Nação (candomblé)

Nação no contexto do candomblé é o termo usado para distinguir os diferentes ramos ou agrupamentos da religião que se diferenciam pelo dialeto litúrgico, pelo toque dos atabaques e por variações rituais e litúrgicas. A noção de nação remete, também, à procedência étnico-geográfica dos escravos africanos que a originaram e às divindades (orixás, voduns, inkices etc.) cultuadas por esses grupos.[1]

Definição e função

A categoria «nação» organiza diferenças internas do candomblé segundo matriz étnico-linguística, repertório musical e práticas litúrgicas. Além de marcar a origem dos cultos e dos cultores, a distinção por nações funcionou historicamente como mecanismo de manutenção identitária entre povos africanos desagregados pelo tráfico atlântico — preservando idiomas, cantos, toques, danças, comidas rituais e hierarquias.[2]

[nota 1]

Principais nações por origem étnico-geográfica

As nações são agrupadas conforme grandes conjuntos culturais africanos que contribuíram para a formação das religiões afro-brasileiras:

Sudão histórico / grupo iorubá (nagôs)

As chamadas civilizações sudanesas foram representadas majoritariamente pelos iorubás (nagôs) nas formações religiosas brasileiras. Entre as nações e variantes relacionadas incluem-se:

[nota 2]

Reino do Daomé — nações jeje (fons e jejes)

O grupo daomeano originou as chamadas nações **jeje**:

Grupos sahelianos e islamizados

Outros conjuntos religiosos derivam de civilizações islamizadas do Sahel:

Grupos bantos — Angola e Congo

As civilizações bantas do eixo angola-congolês deram origem a diversas nações:

[nota 3]

Bantos da Contra-Costa / Moçambique

As tradições bantas da Costa Oriental (Contra-Costa) formaram as nações:

relacionadas a povos moçambiques, como os macuas e angicos.

Línguas sagradas

As práticas rituais do candomblé conservaram numerosas línguas africanas transmitidas pela oralidade. São repertórios cantados e falados presentes nas cantigas, invocações e fórmulas rituais.[3]

[nota 4]

No início do tráfico negreiro, todos os africanos eram genericamente chamados de negros da Guiné. À época, a região da Guiné designava um vasto território que se estendia do Senegal ao Gabão.

Resistência, memória e reprodução cultural

A escravidão fragmentou estruturas sociais africanas — linhagens, clãs e reinos — e fez dos cultos religiosos núcleos de memória e resistência. Guardiões da cultura oral, os africanos preservaram movimentos coreográficos, toques, cantigas, rezas e culinária ritual, que no Brasil passaram a ser chamados de cantigas (ou “pontos cantados” na Umbanda).

[nota 5]

O silêncio ritual, os segredos — conhecidos como calundus — e a formação de espaços autônomos, como quilombos e mucambos, foram estratégias de resistência, refúgio e preservação cultural.

[nota 6]

As casas religiosas, irmandades e confrarias funcionaram como redes de sociabilidade e proteção, abrindo caminho para a posterior consolidação dos candomblés como templos reconhecidos de culto afro-brasileiro.

Notas

  1. O termo nação não deve ser confundido com o conceito político moderno de "nação-Estado". No candomblé, trata-se de uma categoria cultural e ritual, associada às etnias africanas que deram origem aos diferentes sistemas de culto.
  2. As denominações “nagô”, “iorubá” ou “queto” são usadas no Brasil de forma intercambiável, embora indiquem subgrupos de origem comum no atual sudoeste da Nigéria e Benim.
  3. O termo banto designa um amplo grupo linguístico-cultural que se estende do centro ao sul da África, incluindo centenas de povos diferentes, unidos por línguas aparentadas.
  4. Essas línguas são conhecidas como “línguas sagradas” por sua função ritual, não necessariamente por serem compreendidas no cotidiano dos fiéis. A memorização e a sonoridade têm valor litúrgico próprio.
  5. O termo ponto cantado designa cânticos rituais usados na Umbanda e em alguns terreiros de candomblé para louvar entidades espirituais ou abrir e fechar trabalhos.
  6. Calundu era o nome dado, no período colonial, a ritos e práticas africanas realizados de forma reservada ou secreta, muitas vezes vistos pelas autoridades como “feitiçarias”.

Referências

Bibliografia

  • BASTIDE, Roger. The African religions of Brazil: Toward a sociology of the interpenetration of civilizations. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1978. [Ed. original: Les religions africaines au Brésil, PUF, 1960; As religiões africanas no Brasil, 1971.]
  • SILVA, Vagner Gonçalves da. "As nações do candomblé". In: Candomblé e Umbanda – caminhos da devoção brasileira. São Paulo: Selo Negro Edições, 2005. pp. 65–68.
  • CASTRO, Yéda Pessoa de. Antropologia e linguística nos estudos afro-brasileiros. UFBA.

Ligações externas