Marrocosgate
O Marrocosgate (em francês: Marocgate, e em inglês: Moroccogate) é um escândalo no Parlamento Europeu que eclodiu em dezembro de 2022.
O Marrocos foi acusado de ter tentado influenciar as decisões do Parlamento Europeu durante vários anos, particularmente no que diz respeito à posição de Rabat sobre a reivindicação de soberania sobre o território do Saara Ocidental, por meio de doações em dinheiro, presentes e viagens ao Marrocos. Vários diplomatas marroquinos e deputados europeus são, portanto, alvos dessas acusações de corrupção.[1]
Descoberta do caso
O escândalo Moroccogate eclodiu em 9 de dezembro de 2022, com a prisão do eurodeputado Antonio Panzeri em Bruxelas. Uma investigação dos serviços de inteligência belgas estava em andamento sobre alegações de corrupção, envolvendo inicialmente o Marrocos e posteriormente o Catar, no que ficou conhecido como Qatargate.[2]
Revelações
Pouco depois das primeiras prisões relacionadas ao Qatargate, foi confirmado o envolvimento do Marrocos em outro escândalo de corrupção, o Moroccogate.[3]
Serviços de inteligência marroquinos
No final de dezembro de 2022, a imprensa revelou que um documento investigativo supostamente demonstrava o envolvimento de alto nível da Direção-Geral de Estudos e Documentação (DGED), o serviço de inteligência marroquino, no caso. De acordo com uma reportagem citada pelo Der Spiegel, a DGED teve contatos já em 2019 com o ex-deputado europeu italiano Pier Antonio Panzeri, seu assistente Francesco Giorgi e outro deputado europeu italiano, Andrea Cozzolino. O objetivo era influenciar o grupo socialista no Parlamento Europeu. A revista investigativa alemã afirma que os três italianos também estavam em contato direto com o diretor-geral dos serviços secretos da DGED.[4][5]
Comissão Parlamentar Mista Marrocos-UE
O diplomata marroquino Abderrahim Matmoun, presidente da Comissão Parlamentar Mista Marrocos-UE, está implicado na investigação.[6][7][8][9] Documentos datados de 2013 revelam que a missão marroquina junto à UE recebeu informações "para combater o crescente ativismo dos seus opositores no Parlamento Europeu".[10]
Grupo de Amizade UE-Marrocos
A investigação destaca o papel central que o Grupo de Amizade UE-Marrocos alegadamente desempenhou nesta rede de corrupção.[8][11] De 2009 a 2019, o deputado francês Gilles Pargneaux foi o seu presidente e recebeu presentes do Marrocos.[12] O grupo organizou diversas viagens a hotéis de luxo no Marrocos.[13] Ao regressarem, os membros adotaram posições favoráveis a Rabat, em particular em relação ao Saara Ocidental.[14]
Fundação EuroMedA
Em 2017, Marrocos e Gilles Pargneaux, casado com uma marroquina[14], criaram a Fundação EuroMedA, sediada em uma empresa de lobby em Bruxelas. O objetivo desta fundação é realizar "lobby intenso", particularmente em prol do "reconhecimento da identidade marroquina do Saara Ocidental" e silenciar as críticas aos direitos humanos no Marrocos.[10][15]
Reações
União Europeia
Em 13 de janeiro de 2023, o Parlamento Europeu adotou uma resolução condenando Marrocos pela repressão a jornalistas e pela violação das liberdades[16], citando o caso de Omar Radi, um opositor perseguido e condenado pelo regime de Rabat.[17] A resolução também descreve a UE como "preocupada com as alegações de que as autoridades marroquinas tentaram subornar membros eleitos do Parlamento Europeu".[2] Os eurodeputados proibiram temporariamente a entrada de representantes marroquinos no Parlamento Europeu.[18][19]
Em 16 de fevereiro de 2023, o Parlamento Europeu adotou uma nova resolução contra Marrocos, desta vez relativa ao tráfico de influências.[19]
Marrocos
Apesar das inúmeras acusações, Marrocos continua a negar as alegações de corrupção.[20]
Em 20 de dezembro de 2022, Aziz Akhannouch, o primeiro-ministro marroquino, decidiu apresentar uma queixa contra o deputado José Bové após este ter testemunhado uma tentativa de corrupção por parte do Marrocos.[21][22] Com efeito, quando se desentenderam em 2010 sobre um acordo agrícola, o deputado testemunhou que lhe foi oferecido pelo político marroquino "um presente em Montpellier, num café discreto".[10]
Oposição marroquina
Opositores políticos marroquinos, perseguidos e reprimidos pelo regime, denunciam o Moroccogate. Segundo eles, a corrupção comprometeu a proteção dos direitos humanos no Marrocos, com a UE sendo conivente as violações em troca de presentes.[23]
Ver também
Nota
- Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em francês cujo título é «Marocgate».
Referências
- ↑ Elias Ferrer Breda (26 de novembro de 2023). «Moroccogate: Corruption And Blood Renewables In The Western Sahara». forbes.com. Cópia arquivada em 26 de novembro de 2023
- ↑ a b «Au Parlement européen, le retour de bâton du "Marocgate"». Le Monde (em francês). 19 de janeiro de 2023
- ↑ «« Qatargate » : l'enquête fait apparaître l'implication du Maroc». Le Monde.fr (em francês). 15 de dezembro de 2022
- ↑ «Le Maroc aurait joué un plus grand rôle dans le Qatargate». lecho.be (em francês). 29 de dezembro de 2022
- ↑ «EU-Korruptionsskandal – Marokkos Rolle wohl größer als gedacht». derstandard.at (em alemão). 28 de dezembro de 2022
- ↑ «Corruption au Parlement UE: des responsables marocains dans le viseur de la justice belge». Le Desk (em francês)
- ↑ «Corruption au Parlement européen : un mystérieux espion marocain au cœur de l'enquête». Le Monde.fr (em francês). 17 de dezembro de 2022
- ↑ a b «Marocgate. À Bruxelles, les amis français du roi du Maroc | L'Humanité». www.humanite.fr (em francês). 5 de janeiro de 2023
- ↑ «Après le Qatar, le rôle du Maroc dans le scandale de corruption au Parlement européen interroge». Le HuffPost (em francês). 17 de dezembro de 2022
- ↑ a b c «Parlement européen : derrière le Qatargate, le Marocgate». La Croix (em francês). 21 de dezembro de 2022. ISSN 0242-6056
- ↑ «Sous les ors du Sénat, les amitiés marocaines de Christian Cambon | L'Humanité». www.humanite.fr (em francês). 27 de fevereiro de 2023
- ↑ «Parlement européen : après le Qatargate, un Marocgate ?». La Voix du Nord (em francês). 17 de dezembro de 2022
- ↑ Benoît Collombat (10 de março de 2023). «Scandale au Parlement européen : pourquoi a-t-on supprimé les groupes d'amitié ?». France Inter (em francês)
- ↑ a b «Corruption au Parlement européen : entre diplomatie et lobbying, le rôle ambigu du groupe d'amitié UE-Maroc». Franceinfo (em francês). 11 de março de 2023
- ↑ «Maroc-UE : la Fondation EuroMedA se défend d'être un groupe de lobbying – Jeune Afrique». JeuneAfrique.com (em francês)
- ↑ «« Personne ne voulait voir la situation dramatique de la liberté de la presse au Maroc »». L'Obs (em francês). 13 de fevereiro de 2023
- ↑ «Parlement européen: un mois après le scandale de corruption, un premier vote exceptionnel contre le Maroc». Le Soir (em francês). 13 de janeiro de 2023
- ↑ «Soupçons de corruption: une demande pour interdire au Maroc l'accès au Parlement européen». Le Soir (em francês). 24 de janeiro de 2023
- ↑ a b «Le Maroc bientôt interdit d'accès au Parlement européen ? – Jeune Afrique». JeuneAfrique.com (em francês)
- ↑ «'Marocgate': el lobby marroquí que compra eurodiputados y periodistas para conseguir el reconocimiento del Sahara». El Español (em espanhol). 24 de dezembro de 2022
- ↑ «Soupçons de corruption au Parlement européen : le Premier ministre marocain Aziz Akhannouch porte plainte pour diffamation contre José Bové». Franceinfo (em francês). 20 de dezembro de 2022
- ↑ «Euromazzette, il silenzio del Marocco: il governo tace e la stampa locale ignora l'inchiesta in Ue. Ma elogia l'operato dei servizi». Il Fatto Quotidiano (em italiano). 23 de dezembro de 2022
- ↑ «Marocgate : des victimes marocaines montent au créneau». La Croix (em francês). 25 de fevereiro de 2023. ISSN 0242-6056