Marthe Gautier

Marthe Gautier
Conhecido(a) pordescoberta da trissomia 21
Nascimento
Morte
30 de abril de 2022 (96 anos)

Nacionalidadefrancesa
Alma materUniversidade de Paris
Prêmios
Carreira científica
Orientador(es)(as)Robert Debré
InstituiçõesUniversidade Paris-Diderot
Campo(s)Medicina

Marthe Monique Valentine Gautier (Montenils, 10 de setembro de 1925Meaux, 30 de abril de 2022) foi uma médica pediatra e pesquisadora francesa, conhecida por sua contribuição decisiva para a descoberta da trissomia 21, condição genética associada a Síndrome de Down.[1]

Especializada em cardiopediatria, Gautier foi diretora de pesquisa honorária do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França (INSERM). Em 1958, desempenhou um papel central na identificação do cromossomo supranumerário responsável pela trissomia 21, ao realizar análises citogenéticas fundamentais em laboratório. A pesquisa foi conduzida em colaboração com Raymond Turpin, chefe do laboratório, e contou também com a participação de Jérôme Lejeune, então estagiário.[2]

A descoberta foi apresentada em um artigo publicado nos Anais da Academia de Ciências da França em 26 de janeiro de 1959. Posteriormente, Gautier contestou a ordem das assinaturas do artigo, no qual Jérôme Lejeune figurava como primeiro autor. Segundo Gautier, Lejeune teria se atribuído a autoria principal da descoberta sem mencionar adequadamente que o trabalho experimental de laboratório havia sido realizado por ela.[3]

Essa controvérsia gerou amplo debate na comunidade científica e histórica, especialmente a partir dos anos 2000, levando a uma reavaliação do reconhecimento do papel de Gautier na história da genética médica. Diversas instituições científicas e historiadores da ciência passaram a destacar sua contribuição essencial para a identificação da trissomia 21.[3][1]

Biografia

Gautier nasceu em 1925, em Montenils, a quinta de sete filhos, em uma família de agricultores.[3][1]

Formação e início da carreira

Gautier descobriu sua vocação para a pediatria ainda jovem. Em 1942, mudou-se para Paris para acompanhar a irmã, Paulette, que estava prestes a concluir os estudos em medicina, com a intenção de também seguir a carreira de pediatra. Gautier foi aprovada no exame de ingresso do Internat des hôpitaux de Paris, um dos concursos médicos mais seletivos da França, e passou os quatro anos seguintes atuando como médica interna, período no qual adquiriu ampla experiência clínica em pediatria.[3][1]

Em 1955, defendeu sua tese de doutorado em cardiologia pediátrica, sob a orientação do médico e pesquisador Robert Debré, então uma das principais autoridades da pediatria francesa. O trabalho concentrou-se no estudo clínico e anatomopatológico das formas fatais da febre reumática, em especial da endocardite reumática decorrente de infecções por estreptococos.[4]

Aperfeiçoamento nos Estados Unidos

À época responsável pela organização da pediatria na França, Robert Debré concedeu a Gautier uma bolsa de estudos de um ano na Universidade Harvard[5], com o objetivo de aprofundar sua formação em cardiologia pediátrica. O projeto tinha dois objetivos principais: o primeiro era contribuir para a erradicação da febre reumática por meio do uso da penicilina e do tratamento das complicações cardiovasculares potencialmente fatais com cortisona[6]; o segundo visava à criação de um serviço especializado no diagnóstico e na cirurgia de cardiopatias congênitas em recém-nascidos e crianças pequenas.[7]

Em setembro de 1955, Gautier partiu para Boston, acompanhada por Jean Aicardi e Jacques Couvreur, ambos bolsistas do Programa Fulbright. Os três tornaram-se os primeiros internos dos Hospitais de Paris a receber bolsas de formação nos Estados Unidos. Durante sua permanência em Harvard, uma das atribuições de Gautier foi o treinamento como técnica de laboratório especializada em cultura celular. Paralelamente às atividades clínicas, ela trabalhou em tempo parcial na obtenção de culturas in vitro de fibroblastos a partir de fragmentos da aorta, adquirindo competências laboratoriais que seriam decisivas em sua carreira científica posterior.[8]

Retorno à França e ingresso na pesquisa genética

Após um ano nos Estados Unidos, Gautier retornou a Paris. Durante sua ausência, o cargo que ocupava no serviço de cardiologia pediátrica do Hospital Bicêtre havia sido atribuído a outro profissional. No entanto, ela foi informada da existência de uma vaga no Hospital Trousseau, integrando a equipe dirigida por Raymond Turpin.[9][10]

As pesquisas conduzidas por Turpin concentravam-se no estudo das síndromes polimalformativas, entre as quais a mais frequente era a trissomia, caracterizada por deficiência intelectual e anomalias morfológicas. Naquele contexto, Turpin defendia a hipótese de uma origem cromossômica para a trissomia. Contudo, a França ainda não dispunha de laboratórios especializados em cultura celular, e o número de cromossomos humanos era então estimado em 48, sem confirmação científica definitiva.[11]

Síndrome de Down

Cultura celular em laboratório

Em 1956, biólogos da Universidade de Lund, na Suécia, anunciaram que os seres humanos possuem exatamente 46 cromossomos. Anos antes, Raymond Turpin já havia proposto a ideia de cultivar células em laboratório para contar o número de cromossomos em casos de trissomia. Marthe Gautier havia ingressado recentemente no grupo de pediatria chefiado por Turpin no Hospital Armand-Trousseau e se ofereceu para tentar realizar esse trabalho, uma vez que havia recebido treinamento nos Estados Unidos em técnicas de cultura celular e coloração de tecidos. Turpin concordou em fornecer a ela amostras de tecido de pacientes com síndrome de Down. Com recursos extremamente limitados, Gautier montou o primeiro laboratório de cultura celular in vitro da França.[11]

Para realizar a contagem dos cromossomos, Gautier trabalhou com fibroblastos derivados do tecido conjuntivo, que eram mais fáceis de obter sob anestesia local. Embora o princípio da cultura celular seja relativamente simples, existiam muitos obstáculos práticos para sua aplicação nas condições precárias disponíveis. Gautier chegou a recorrer a um empréstimo pessoal para comprar vidrarias de laboratório e, em algumas ocasiões, utilizou o próprio sangue como fonte de soro humano. Com o tempo, ela confirmou que o protocolo funcionava, utilizando tecido conjuntivo obtido de um cirurgião vizinho, retirado durante intervenções cirúrgicas programadas em crianças. Para dispersar os cromossomos das células em divisão e facilitar sua contagem, ela empregou o método do “choque hipotônico”, seguido da secagem da lâmina após a fixação do material.[12]

Utilizando esse protocolo, Gautier constatou que as células de crianças sem alterações genéticas possuíam 46 cromossomos. Em maio de 1958, ela observou a presença de um cromossomo adicional nas células de um menino com trissomia, o que constituiu a primeira evidência de uma anomalia cromossômica em indivíduos com síndrome de Down.[11]

Divulgação dos resultados

Naquele período, os laboratórios do Hospital Armand-Trousseau não dispunham de um microscópio capaz de registrar imagens das lâminas. Por essa razão, Gautier confiou suas preparações a Jérôme Lejeune, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), que se ofereceu para fotografá-las em outro laboratório mais bem equipado. Em agosto de 1958, as fotografias identificaram claramente o cromossomo supranumerário em pacientes com síndrome de Down. No entanto, Lejeune não devolveu as lâminas e passou a relatar a descoberta como sendo de sua autoria.[11][13]

Em janeiro de 1959, após o estudo de novos casos e com o objetivo de evitar que pesquisadores ingleses publicassem resultados semelhantes, o laboratório de Trousseau anunciou oficialmente as conclusões da análise das lâminas nos Anais da Academia de Ciências da França. O artigo foi publicado com Lejeune como primeiro autor, Gautier como segunda autora, com seu sobrenome grafado incorretamente, e Turpin como último autor.[11][14]

A equipe de Turpin também identificou a primeira translocação cromossômica e a primeira deleção cromossômica, descobertas que resultaram em publicações das quais Marthe Gautier foi coautora.[14]

Atribuição da descoberta

Em abril de 1960, a condição passou a ser denominada trissomia 21. A partir de 1970, a Fundação Jérôme Lejeune começou a promover a descoberta como sendo principalmente obra de Lejeune. Em 2009, Marthe Gautier declarou que havia sido marginalizada por Turpin e por Lejeune, que teriam reivindicado a responsabilidade pela descoberta, apesar de ela ter iniciado e conduzido tecnicamente o trabalho fundamental. Consciente de ter sido manipulada, Gautier decidiu abandonar a pesquisa sobre a trissomia 21 e retornar ao cuidado de crianças com cardiopatias.[11]

A Fundação Jérôme Lejeune sustenta que uma carta enviada por Turpin a Lejeune em outubro de 1958 demonstraria que Lejeune, e não Gautier, teria identificado o quadragésimo sétimo cromossomo. A fundação afirma ainda que não existiriam provas de que Gautier tenha realizado a descoberta central.[15]

Em 31 de janeiro de 2014, Marthe Gautier deveria apresentar sua versão sobre seu papel na descoberta durante o sétimo congresso bienal de genética humana e médica, realizado em Bordeaux, ocasião em que também receberia o grande prêmio da Federação Francesa de Genética Humana. A Fundação Jérôme Lejeune obteve autorização do Tribunal de Grande Instância de Bordeaux para que oficiais de justiça registrassem em vídeo a sessão. No último momento, temendo que a gravação fosse utilizada em processos judiciais que não poderiam custear, os organizadores decidiram cancelar a apresentação, e Gautier recebeu o prêmio de forma privada.[16][15][17]

Em julho de 2014, o comitê de ética do INSERM publicou uma nota ressaltando o papel decisivo de Marthe Gautier no caso e utilizou o episódio para relembrar as regras internacionais relativas às publicações científicas e à atribuição de autoria. O documento afirma que “a história de uma descoberta não se confunde com a história da ciência, e o processo de validação do conhecimento é muito diferente”. Destaca ainda que, como a descoberta da trissomia teria sido impossível sem as contribuições indispensáveis de Raymond Turpin e Marthe Gautier, é lamentável que seus nomes não tenham sido sistematicamente associados a essa descoberta, tanto na comunicação pública quanto na concessão de prêmios e distinções.[18]

Gautier foi nomeada oficial da Ordem Nacional da Legião de Honra da França e condecorada em 16 de setembro de 2014. Anteriormente, ela havia recusado essa distinção duas vezes, antes de aceitá-la, segundo declarou, “por indignação diante da insolência da Fundação Lejeune”.[19]

Em 15 de novembro de 2018, Gautier foi promovida ao grau de Comendadora da Ordem Nacional do Mérito.[20]

Carreira médica

Após a descoberta da trissomia 21, Marthe Gautier deixou a equipe de Raymond Turpin e candidatou-se a um cargo no sistema público de saúde, com o objetivo de dedicar-se integralmente à cardiopediatria. Ela foi contratada pelo professor Nouaille em um serviço recém-criado no Hospital Kremlin-Bicêtre. Posteriormente, tornou-se pesquisadora sênior do INSERM.[10]

Últimos anos e morte

Após a aposentadoria, Gautier se dedicou à botânica e à pintura. Gautier morreu em 30 de abril de 2022, em Meaux, aos 96 anos, em uma casa de repouso.[21][22][23]

Referências

  1. a b c d «Décès de Marthe Gautier, découvreuse de la trisomie 21». La Recherche. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  2. Turpin, Raymond (1956). «Étude des syndromes polymalformatifs d'origine chromosomique». Revue française de pédiatrie (em francês) 
  3. a b c d INSERM. «Marthe Gautier, une pionnière de la génétique médicale» (em francês). Institut national de la santé et de la recherche médicale. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  4. Collège de France. «Robert Debré (1882–1978)» (em francês). Collège de France. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  5. «Harvard Medical School and School of Dental Medicine, 1956-57». Harvard University. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  6. Debré, Robert (1954). «La cardiologie infantile et la lutte contre le rhumatisme articulaire aigu». Bulletin de l’Académie nationale de médecine (em francês) 
  7. Harvard Medical School. «History of Harvard Medical School» (em inglês). Harvard University. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  8. Commission franco-américaine Fulbright. «Archives du programme Fulbright en France» (em francês). Fulbright France. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  9. Académie des sciences. «Archives et comptes rendus de l'Académie des sciences» (em francês). Institut de France. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  10. a b Gautier, Marthe; Harper, Peter S. (2009). «Fiftieth anniversary of trisomy 21: returning to a discovery». Human Genetics. 126 (2): 317–324. ISSN 0340-6717. doi:10.1007/s00439-009-0690-1 
  11. a b c d e f Pain, Elisabeth (11 de fevereiro de 2014). «After More Than 50 Years, a Dispute Over Down Syndrome Discovery». Science Now. 343 (6172): 720. Bibcode:2014Sci...343..720P 
  12. Le Méné, Jean-Marie (2009). «La découverte de la trisomie 21». Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  13. Gautier, Marthe (30 de setembro de 2009). «La découvreuse oubliée de la trisomie 21». La Recherche (434). 57 páginas. Cópia arquivada em 2 de fevereiro de 2014 
  14. a b Lejeune, Jérôme; Gauthier, Marthe; Turpin, Raymond (1959). «Les chromosomes humains en culture de tissus». Comptes Rendus Hebdomadaires des Séances de l'Académie des Sciences. 248 (1): 602–603 
  15. a b Casassus, Barbara (11 de fevereiro de 2014). «Down's syndrome discovery dispute resurfaces in France». Nature. doi:10.1038/nature.2014.14690 
  16. «Trisomie 21: la Fondation Lejeune menace par huissiers». Libération. 3 de fevereiro de 2014. Consultado em 12 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 17 de junho de 2016 
  17. «Who really decoded Down's syndrome?». New Scientist. 5 de abril de 2014. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  18. Gautier, Marthe (2009). «Fiftieth anniversary of the trisomy 21: return on a discovery». Med. Sci. (Paris). Médecine/Sciences. 25 (3): 311–316. PMID 19361398. doi:10.1051/medsci/2009253311. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  19. «Le rôle reconnu de Marthe Gautier dans la découverte de la trisomie 21». 25 de setembro de 2014. Consultado em 12 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 13 de fevereiro de 2023 
  20. «Journal officiel électronique authentifié n° 0265 du 16/11/2018». Journal officiel de la République française (em francês). Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  21. Agence France-Presse, ed. (2 de maio de 2022). «Faleceu Marthe Gautier, co-descobridora da trissomia 21». Correio Braziliense. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  22. Nathaniel Herzberg (3 de maio de 2022). «La mort de Marthe Gautier, découvreuse du chromosome à l'origine de la trisomie 21». Le Monde. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  23. Pearce Wright (11 de dezembro de 2001). «Obituary: Joe Hin Tjio» (em inglês). the Guardian. Consultado em 12 de janeiro de 2026