Mosteiro de Tibães

Mosteiro de São Martinho de Tibães
Informações gerais
Estilo dominanteManeirismo, Barroco
ArquitetoManuel Álvares e Frei João Turriano
Construçãoséculo XVII
Proprietário inicialOrdem de São Bento
Função inicialReligiosa (mosteiro)
Proprietário atualEstado Português
Função atualReligiosa (igreja), cultural (museu) e educativa (escola profissional)
Websitemosteirodetibaes.gov.pt
Património de Portugal
Classificação Monumento Nacional
Ano2024
DGPC73612
SIPA1151
Geografia
PaísPortugal
LocalizaçãoMire de Tibães
Coordenadas🌍
Localização em mapa dinâmico

O Mosteiro de São Martinho de Tibães, localiza-se na freguesia de Mire de Tibães, município de Braga, distrito do mesmo nome, em Portugal. Foi até a extinção das ordens religiosas em Portugal, um mosteiro masculino beneditino, Casa-Mãe da congregação para Portugal e Brasil.[1]

O conjunto, que engloba a Igreja de Tibães e o Cruzeiro de Tibães, foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1944.[1] e Monumento nacional pelo decreto n.º 05/2024, de 30 de outubro.[1]

Mosteiro de Tibães: interior da igreja.

História

O mosteiro terá sido fundado por São Martinho de Dume, no século VI, dedicado a São Martinho de Tours, perto de uma antiga vila romana denominada Palatini que serviu de palácio ao rei suevo Teodomiro que deu o seu nome a freguesia de Mire de Tibães[nota 1][2].[3]

A uma légua da cidade de Braga, para o lado Norte, estiveram antigamente (conforme a tradição e sinais que há) uns Paços e casas de prazer do Rei Teodomiro entre os lugares de Sobrado e Mire vizinhos ao Rio Cávado (...). Perto destes Paços do rei, em lugar mais alto e eminente à vista do mesmo rio, ficava um sítio retirado e solitário que a S. Martinho Dumiense pareceu muito acomodado, para nele se fundar um Mosteiro de Monges. (...) O rei como era tão pio mandou logo se edificasse e se dedicasse a S. Martinho Turunense, de quem era devotíssimo devoto...»
 
Frei Leão de São Tomás, em Benedictina Lusitana[4].

O mosteiro foi reconstruído por D. Velasquides, em 1060, e seria de novo requalificado por D. Paio Guterres da Silva. Entre 1071 e 1078, é doado à Sé de Braga. Henrique de Borgonha, conde de Portucale e D. Teresa, em 1110, doam as terras adjacentes ao mosteiro, com uma área total superior a 700 ha, abarcando as atuais freguesias de Padim da Graça, Mire de Tibães, Parada de Tibães, Frossos, Panóias, Merelim São Paio e Merelim São Pedro,[5] e outorgam-lhe a Carta de Couto com os privilégios associados de exoneração de impostos, e o direito de exercer a sua própria justiça. Transformando assim o mosteiro num latifúndio, com direitos senhoriais.[6]

Fizemos aquele Couto e termo a favor do amor de nosso Senhor Jesus Cristo. Para que tenhamos daí em diante a mercê de Deus omnipotente no dia do Juizo e para os servos de Deus que aí habitam ou teriam habitado. Tenham sempre a nossa memória nas missas, nos cantos e em todos os trabalhos que respeitam a Deus...
 
Eu Conde Henrique una com minha mulher Infanta Dona Teresa e com as nossas mãos confirmamos e coroboramos..

D. Afonso Henriques faria mais duas doações ao Mosteiro: a primeira em 1135, do Couto de Donim (Guimarães), e a outra em 1140 com a doação de Santa Maria da Estela (Póvoa de Varzim). Após decisão do Concílio de Trento (1545-1563) que impôs a união das Ordens Religiosas em Congregações sob a direção de um Abade-Geral, funda-se em 1567 a “Congregação dos Monges Negros de São Bento dos Reinos de Portugal”, e o Mosteiro de São Martinho de Tibães é designado como Casa-Mãe da Ordem para Portugal e Brasil, por bula papal de Pio V,[7] talvez por ser o mais antigo, e ter mais monges (15 monges e 5 noviços).[6][nota 2]

O que obrigou a uma profunda renovação do mosteiro, assim os edifícios principais atualmente existentes foram todos erguidos entre os séculos XVII e XVIII, a igreja foi construida entre 1621 e 1661 pelos arquitetos Manuel Álvares e Frei João Turriano a mando de Frei Leão de São Tomás. O estaleiro do Mosteiro (igreja, hospício, hospedaria..), foi um centro de aprendizagem de onde irradiaram mestres, escultores e imaginários e exerceu uma enorme influência na arte barroca e rococó do norte de Portugal e das colónias ultramarinas. O seu interior permite-nos um percurso pela história da arte barroca em Portugal, desde o maneirismo final ou proto-barroco no Coro Alto, onde se pode admirar um impressionante cadeiral, passando pelo barroco joanino, com paragem obrigatória no rococó da capela-mor e dos retábulos do transepto, e acabando mesmo no neoclássico dos seus retábulos mais recentes. De facto, entre 1757 e 1760, o arquiteto André Soares desenhou o retábulo principal e a talha do arco triunfal da capela-mor, bem como os púlpitos e os retábulos laterais, todos eles marcos da arte rococó portuguesa. A talha dourada foi executada pelo Frei José de Santo António Vilaça e muitas estátuas da igreja e da sacristia são da autoria de outro célebre escultor, Frei Cipriano da Cruz,[1] ambos irmãos beneditinos do Mosteiro de Tibães. Destaque-se ainda nos jardins, várias lindas fontes alimentadas por um aqueduto e uma elegante escadaria barroca pontilhada de fontes, que culmina na Capela de São Bento. A Congregação, chegou a possuir 22 mosteiros e duas casas menores (S. João da Foz do Douro e a Procuradoria, ou Hospício, de Braga) em Portugal, e 13 mosteiros na Província Beneditina do Brasil até 1827.[7] E o mosteiro de Tibães detinha terras em Monção, Viana do Castelo, Nóbrega, Ponte da Barca, Amares, Prado, Barcelos, Braga, Guimarães e Esposende.

O saque de 1809

Com a chegada dos franceses em 20 de março de 1809 no quadro da segunda invasão francesa de Portugal, o mosteiro foi saqueado, principalmente pelos populares da zona só depois pelos franceses.

A este facto não é alheio o abandono a que o mosteiro foi votado pelos seus religiosos, tentando escapar à fúria dos invasores. O medo apoderou-se de todos, que fugiram como puderam...

estando nos ainda dentro do Mosteiro quazi a maior parte, já se tinha tirado muito pão do Recibo e saqueado inteiramente a dispensa de tudo o que nella havia pelo povo da Freguezia […] Esta noticia correo e quando chegou a guarda avançada dos Francezes que hera a maior parte de Cavalaria, já se achavão ali povo de todas as Freguezias vizinhas e com elles entrarão a roubar o que não tinha sido roubado pelos mesmos moços da caza e povo que entrou logo que sahimos...

Descargo de Trigo: Furtaram os Francezes cento e sessenta. Furtou o povo deste Couto, e vizinhos delle novecentos, e trinta e oito e dous quartos.

 
Fr. Luís dos Serafins SARAIVA[8].

O saque só parou pedindo ajuda aos franceses, e foi o próprio marechal Jean de Dieu Soult a mandar para lá uma guarda:

Tudo aquilo que escapou deve se ao zelo e amizade de hum sirurgião da Freguezia de Tibaens, chamado Domingos Joze (he necessario não esquecer este facto e mostrarmos em todo o tempo o nosso reconhecimento a este homem verdadeiramente bom e honrado amigo), logo que elle soube dos horrores que se cometião no Mosteiro, idiou hum requerimento e aprezentou se com elle ao Marechal Soult que tinha entrado em Braga, e acompanhado de hua mulher com hum cestinho de maçaens que então herão estimadas, foi por entre perigos e sustos solicitar hua ordem para por guardas ao Mosteiro e sustar nos roubos que ali se estavão fazendo. Felismente se agradou o marechal da sinceridade do prezente e da suplica e alcançando o Despacho que desejava, veio aprezenta lo aos Francezes que com o povo andavão roubando. Á vista do Despacho, forão os Francezes postos fora e o mesmo povo que era peor que elles, porque estavão tão imbebidos no saque que foi necessario deita lo fora a pranchadas de espada. Já comtudo a este tempo havia apenas algum vinho e o mais que digo escapou e que a não ser este sucesso teria sido tambem roubado e talves incendiado o Mosteiro, como queria o povo, que depois se arrependia de o não ter feito
 
Fr. Luís dos Serafins SARAIVA[8].

Só escaparam a Igreja, a livraria e a sacristia e o que foi previamente escondido:

Chegou a Tibaens noticia de que no dia 17 vinhão os Francezes almoçar a Braga; Cuidei eu logo em arranjar 4 caixoens em que meti o Cartorio da Secretaria e varios faqueiros de prata, castiçaes, tinteiro de Capitulo, as reliquias da Capela do R.mo e alguas outras pessas, como gomil e prato da mesma Capela e fis meter tudo de noite em hua abobada por baixo das hospedarias que ficão para o terreiro da lenha.
 
SARAIVA, Fr. Luís dos Serafins– Memorias sobre o Estado actual dos Mosteiros…, fl. 92..

Venda do Mosteiro

Com a extinção das ordens religiosas ocorrida em 1834, foi vendido em hasta pública, com exceção da igreja, sacristia e claustro do cemitério. As terras logo em 1838 por 7.860$00, mas os restantes edifícios só em 1864 por 3.605$00. E em 1894, o que tinha sido evitado em 1809, ocorreu mesmo, um grande incêndio destruiu o claustro do refeitório, o refeitório, a casa dos fogões, o noviciado, o coristado, o hospício, as oficinas, a casa das pinturas e os dormitórios (nascente e sul)[9]

Compra pelo Estado e recuperação do mosteiro

Recuperação dos edifícios

Manteve-se nas mãos de privados até 1986, e embora classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1944 estava em ruína completa quando foi adquirido pelo Estado Português pela quantia de 110 000 000$ . Desde então iniciou-se o processo de recuperação do espólio. Pelas suas características singulares, o mosteiro foi o palco escolhido para a XXIII Cimeira Ibérica que se realizou nos dias 18 e 19 de Janeiro de 2008.

Após um investimento de 15 milhões de euros, desde novembro de 2009 uma comunidade da família missionária internacional "Donum Dei", do grupo das Trabalhadoras da Imaculada, pertencente à Ordem Carmelita, está instalada numa ala do mosteiro. Em 11 de fevereiro de 2010, abriu ao público uma hospedaria com 9 quartos, e o restaurante "Eau Vive de Tibães", com capacidade de 50 pessoas.

Em 21 de janeiro de 2015, a Assembleia da República recomendou ao Governo que classifique o Mosteiro de Tibães como monumento nacional, o que aconteceu 9 anos depois em 2024.[1]

O museu do mosteiro

Ao longo de sua história, e dada a sua importância no Império Português, o mosteiro reuniu o maior e mais valioso espólio da região. Nele se destacavam a pintura, a escultura a arte sacra, a numismática e uma vasta coleção de livros em português, latim, francês, inglês, espanhol e italiano, sobre variados temas mas principalmente Teologia e História , com em 1823, cerca dez a doze mil títulos, grande parte destas edições do séc. XVIII, mas também dos sécs. XVI, XVII, e um número considerável de incunábulos. Após a alienação do imóvel, em 1834, a maior parte do espólio foi perdido.[5] O atual museu conserva apenas um fragmento desse espólio, ao qual se somam novas peças relacionadas com a história do mosteiro e a congregação Beneditina. É ainda possível percorrer o "Percurso Museológico", onde se aprecia a área envolvente ao Mosteiro, a sua arquitetura, as ruínas de edifícios anteriores, a mata e os jardins.

A cerca do Mosteiro

Fonte do tanque com o brasão da congregação

A propriedade de 40 ha está cercada por 2,7 km de murro de pedra de mais de três metros,[10] e é dividida entre uma zona agrícola, um jardim e a mata, e um conjunto de casas para animais e atividades agrícolas: os palheiros, a adega, o lagar, a casa do azeite, a casa da fruta, a casa do alambique, a capoeira, a coelheira, a casa dos boieiros, as cortes (porcos, ovelhas), casa dos cães, a casa do hortelão e a da madeira.[11]

  • A zona agrícola contém hortas ( linho, lúpulo, nabal e batatal), vinha, pomares, olivais, laranjais, pastagens e milheirais.[11]
  • A mata é composta por pinheiros e eucaliptos, mas com cada vez mais espécies autóctones (Gibaldeira, Azevinho, carvalho, loureiro, aveleira, medronheiro...).[11]
  • Os jardins são relevante pelo seu escadório (1731-34) com um chafariz e sete fontes, que representam as sete virtudes: quatro Cardeais – Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança; e três Teologais – Fé, Esperança e Caridade, que "eleva" o visitante para a capela de São Bento mandada construir entre 1553/1565 por Frei Bernardo da Cruz e reconstruida pelo Abade Frei Paulo da Assunção (1725-1727). Perto da capela um tanque com o brasão da Congregação Beneditina que alimenta as fontes e o chafariz. Também temos um lago (1795-1798) de forma elíptica do barroco final. Alimentado pela água que vem das minas, servia para alimentar o engenho de serrar madeira, dois moinhos e um engenho de azeite era também um importante reservatório de água para rega e um espaço de silêncio e meditação. De facto, um conjunto de cinco minas alimenta em água um aqueduto com arcadas em alvenaria de granito que delimite um lado da horta e que abastece o mosteiro em água.[11]

Principais figuras de Tibães

Classificações

  • 1910 Classificação do cruzeiro como Monumento Nacional.
  • 1944 A igreja, o mosteiro e demais construções arquitetónicas da cerca foram classificados como Imóveis de Interesse Público.
  • 1949 Criação da Área Especial de Proteção.[9]
  • 1994 Alargamento da Zona Especial de Proteção.
  • 2010 Um Pinus pinaster Aiton, vulgarmente conhecida por pinheiro bravo; dois Cedrus deodara (Roxb.) G.Don, árvores vulgarmente conhecidas por cedros-do-himalaia, da cerca do mosteiro, foram classificadas de interesse público.[1]
  • 2024 O Decreto n.º 05/2024, de 30 de outubro, amplia a área classificada do Mosteiro, altera a Zona Especial de Proteção do conjunto monástico, redenomina o monumento como Mosteiro de São Martinho de Tibães e reclassifica-o como conjunto de interesse nacional, atribuindo-lhe a designação de "Monumento Nacional".[9]

Ver também

Notas

  1. Mire de Miro ou Teodomiro vem de Mereis: Célebre, e Tibães talvez de þiubjo: Clandestino ou seja Teodomiro clandestino ou escondido
  2. Tibães 15, Rendufe 10, Pombeiro 7, Travanca 8, Arnóia 3 , Refojos de Basto 14, S. Romão de Neiva 5, Ganfei 4, Alpendurada 6, Santo Tirso 13 num total de 85 monges em 1569

Referências

  1. a b c d e f Ficha na base de dados SIPA/DGPC
  2. Joseph-Maria Piel, "Os nomes germânicos na toponímia portuguesa"
  3. José Carlos Gonçalves Peixoto, Mestre em Ciências da Educação; Professor; Coordenador do Departamento de Ciências Sociais e Humanas. «História por um canudo». Consultado em 2 de novembro de 2021 
  4. Frei Leão de São Tomás (1644). Diogo Gomes de Loureiro tipógrafo de Universidade, ed. Benedictina Lusitana. tome I. Coimbra: [s.n.] p. 375 
  5. a b Azevedo Duarte de Araújo, Ana Paula (2010). Universidade do Minho, ed. A Arte de Curar no Mosteiro de Tibães (Tese de Mestrado em História). Braga 
  6. a b c O mosteiro de Tibães e a reforma dos beneditinos portugueses no século XVI, Geraldo J. A. Coelho Dias
  7. a b Mosteiro de São Martinho de Tibães (ed.). «A Congregação Beneditina Portuguesa». Consultado em 6 de janeiro de 2026 
  8. a b Memorias sobre o Estado actual dos Mosteiros que vou vizitando, sendo 2.ª vez Secretario da Congregação depois que sahirão os Francezes, e segundo as noticias que achei e que me forão communicando os Prelados e diversas pessoas com que falei neste assumpto.Biblioteca Nacional: Manuscrito 11237, fls. 97-97 v.Mosteiro de São Martinho de Tibães (ed.). «As Invasões Francesas». Consultado em 6 de janeiro de 2026 
  9. a b c Mosteiro de São Martinho de Tibães (ed.). «Principais acontecimentos que marcaram a história do Mosteiro de São Martinho de Tibães». Consultado em 6 de janeiro de 2026 
  10. SIPA (ed.). «Cerca do Mosteiro de Tibães». Consultado em 20 de janeiro de 2026 
  11. a b c d Mosteiro de Tibãe (ed.). «A cerca». Consultado em 20 de janeiro de 2026 

Ligações externas