Novo antissemitismo

Novo antissemitismo refere-se a novas formas de antissemitismo desenvolvidas no final do século XX e no início do século XXI. Segundo os proponentes desse conceito, essas novas formas tenderiam a se manifestar como oposição ao sionismo e crítica ao governo de Israel.[1]:279-300 O conceito está incluído em algumas definições de antissemitismo, como a definição de trabalho do antissemitismo da IHRA e o teste dos três "Ds" [en] (deslegitimização, demonização e duplo padrão de julgamento) de identificação do antissemitismo.[2]

Em linhas gerais, o conceito postula que, entre o final do século XX e o início do século XXI, a maior parte daquilo que se alega ser uma simples crítica política a Israel é de fato uma demonização do estado judeu e representa uma reciclagem de antigos preconceitos antissemitas, antes centrados na religião (rejeição aos judeus deicidas) ou em uma suposta "raça judia". Manifestações do novo antissemitismo, tais como o ressurgimento dos ataques aos judeus e seus símbolos, além da crescente difusão do discurso público antissemita, ocorreriam em todo o mundo.[3]

Os defensores desse conceito consideram que o antissionismo, o antiamericanismo, a antiglobalização, o terceiro-mundismo, o anticomunismo do passado (por meio do conceito de "judaico-bolchevismo"), bem como a demonização de Israel, podem abrigar ou se basear em uma ideologia antissemita ou, ainda, constituir formas disfarçadas de antissemitismo.[4] Segundo eles, o novo antissemitismo seria uma inovação nascida da oposição ao sionismo e ao Estado de Israel e que emanaria simultaneamente da extrema-esquerda, da extrema-direita e do Islã fundamentalista.[1]:296-297[4][5]

Os oponentes do conceito alegam que este trivializa o significado do antissemitismo, equiparando todas as críticas políticas a sentimentos irracionais de rejeição, e todas as formas de antissionismo ao antissemitismo. Essa trivialização é obtida por meio de uma definição muito estreita da crítica à política israelense e muito ampla do que seria demonização do Estado judeu, instrumentalizando a rejeição legítima ao antissemitismo para sufocar o debate.[6][7] Para o cientista político Norman Finkelstein, o novo antissemitismo é um argumento utilizado periodicamente desde os anos 1970 por várias organizações, tais como a Liga Antidifamação, "não para combater o antissemitismo mas para explorar o sofrimento histórico dos judeus, com o objetivo tornar Israel imune a críticas"[8].

Referências

  1. a b Fastenbauer, Raimund (2020). «Islamic Antisemitism: Jews in the Qur'an, Reflections of European Antisemitism, Political Anti-Zionism: Common Codes and Differences» [Antisemitismo islâmico: Os judeus no Alcorão, Reflexões sobre o antissemitismo europeu, Antissionismo político: Códigos e diferenças comuns]. Escrito em Berlim. In: Lange, Armin; Mayerhofer, Kerstin; Porat, Dina; Schiffman, Lawrence H. Confronting Antisemitism from the Perspectives of Christianity, Islam, and Judaism [Confrontando o antissemitismo a partir das perspectivas do cristianismo, do islamismo e do judaísmo]. 2. Boston: De Gruyter. doi:10.1515/9783110671773-018 
  2. Berkman, Matthew (2022). «The Conflict on Campus» [O Conflito no Campus]. In: Siniver, A. Routledge Companion to the Israeli-Palestinian Conflict [Companheiro de leitura da Routledge para o conflito israelense-palestino]. [S.l.]: Taylor & Francis. p. 522. ISBN 978-0-429-64861-8 
  3. Manfred Gerstenfeld, The Deep Roots of Anti-Semitism in European Society. Jewish Political Studies Review 17:1–2 Spring 2005. Cópia arquivada em 2 de março de 2014.
  4. a b Taguieff, Pierre-André. Rising From the Muck: The New Anti-Semitism in Europe. Ivan R. Dee, 2004.
  5. Cohen, Florette (2011). The New Anti-Semitism Israel Model: Empirical Tests [O novo modelo antissemitismo de Israel: Testes empíricos]. [S.l.]: BiblioBazaar. ISBN 9781243561398 
  6. Klug, Brian. The Myth of the New Anti-Semitism, The Nation, 2 de fevereiro de 2004. Cópia arquivada em 2 de fevereiro de 2004.
  7. Lerner, Michael. There Is No New Anti-Semitism. The Baltimore Chronicle, 5 de fevereiro de 2007. Cópia arquivada em 9 de julho de 2012.
  8. Finkelstein, Norman. Beyond Chutzpah: On the Misuse of Anti-Semitism and the Abuse of History, University of California Press, 2005, p. 21-22.