Movimento Nacional Congolês

Movimento Nacional Congolês
PresidenteFrançois Lumumba
Fundação10 de outubro de 1958 (67 anos)
SedeQuinxassa
IdeologiaLumumbismo:
Nacionalismo de esquerda
Socialismo democrático
Pan-africanismo
Anticolonialismo
Espectro políticoCentro-esquerda
Assembleia Nacional
0 / 500
Senado
0 / 108
CoresAzul e amarelo

O Movimento Nacional Congolês (MNC; em francês: Mouvement national Congolais), também chamado de Movimento Nacional Congolês-Lumumba (MNC-L), é um partido político da República Democrática do Congo.

Foi o mais importante movimento nacionalista a conduzir o processo de independência da República Democrática do Congo.

Histórico

Fundação do partido e independência nacional

O Movimento Nacional Congolês (MNC), organização de frente única nacionalista, teve início em outubro de 1958 sob liderança inicial de Patrice Lumumba, Cyrille Adoula e Joseph Iléo.[1] Sua ação se baseava em mobilização sindical, motins (o maior deles em janeiro de 1959) e protestos pela independência nacional, exercendo forte pressão sobre a Bélgica.[1] Foi o primeiro movimento político amplo e de relevo que superou os regionalismos e as questões étnicas da então colónia do Congo Belga.[1] Assim, o partido desempenhou papel central no nacionalismo e na independência quinxassa-congolesa no final da década de 1950 e início da década de 1960 sob a liderança de Lumumba.[1] Porém, um ano antes da independência nacional o próprio MNC sofre uma cisão, com o grupo principal e que controla o partido desde 1959, chamado de MNC-L, sustentando uma ideologia "lumumbista", que inclui o nacionalismo de esquerda, o socialismo democrático, o pan-africanismo, o anti-colonialismo e uma visão multirracial para a sociedade nacional,[1] enquanto que o grupo fraccionista Movimento Nacional Congolês-Kalonji (MNC-Kalonji), fundado por Albert Kalonji, sustentando visões mais tribalistas, federalistas e regionalistas.[1] A divisão causada por Kalonji, porém, foi um dos fatores que desestabilizaram a República Democrática do Congo desde 1960.[1]

Nas eleições parlamentares de maio de 1960, que seriam definidoras do futuro governo do novo país independente, o MNC-L, liderado por Lumumba, recebeu a maioria dos votos, mas foi obrigado a formar uma coalizão governista que incluiu o Partido da Solidariedade Africana, o Centro de Reagrupamento Africano e a Associação dos Bacongos para a Unificação, a Conservação e o Desenvolvimento da Língua Congo (Abako), além de grupamentos políticos menores.[1] Lumumba foi confirmado como primeiro-ministro.[1] Enquanto isso, o Senado e a Assembléia Nacional, elegeram Joseph Kasa-Vubu do regionalista e conservador Abako como presidente do país.[1] Em 30 de junho de 1960, o país conquistou a independência com o nome de República do Congo, assumindo os representantes eleitos em maio daquele ano.[2] Em julho de 1960 eclodiu uma rebelião contra o primeiro-ministro Lumumba, liderada por Moïse Tshombe, líder separatista que insuflava a insurgência em Catanga, com o apoio da Bélgica, Estados Unidos e França.[1] Antes do final do ano, Kasa-Vubu afastou Lumumba, eleito de forma democrática, do cargo de primeiro-ministro, num golpe de Estado.[3]

Assassinato de Lumumba e oposição ao mobutismo

Após o assassinato de Patrice Lumumba levado a cabo por Moïse Tshombe e pelos belgas,[3] Christophe Gbenye — o primeiro vice-prefeito de Quissangane, e Ministro do Interior no primeiro governo quinxassa-congolês entre junho e setembro de 1960 — tornou-se presidente do partido.[4] Ainda assim, Gbenye não era unanimidade no partido, havendo disputas de liderança com Joseph Kasongo, Charles Badjoko, Gabriel Lassiry e Antoine Kiwewa, todos às vezes alegando ser o sucessor legítimo de Lumumba.[4] Na conferência de março de 1961, que confirmou a liderança de Gbenye, os delegados expressaram o desejo geral de formar um bloco maior para abranger todos os lumumbistas do país.[4] Antoine Gizenga, membro do Partido da Solidariedade Africana e ex-membro do governo de Lumumba, anunciou em setembro que seu partido e o MNC-L estavam se fundindo para formar o Partido Nacional Lumumbista.[4] Os líderes do MNC-L rejeitaram a declaração, insistindo que um congresso do partido teria que ser realizado para definir sobre a fusão.[4] Enquanto isso, em função dos conflitos regionais e étnicos, a atividade político-partidária nacional fora do governo central quinxassa-congolês declinou bastante.[4] Embora o MNC-L tenha persistido por muito mais tempo do que outros grupos, em 1963 a atividade do partido havia cessado em Quinxassa.[4] Paralelo a isto, em dezembro de 1960, Gbenye reuniu os militantes do MNC-L e fundou, com Gizenga, a República Livre do Congo, que rapidamente dominou todo o leste da República Democrática do Congo.[4] Mesmo com o grupo de Gizenga negociando o fim do governo-rival da República Livre do Congo, grande parte dos seguidores do MNC-L permeneceu com Gbenye no leste do país, até 1965, quando o partido passou à total ilegalidade.[4] Os membros do MNC-L, que seguiram Gizenga a partir de 1962, passaram a ocupar pastas ministeriais no governo nacional até 1963.[4]

A ilegalidade política em 1965 impediu a existência do MNC-L em território nacional até 1990.[5] O partido continuou a operar no exílio, liderado por Gbenye a partir de Uganda, onde se aliou a outros grupos de oposição ao governo ditatorial de Mobutu Sese Seko e à sua ideologia oficial, o mobutismo.[5] Gbenye foi afastado da liderança partidária em 1971. No exílio, após a saída de Gbenye, os dois principais grupos que reivindicavam o nome do partido eram o MNC-L (facção principal) e o Movimento Nacional Congolês Reformado (MNCR).[5] O MNCR ficou sob a liderança de Paul-Roger Mokede. A facção principal do MNC-L ficou sob a liderança de François Lumumba, filho de Patrice Lumumba, que criou um braço armado chamado "Exército Patriótico Lumumba", formando uma coalizão com a Frente de Libertação do Congo – Patrice Lumumba (FLC-L), um grupo militante que travou uma insurgência de baixo nível no Zaire, na década de 1980.[5] Em setembro de 1985, o MNC-L, o MNCR, o Partido Democrático e Socialista Congolês e outros grupos de oposição declararam um governo provisório no exílio.[5]

Volta ao governo e reagrupamento

No início da década de 1990, um grupo rebelde anti-Mobutu conhecido como Conselho Nacional de Resistência para a Democracia (CNRD) tornou-se ativo. O CRND, liderado por André Kisase Ngandu, se apresentou como o novo braço armado do MNC-L. No mesmo período, um grupo de ativistas liderados por Pascal Tabu, Mbalo Meka e Otoko Okitasombo conseguiu refundar o MNC-L em Quinxassa em 1994.[5] Em 1996, o MNC-L, influenciado principalmente por Kisase Ngandu, passou a apoiar o lumumbista Laurent-Désiré Kabila. Os dois se tornaram os líderes da coalizão rebelde Aliança das Forças Democráticas para a Libertação do Congo (AFDL), lutando na Primeira Guerra do Congo para derrubar Mobutu.[6]

Após a queda do regime de Mobutu em 1997, as facções do MNC-L começaram a se reagrupar e participar da política nacional regular. Porém, algumas tendências do MNC-L, principalmente a liderada pelo primo de Patrice Lumumba, Albert Onawelho Lumumba, eram muito críticas ao governo do presidente Laurent-Désiré Kabila. Em contraste, a filha de Patrice Lumumba, Julienne Lumumba, membra do MNC-L, tornou-se parte do governo de Kabila.[7] Porém, houveram facções relevantes do MNC-L que nunca se reagruparam ao partido; um das facções que permaneceu dissidente foi o Partido Lumumbista Unificado (PALU), liderado por Gizenga, ex-ministro de Lumumba.[8]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k Margarido, Alfredo. A Revolução Congolesa (PDF). [S.l.]: Universidade Federal de Minas Gerais. p. 2-8. Consultado em 5 de julho de 2022 
  2. «Fatos históricos do dia 30 de junho». Notícias Terra. Consultado em 22 de janeiro de 2011 
  3. a b «Lumumba, Hammarskjöld and the Cold War in the Congo». African Magazine. 17 de janeiro de 2017 
  4. a b c d e f g h i j M. Crawford Young (1965). Politics in the Congo: Decolonization and Independence. Princeton: Princeton University Press 
  5. a b c d e f Tom Lansford (2012). Political Handbook of the World 2012. Thousand Oaks, California: SAGE Publishing. ISBN 978-1-60871-995-2 
  6. Francois Misser (19 de dezembro de 1999). «"Papa" ist nicht willkommen» (em alemão). Taz 
  7. Francois Misser (15 de dezembro de 1999). «Ein Belgier zersägte die Leiche» (em alemão). Taz 
  8. Pedro Monaville (Janeiro de 2019). «The political life of the dead Lumumba: Cold War histories and the Congolese student left». Africa. 89 (Supplement S1): S15–S39