Nem tudo que reluz é ouro

À primeira vista, a pirita (ouro dos tolos) parece ser ouro

"Nem tudo que reluz é ouro" (Inglês: All that glitters is not gold) é um aforismo que indica que nem tudo o que parece valioso ou verdadeiro realmente o é.

Embora as primeiras expressões da ideia sejam conhecidas desde pelo menos os séculos XII e XIII, o ditado atual é derivado de uma frase do século XVI de William Shakespeare, “All that glisters is not gold” (Nem tudo que brilha é ouro).

Origens

A expressão, em diferentes formas, surgiu no século XII ou antes[1] e pode remontar a Ésopo.[2] Em latim, a frase é Non omne quod nitet aurum est.[3] O monge francês Alain de Lille escreveu em 1175: "Do not hold everything gold that shines like gold" ("Nem tudo que brilha como ouro é ouro").[4]

Chaucer apresentou duas versões iniciais em inglês: "But al thyng which that shyneth as the gold / Nis nat gold, as that I have herd it told" ("Mas tudo o que brilha como ouro / Não é ouro, como ouvi dizer") em "The Canon's Yeoman's Tale [en]",[3] e "Nem tudo é ouro o que reluz" em "The House of Fame [en]".[5] John Heywood, em uma coletânea de sabedoria proverbial de 1546, incluiu a frase: "Nem tudo é ouro o que reluz, como dizem os contos".[6]

A forma popular da expressão deriva de uma linha da peça O Mercador de Veneza de William Shakespeare, que usa a palavra "glisters", sinônimo de "glitters" no século XVI. A frase aparece em uma trama secundária, no pergaminho dentro do cofre dourado no enigma das caixas de Pórcia [en] (Ato II – Cena VII – Príncipe de Marrocos):[7]

Reluz ou brilha

A versão original do dito usava a palavra glisters (brilha), embora frequentemente seja confundida com o sinônimo glitters (reluz). O poeta John Dryden usou glitter em seu poema de 1687, The Hind and the Panther [en].[1]

Arthur Golding, na tradução inglesa de 1577 dos sermões de João Calvino sobre a Epístola aos Efésios, usou a frase "Nem tudo é ouro que brilha" no sermão 15.[8]

Em 1747, Thomas Gray parafraseou o dito em seu Ode on the Death of a Favourite Cat, Drowned in a Tub of Goldfishes, com os versos finais:[9]

Usos iniciais

Na ópera cômica de 1878, H.M.S Pinafore, de Gilbert e Sullivan, a frase aparece como "Nem tudo que reluz é ouro".[10]

Em 1901, a editora musical M. Witmark & Sons [en] lançou "All That Glitters Is Not Gold", com letra de George A. Norton [en] e música de James W. Casey. Apesar do título, a primeira referência na letra é "nem tudo é ouro que reluz". A música é mais conhecida hoje por sua inclusão no desenho animado Bowery Bugs [en] (1949), de Pernalonga, baseado na história de Steve Brodie [en], que alegou ter pulado da Ponte do Brooklyn.[11]

Em 1946, outra música com o mesmo nome, "All That Glitters Is Not Gold", foi lançada pela Decca Records, escrita por Alice Cornett, Eddie Asherman e Lee Kuhn, e gravada pela orquestra de Jimmy Dorsey. A canção foi posteriormente regravada por outros artistas.[12]

Tolkien

A frase é referenciada com uma inversão de significado no poema "O Enigma de Passolargo", de J. R. R. Tolkien, escrito para O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel:[13]

O poema destaca que, por vezes, o ouro está escondido ou é confundido com outra coisa, em contraste com fachadas brilhantes sendo tomadas por ouro verdadeiro. Passolargo, secretamente o legítimo rei de Gondor, parece ser apenas um guardião. Tanto a frase de Tolkien quanto a original pedem ao leitor que olhe além das aparências.[13]

Led Zeppelin faz referência à frase na linha de abertura de sua canção de 1971, "Stairway to Heaven": "Há uma dama que tem certeza de que tudo o que reluz é ouro."

Neil Young usou a frase em sua música "Don't Be Denied" ("Nem tudo que reluz é ouro / Sei que você ouviu essa história"), do álbum de 1973, Time Fades Away [en], para expressar sua percepção de que o sucesso não o faria feliz, mesmo após alcançar fama e dinheiro.[14]

Na canção de 1973, "Get Up, Stand Up", de The Wailers, Bob Marley e Peter Tosh usaram a frase no primeiro verso para refletir os temas da música, como críticas ao colonialismo e ao cristianismo, e seus papéis em criar um sentimento de resignação na diáspora africana, contrário aos seus valores e crenças:[15]

Dan Seals [en] lançou em 1986 a música "Everything That Glitters (Is Not Gold) [en]", coescrita por Bob McDill [en]. A canção contrasta a moda e a fama de uma rainha de rodeio com o tratamento dado à sua família.[16]

A canção de 1995, "Gold [en]", de Prince, tem o refrão "Nem tudo que reluz é ouro".

Uma variação da frase aparece na música "Posthuman", de Marilyn Manson, no álbum de 1998, Mechanical Animals, com a linha "Tudo o que reluz é frio".[17]

A banda de rock Smash Mouth usou a versão "Tudo o que reluz é ouro" em sua canção de 1999, "All Star".[18]

A banda de rock Biffy Clyro usou o ditado na letra de seu single de 2013, "Biblical": "Eu sei como parece, mas Nem tudo que reluz é ouro".[19]

A música "The House Always Wins", de The Stupendium, inclui "Nem tudo que reluz é dourado" em seu refrão.[20]

A banda de rock progressivo Karmakanic lançou a música "All That Glitters Is Not Gold" em seu álbum Transmutation em 2025.[21]

Em 1993, "Nem tudo que reluz é ouro" foi o título do samba-enredo da Vai-Vai, campeã do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo.[22]

Ver também

Referências

  1. a b Martin, Gary (11 de dezembro de 2023). «All that glitters is not gold – the meaning and origin of this phrase» [Nem tudo que reluz é ouro]. Phrasefinder. Consultado em 15 de julho de 2025 
  2. «All that glitters is not gold - Everything2.com» [Nem tudo que reluz é ouro]. Everything2.com. Consultado em 15 de julho de 2025 
  3. a b Oxford Dictionary of English Proverbs 3ª ed. [S.l.]: Oxford University Press. 1970. p. 316. ISBN 0198691181 
  4. Flexner, Stuart Berg (1993). Wise Words and Wives' Tales: The Origins, Meanings and Time-honored Wisdom of Proverbs and Folk Sayings, Olde and New. [S.l.]: Avon Books. p. 7. ISBN 978-0380762385 
  5. «Hyt is not al golde that glareth» [Nem tudo é ouro o que reluz]. Theidioms.com. Consultado em 15 de julho de 2025 
  6. Heywood, John (1576). Heywoodes woorkes. [S.l.]: Thomas Marsh. p. 21 
  7. Shakespeare, William (1823). Measure for measure. Comedy of errors. Merchant of Venice. As you like it (em inglês). [S.l.]: Collins & Hannay. p. 171 
  8. Sermons of Iohn Caluin vpon Saint Paules Epistle too the Ephesians. [S.l.]: Early English Books Online. 1577. Consultado em 15 de julho de 2025 
  9. a b Tillotson, Geoffrey (2013). Augustan Studies. London: Bloomsbury Academic. p. 222. ISBN 978-1472507150 
  10. Sullivan, Arthur; Gilbert, William Schwenck (1879). ... H.M.S. Pinafore: Or, The Lass that Loved a Sailor. An Entirely Original Comic Opera, in Two Acts. [S.l.]: Bacon & company, Book and job printers 
  11. Norton, Geo. «All That Glitters Is Not Gold» [Nem tudo que reluz é ouro]. New York Public Library Digital Collections. Consultado em 15 de julho de 2025. Cópia arquivada em 11 de abril de 2016 
  12. «Jimmy Dorsey And His Orchestra – All That Glitters Is Not Gold / Doin' What Comes Natur'lly». Discogs. Consultado em 15 de julho de 2025 
  13. a b Kollmann, Judith J. (2007). «How 'All That Glisters Is Not Gold' Became 'All That Is Gold Does Not Glitter': Aragorn's Debt to Shakespeare». In: Croft, Janet Brennan. Tolkien and Shakespeare: Essays on Shared Themes and Languages. [S.l.]: McFarland & Company. pp. 110–127. ISBN 978-0786428274 
  14. Greene, Andy (3 de junho de 2015). «The 10 Best Neil Young Deep Cuts: 'Don't Be Denied'» [As 10 melhores músicas menos conhecidas de Neil Young: 'Don't Be Denied']. Rolling Stone. Consultado em 15 de julho de 2025 
  15. Genegabus, Jason (20 de outubro de 2011). «HIFF Review: 'Bob Marley: Making of a Legend'» [Resenha do HIFF: 'Bob Marley: A Construção de uma Lenda']. Honolulu Star-Advertiser. Consultado em 15 de julho de 2025 
  16. Dan Seals. «Everything That Glitters (Is Not Gold)» [Nem tudo que reluz é ouro]. Genius. Consultado em 15 de julho de 2025 
  17. «Omēga and the Mechanical Animals» [Ômega e os Animais Mecânicos]. Nachtkabarett. Consultado em 15 de julho de 2025 
  18. Smash Mouth. «All Star». Letras.mus. Consultado em 15 de julho de 2025 
  19. Biffy Clyro. «Biblical». Letras.mus. Consultado em 15 de julho de 2025 
  20. The Stupendium. «The House Always Wins». Letras.mus. Consultado em 15 de julho de 2025 
  21. Karmakanic. «All That Glitter Is Not Gold». Letras.mus. Consultado em 15 de julho de 2025 
  22. da Silva, Marko Antonio. «Central do Carnaval - 1993». Acervo Virtual do Carnaval SP. Consultado em 15 de julho de 2025