Nossa Senhora de Zeitoun

Nossa Senhora de Zeitoun
Nossa Senhora de Zeitoun
Alegada aparição da Virgem Maria sobre a igreja copta de El-Zeitoun, no Cairo, registada numa das fotografias do fenómeno.[1]
Instituição da festa 1971
Venerada pela Igreja Ortodoxa Copta
Principal igreja Igreja Copta de Santa Maria de El-Zeitoun
Festa litúrgica 2 de abril

Nossa Senhora de Zeitoun — também designada El-Zeitoun, Zeitun ou, por vezes, Nossa Senhora da Luz — é um título mariano ligado a um conjunto de alegadas aparições marianas ocorridas entre 2 de abril de 1968 e 1971 no bairro de El-Zeitoun, distrito do Cairo, Egito.[2][3]

Aparições

A primeira notificação data da noite de 2 de abril de 1968. Na ocasião, Mohamed Farouk Atwa, um mecânico de autocarros muçulmano que trabalhava defronte da Igreja Copta de Santa Maria, julgou ver uma mulher prestes a atirar-se do telhado. Outros dois transeuntes relataram a mesma silhueta luminosa e chamaram a polícia.[4] Uma multidão formou-se rapidamente; as autoridades atribuíam o fenómeno a reflexos de luz, mas não conseguiram dispersar os curiosos.[4]

Testemunhas cristãs e muçulmanas afirmaram tratar-se de uma aparição da Virgem Maria. O local converteu-se, então, em destino de peregrinação, reunindo milhares de pessoas que relatavam observar luzes em forma de aves ou figuras humanas.[5][6]

Novos episódios foram assinalados em 9 de abril e repetiram-se, segundo crentes locais, duas a três vezes por semana até 1971.[4] A tradição copta considera El-Zeitoun um dos possíveis refúgios da Sagrada Família na fuga para o Egito.

Investigações eclesiásticas

O papa Cirilo VI de Alexandria, primaz da Igreja Ortodoxa Copta, instituiu uma comissão presidida pelo bispo Gregório para analisar os relatos.[1] Em 4 de maio de 1968, Cirilo VI emitiu declaração confirmando a autenticidade das aparições.[7]

Religiosas da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus presenciaram os eventos e encaminharam relatório ao Vaticano. Um emissário pontifício deslocou-se a Zeitoun em 28 de abril, afirmou ter observado o fenómeno e enviou suas conclusões ao Papa Paulo VI. Por tratar-se de jurisdição copta, a Santa Sé limitou-se a registrar o caso. Em 5 de maio de 1968, Cirilo VI confirmou oficialmente as aparições.

Existem ainda alegações — não documentadas de forma conclusiva — de que o então presidente egípcio Gamal Abdel Nasser teria testemunhado o episódio.[8]

Ceticismo

As estimativas de público variam de “milhões” — cifra veiculada por folhetos confessionais — a cerca de 250 000 pessoas ao longo de três anos. A antropóloga Cynthia Nelson, da Universidade Americana do Cairo, esteve várias vezes no local (abril e junho de 1968) e relatou ver apenas reflexos de luz, embora tenha entrevistado fiéis que afirmavam o contrário.[9] As fotografias disponíveis são, em geral, de baixa qualidade e não correspondem ao elevado número de testemunhas mencionadas.[10]

Alguns autores inserem Zeitoun no contexto da crise nacional pós-Guerra dos Seis Dias (1967), quando circulou a ideia de que a derrota egípcia decorrera do afastamento religioso.[11]

Os sociólogos Robert Bartholomew e Erich Goode classificam o caso como “histeria coletiva”, sugerindo que fiéis, influenciados por expectativas religiosas, interpretaram fontes luminosas indefinidas como manifestações marianas.[12]

Donald Westbrook destaca que Zeitoun difere do modelo católico clássico: o primeiro avistamento teria sido feito por muçulmanos diante de grandes multidões, facto que, segundo o autor, ajuda a explicar a escassez de estudos académicos dedicados ao tema.[13]

Jubileu de ouro

De 10 a 13 de maio de 2018, a Igreja Copta comemorou o cinquentenário das supostas aparições com ofícios religiosos e eventos comemorativos.[14][15][16][17]

Ver também

Referências

  1. a b «The Apparitions of the Blessed Holy Virgin Mary to Millions in the Coptic Orthodox Church Named After Her, in Zeitoun, Cairo, Egypt (1968-1970)». zeitun-eg.org (em inglês). Consultado em 3 de fevereiro de 2021 
  2. Westbrook 2017, p. 85.
  3. «ظهور العذراء مريم فى مصر 2 أبريل 1968». newmiracles.org (em árabe). Consultado em 3 de fevereiro de 2021 
  4. a b c Carroll, Michael P. (1992). The Cult of the Virgin Mary: Psychological Origins (em inglês). Princeton: Princeton University Press. pp. 211–212. ISBN 0-691-02867-2 
  5. McClure 1983, pp. 125-127.
  6. Westbrook 2017, pp. 85-86.
  7. Grigorius (1968). St. Mary's Transfigurations: The Coptic Orthodox Church of Zeitoun (em inglês). Cairo: Dar Memphis Press. pp. 16–18 
  8. LaFave, Peter (21 de janeiro de 2016). «When Mary Returned to Egypt: The Apparitions at Zeitoun». The Christian Review (em inglês) 
  9. Nelson, Cynthia (1973). «The Virgin of Zeitoun». Worldview (em inglês). 16 (9): 5-11. doi:10.1017/S0084255900019951 
  10. McClure 1983, p. 125.
  11. Guenena, Nemat; Wassef, Nadia (1999). Unfulfilled Promises: Women’s Rights in Egypt (PDF) (em inglês). [S.l.]: Population Council. p. 7 
  12. «Mass Delusions and Hysterias — Highlights from the Past Millennium». Skeptically.org (em inglês) 
  13. Westbrook 2017, p. 87.
  14. «الكنيسة تبدأ اليوم الاحتفال باليوبيل الذهبى لظهور العذراء بكنيسة الزيتون». اليوم السابع (em árabe) 
  15. «البابا تواضروس يترأس صلوات عشية الاحتفال بظهور العذراء فى الزيتون». اليوم السابع (em árabe) 
  16. «اليوم.. 4 قداسات للاحتفال باليوبيل الذهبي لتجلي العذراء مريم». الدستور (em árabe) 
  17. «شاهد.. الاحتفال باليوبيل الذهبى لظهور العذراء مريم». الأقباط متحدون (em árabe) 

Bibliografia

  • McClure, Kevin (1983). The Evidence for Visions of the Virgin Mary: An Investigation of the Evidence for Marian Apparitions and Its Implications. Londres: The Aquarian Press 
  • Westbrook, Donald A. (2017). «Our Lady of Zeitoun (1968–1971): Egyptian Mariophanies in Historical, Interfaith, and Ecumenical Context». Nova Religio. 21 (2): 85-99. ISSN 1092-6690