ron; Snapper, Jessica (1 de janeiro de 2015). Advocating Propaganda – Viewpoints from Israel: Social Media, Public Diplomacy, Foreign Affairs, Military Psychology, and Religious Persuasion Perspectives (em inglês). [S.l.]: Sussex Academic Press. ISBN 9781782841609. Cópia arquivada em 28 de janeiro de 2017 
  4. a b 'Caught in the Mohammad al-Dura crossfire Arquivado em 2011-01-16 no Wayback Machine, by Calev Ben-David, The Jerusalem Post, October 12, 2007: :But pro-Israel media-watchdog advocates have gone further, arguing that the footage is a prime example of what has been dubbed "Pallywood" - media manipulation, distortion and outright fraud by the Palestinians (and other Arabs, such as the Reuters photographer caught faking photos during the Second Lebanon War), designed to win the public relations war against Israel.
  5. «No, these images show real dead Palestinian babies, not dolls». The Observers - France 24 (em inglês). 15 de março de 2024. Consultado em 27 de agosto de 2024. Arquivado do original em 5 de maio de 2024 
  6. a b «Israel-Hamas war misinformation is everywhere. Here are the facts». AP News (em inglês). 2 de novembro de 2023. Consultado em 24 de abril de 2024. Arquivado do original em 3 de novembro de 2023 
  7. a b c d e f g Ramirez, Nikki McCann (3 de novembro de 2023). «No, Palestinians Are Not Faking the Devastation in Gaza». Rolling Stone (em inglês). Consultado em 18 de maio de 2024. Cópia arquivada em 29 de março de 2024 
  8. a b Lionis Chrisoula,Laughter in Occupied Palestine: Comedy and Identity in Art and Film, I.B.Tauris, 2016 p.89.
  9. Cambanis, Thanassis. "Some Shunning The Palestinian Hard Stance Arquivado em 2011-05-23 no Wayback Machine" The Boston Globe, September 6, 2005
  10. a b «Media are Hamas's main strategic weapons, says visiting US historian». JPost. 28 de agosto de 2015. Arquivado do original em 6 de setembro de 2015 
  11. Carvajal, Doreen. "The mysteries and passions of an iconic video frame", International Herald Tribune, Monday, February 7, 2005.
  12. Leibovitz, Ruthie Blum (26 de março de 2008). «One on One: Framing the debate». Jerusalem Post. Consultado em 11 de junho de 2019. Arquivado do original em 6 de março de 2021 
  13. James Fallows (31 de julho de 2014). «On David Frum, The New York Times, and the Non-Faked 'Fake' Gaza Photos». The Atlantic. Arquivado do original em 13 de março de 2017 
  14. David Frum (30 de julho de 2014). «An Apology: On Images From Gaza». The Atlantic. Arquivado do original em 1 de junho de 2016 
  15. Jordan Kutzik, Pallywood' Killing Was Exactly What It Looked Like Arquivado em 2018-01-03 no Wayback Machine The Forward 13 November 2014
  16. Derfner, Larry (13 de novembro de 2014). «Day of catastrophe for 'Pallywood' conspiracy theorists». +972 Magazine (em inglês). Consultado em 20 de julho de 2024. Arquivado do original em 20 de julho de 2024 
  17. «Forensic Architecture». forensic-architecture.org. Consultado em 20 de julho de 2024 
  18. Berko, Anat and Erez, Edna, "Martyrs of murderers? Victims or victimizers? The voices of would-be Palestinian female suicide bombers", in Cindy D. Ness (ed), Female Terrorism and Militancy: Agency, Utility, and Organization, p. 164. Routledge, 2008. ISBN 0-415-77347-4
  19. Michael Doxtater, "How the Mohawks look at history", Globe and Mail, 11 July 1991, A17; "Mail bombs spark public warning", Kitchener-Waterloo Record, 20 July 1995, A3; Geoff Baker, "Who's behind mail-bomb plot?", Toronto Star, 30 July 1995, A2; "Tamils protest paper's story", Toronto Star, 13 February 2000, p. 1; Rob Faulkner, "Institute offers anti-terrorism tip sheet", Hamilton Spectator, 10 August 2005, A6.
  20. Lies, Damned Lies and Footage, The Mackenzie Institute, Newsletter July, 06. Arquivado em agosto 12, 2007, no Wayback Machine
  21. Doak, Sam (27 de outubro de 2023). «"Pallywood:" How denial of civilian harm in Gaza has proliferated». Logically (em inglês). Consultado em 29 de outubro de 2023. Arquivado do original em 29 de outubro de 2023 
  22. Petersen, Kate S. «Movie footage used to falsely claim Palestinians staged injuries | Fact check». USA TODAY (em inglês). Consultado em 23 de outubro de 2024 
  23. «Israeli Diplomat Busted Spreading Blatant Disinfo About Palestinians». The Daily Beast. Consultado em 10 de novembro de 2023. Arquivado do original em 10 de novembro de 2023 
  24. Robinson, Olga; Sardarizadeh, Shayan (22 de dezembro de 2023). «False claims of staged deaths surge in Israel-Gaza war». BBC News (em inglês). Consultado em 9 de janeiro de 2024. Arquivado do original em 6 de janeiro de 2024 
  25. Leibovitz, Ruthie Blum (26 de março de 2008). «One on One: Framing the debate». Jerusalem Post. Consultado em 11 de junho de 2019. Arquivado do original em 6 de março de 2021 
  26. Derfner, Larry (15 de novembro de 2014). «'Pallywood': A particularly ugly ethnic slur». +972 Magazine. Consultado em 19 de maio de 2018. Arquivado do original em 19 de maio de 2018 
  27. Moore, Rowan (25 de fevereiro de 2018). «Forensic Architecture: detail behind the devilry». The Observer (em inglês). ISSN 0029-7712. Consultado em 30 de outubro de 2023. Arquivado do original em 30 de outubro de 2023 
  28. Cook, Jonathan (5 de março de 2018). «Israeli army's lies can no longer salvage its image». Mondoweiss. OCLC 1413751648. Consultado em 6 de março de 2018. Arquivado do original em 7 de março de 2018