Ofélia Marques

Ofélia Marques
Ofélia Marques, Autorretrato, 1936
Nascimento
Morte
17 de dezembro de 1952 (50 anos)

NacionalidadePortugal portuguesa
PrémiosPrémio Sousa-Cardoso (1940)
Movimento(s)Modernismo

Ofélia Gonçalves Pereira da Cruz ou Ofélia Marques (Santos-o-Velho, Lisboa, 14 de novembro de 1902 - Lisboa, 17 de dezembro de 1952) foi uma pintora, caricaturista e ilustradora portuguesa que pertenceu à 2.ª geração de artistas modernistas portugueses [1][2][3][4].

Biografia

Ophelia Gonçalves Pereira da Cruz nasceu na freguesia de Santos, no dia 14 de novembro de 1902. Foi baptizada no dia 13 de outubro de 1904 na Igreja Paroquial de Santos-o-Velho de Lisboa. Filha de José Braz Pereira da Cruz, natural de Torres Vedras e de Amélia Estefânia Pereira da Cruz, natural de Bragança. Neta paterna de José Pereira e Joaquina do Carmo e neta materna de Francisco Gonçalves e Ana Joaquina[2].

Entre 1911 e 1916 frequentou o Liceu feminino Maria Pia em Lisboa[2].

Em 1918 concluiu o curso complementar de Letras no Liceu Passos Manuel em Lisboa[2]. Em Outubro desse ano inscreveu-se no curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Conheceu e foi colega de Bernardo Loureiro Marques, com quem viria a casar e de Teresa Leitão de Barros[2]. Concluiu o curso em 1923. Obteve um certificado na especialização de Magistério Primário Superior secção de Português e Francês[2].

1926 é o ano em que inicia a sua actividade artística. Faz ilustrações para a secção infantil do jornal A Informação.Criou BD para a revista infantil ABC-zinho, dirigida por Cottinelli Telmo. Participou no II Salão de Outono na Sociedade Nacional de Belas Artes, impulsionado por José Pacheko [2][5].

Entre 1926 e os primórdios dos anos 50, marcou presença em mais de duas dezenas de exposições e fez ilustrações para vários jornais e diferentes revistas como: Atlântico: revista luso-brasileira, Ver e Crer, Eva: jornal da mulher, Tic-Tac, Casino: semanário de elegâncias e arte, Civilização: grande magazine mensal ou Panorama[2].

Na pintura dedicou-se sobretudo ao Retrato. No desenho ao Retrato e ao Auto-Retrato. Fez inúmeras ilustrações para contos infantis como as Aventuras de cinco irmãozinhos (1931) da autoria de Maria Lamas sob o pseudónimo de Rosa Silvestre[2].

Obra

Dedicou-se acima de tudo ao desenho onde revelou "o seu gosto pelo registo ingénuo de crianças e do seu universo de brincadeiras, sempre temperado de poses contemplativas, aliados ao seu conhecido desgosto de não ser mãe". No entanto, a bonomia das suas representações da infância é em grande parte subvertida nas imagens onde meninas, "em poses sensuais, revelam facetas de uma intimidade erótica, servida por um desenho de traço denso ou sinuoso", ou quando decide realizar retratos ficcionados de amigos, como se fossem ainda crianças, definindo de modo benévolo ou cruel "todos os contornos da personalidade, [...] servindo-se, em alguns casos ironicamente, de um léxico que cita os próprios representados". [5]

Ofélia Marques descobre uma expressão autoral "capaz de registos de traço plurais e plásticos […] ora frescos e ingénuos, ora rápidos e ríspidos, dotados de um cromatismo forte, marcado pela ilustração, e que acentua uma desobediência às regras […]. Depois há também os outros, deliberadamente inacabados, e ainda os surrealizantes, como acontece em alguma autorrepresentação". [5] "A imagem mais forte, Ofélia dá-a através do conjunto dos seus autorretratos […]. Desenhada em várias poses de abandono, ou numa excessiva frontalidade – como se os olhos assim expostos não olhassem – e muitas vezes ainda, deslocada do seu tempo real, em todos eles se evoca uma estranha forma de ausência" .

Mariazinha em África, de Fernanda de Castro, 1947. Ilustrações Ofélia Marques

Ilustrações

Ofélia Marques ficou conhecida pelas suas ilustrações de livros infantis e contos de autores portugueses, entre eles encontram-se:

  • 1929 - Maria Cotovia de Maria Lamas (pseudónimo de Rosa Silvestre). Foi o primeiro livro infantil escrito por Maria Lamas[2].

Auto-retrato

Paralelamente ao seu trabalho público, desenvolveu outro, na esfera privada: os desenhos eróticos. Assume o desenho como forma de expressão. Nas cenas eróticas e homossexuais, transgride a moral puritana imposta às mulheres numa sociedade opressiva e castradora que era a vivência do Estado Novo[2][3][4].

Morte

Ofélia Marques faleceu em casa, na Calçada dos Caetanos (Bairro Alto, Lisboa) no dia 17 de Dezembro de 1952. Está sepultada no Cemitério de Benfica[2].

Prémios e Reconhecimento

Em 1940 foi galardoada com o Prémio Amadeo de Souza-Cardoso [1][2][4]. Foi a primeira mulher a ser galardoada com este prémio de pintura[2].

Em 2002 a Casa da Cerca, Almada, apresentou uma exposição antológica dos seus desenhos.[7]

É uma das artistas portuguesas cujas obras foram expostas no Museu Calouste Gulbenkian, no âmbito a exposição Tudo O Que Eu Quero que integrou o programa cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia em 2021. [8]

Está representada em diferentes colecções públicas e privadas. Nas colecções públicas alguns exemplos: Fundação Árpád Szenes - Vieira da Silva,Municipal Municipal Amadeo de Souza - Cardoso, Centro de Arte Moderna - Museu Gulbenkian.

O seu nome consta da toponímia da Charneca da Caparica, freguesia da Câmara Municipal de Almada.

Referências

  1. a b França, José Augusto - A Arte em Portugal no Século XX: 1911-1961 [1974]. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 303.
  2. a b c d e f g h i j k l m n o Silva, Andreia Santos (2021). Ofélia Marques: mulher artista no modernismo português. A menina Ophelia Cruz que é hoje Ofélia Marques. (Dissertação de Mestrado em História da Arte, Universidade NOVA de Lisboa). Repositório Aberto da Universidade NOVA de Lisboa: https://run.unl.pt/handle/10362/127737
  3. a b Rodrigues, António (coord. científica) (1990). Ofélia Marques: álbum de uma menina morta [catálogo de exposição]. Colares:Galeria de Colares.
  4. a b c Ferreira, Emília, (2006). Ofélia Marques: um percurso ímpar no modernismo português. In Faces de Eva: Estudos sobre a Mulher. 15. Edições Colibri, p. 189-198.
  5. a b c Ferreira, Emília – Ofélia Marques. In: A.A.V.V. (2004) – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: roteiro da coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. ISBN 972-635-155-3
  6. «Fundação António Quadros | Fernanda de Castro» 
  7. Ferreira, Emília (2003) – Desenhos do Silêncio. In: Marques, Ofélia – Ofélia Marques: quarenta caricaturas / vinte e um desenhos. Almada: Casa da Cerca. ISBN 972-8794-00-2
  8. «Tudo o que eu quero - Exposição». Fundação Calouste Gulbenkian